{"id":20581,"date":"2019-05-19T13:33:53","date_gmt":"2019-05-19T13:33:53","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20581"},"modified":"2019-05-19T13:42:38","modified_gmt":"2019-05-19T13:42:38","slug":"nestor-e-a-pergunta-biblica","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/nestor-e-a-pergunta-biblica\/","title":{"rendered":"Nestor e a pergunta b\u00edblica"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Gar\u00e7om,<\/p>\n<p>Desce um.<\/p>\n<p>Desce dois.<\/p>\n<p>Desce mais&#8230;<\/p>\n<p>Que hoje por aqui vamos bebemorar a vit\u00f3ria palestrina sobre o Peixe&#8230;<\/p>\n<p>Um. Dois. Tr\u00eas. Quatro a zero.<\/p>\n<p>Ah, sim&#8230; e continuar a hist\u00f3ria que ontem prometi hoje lhes contar do meu amigo, o Nestor. Hoje ele mora na B\u00e9lgica e, na inf\u00e2ncia, em sua r\u00e1pida passagem pelo Cambuci, era conhecido como \u201co bodoque infal\u00edvel\u201d.<\/p>\n<p>Se quiserem, por vias da d\u00favida, podem reler o post \u201cTite, Neymar e a sele\u00e7\u00e3o\u201d para se inteirar de nossa ilustre tem\u00e1tica fiquem \u00e0 vontade. Em resumo, acho que os coleguinhas da cr\u00f4nica esportiva andam muito cocorocas em rela\u00e7\u00e3o ao que Neymar faz ou deixa de fazer fora de campo.<\/p>\n<p>Se quiserem ir at\u00e9 l\u00e1, rolem a barra, cheguem at\u00e9 l\u00e1, e depois me honrem com a volta \u00e0 cr\u00f4nica deste pl\u00e1cido domingo.<\/p>\n<p>Eu espero.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Todos a bordo?<\/p>\n<p>Continuemos&#8230;<\/p>\n<p>O Nestor era um galego boa-gente que apareceu, de repente, l\u00e1 pelas bandas da Muniz de Souza. Logo fez amizade com a meninada entre onze, doze, treze anos.<\/p>\n<p>(Os de catorze se achavam aptos a andar com os grand\u00f5es de quinze, dezesseis pra cima, e logo abandonavam nossa corriola.)<\/p>\n<p>Para n\u00f3s, as brincadeiras todas estavam liberadas. Bolinha de gude, carrinho de rolim\u00e3, empinar pipa (que cham\u00e1vamos de quadrado), jogar pe\u00e3o, participar do campeonato de bot\u00e3o da rua, roubar goiabinhas verdes na ch\u00e1cara do portuga, nadar no lago do Jardim da Aclima\u00e7\u00e3o e frequentar as matin\u00eas de domingo no cine Riviera.<\/p>\n<p>E jogar futebol e jogar futebol e jogar futebol. Que, no fundo, era s\u00f3 o que pens\u00e1vamos.<\/p>\n<p>Faz\u00edamos essas coisas todas enquanto aguard\u00e1vamos a chegada da bola de capot\u00e3o. A\u00ed era bola rolando at\u00e9 o dia escurecer.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m dessas atividades todas, a fama do Nestor se criou em outra especialidade n\u00e3o-ol\u00edmpica. Ao contr\u00e1rio da gente, o cara era o rei do bodoque. Que n\u00f3s, os nascidos no Cambuci, cham\u00e1vamos de estilingue, atiradeira.<\/p>\n<p>O cara tinha uma pontaria impressionante.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Deu-se que uma tarde sa\u00edmos em peregrina\u00e7\u00e3o at\u00e9 o centro de S\u00e3o Paulo, no p\u00e9 dois mesmo, em busca de carteiras vazias de ma\u00e7os de cigarros para nossas valiosas cole\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Eram tantas e tamanhas \u00e0s nossas a\u00e7\u00f5es que acabei por me esquecer de relacionar esta: a de compulsivos colecionadores. Carteira de cigarros, bolinha de gude, tampinha, selo (os mais cdfs), gibis, figurinhas, distintivo de autom\u00f3vel e tinha at\u00e9 o maluco do Daba\u00eda que guardava bula de rem\u00e9dios.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Como ia dizendo, caminh\u00e1vamos pelas ruas, olhos pregados ao ch\u00e3o na insana busca.<\/p>\n<p>At\u00e9 que fomos dar com os costados e o resto todo do corpo em frente ao Teatro Municipal, onde havia uma movimenta\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>L\u00e1, diante das atraentes vitrines do Mappin, um senhor de terno amarfanhado berrava, gesticulava, se contorcia chamando a aten\u00e7\u00e3o das pessoas, com a B\u00edblia em uma das m\u00e3os.<\/p>\n<p>Paramos para ver que a molecada daquele tempo era curiosa.<\/p>\n<p>Pouco ou quase nada entend\u00edamos do que o homem dizia.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ele parecia em transe.<\/p>\n<p>A cada manifesta\u00e7\u00e3o que fazia erguia o livro e perguntava:<\/p>\n<p>&#8211; Que atire a primeira pedra, quem nunca errou.<\/p>\n<p>A gente ali, curiosa sim; mas assustada tamb\u00e9m, s\u00f3 vendo onde o bicho ia dar.<\/p>\n<p>J\u00e1 disse e repito:<\/p>\n<p>Ele berrava, gesticulava, se contorcia, erguia o grosso tomo de capa preta e perguntava:<\/p>\n<p>&#8211; Que atire a primeira pedra, quem nunca errou.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Na terceira ou quarta vez que o senhor repetiu a pergunta sem resposta&#8230;<\/p>\n<p>PIMBA!!!<\/p>\n<p>Levou uma pedrada no meio da testa.<\/p>\n<p>Todos olharam para o nosso lado, onde o Nestor com estilingue na m\u00e3o, exibia um sorriso vitorioso.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Houve certo tumulto que se aquietou assim que o senhor se levantou e, meio zonzo, veio a te n\u00f3s. Olhou fundo nos olhos do amigo Nestor (que continuou imp\u00e1vido) e mudou a indaga\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Mas, por que, filho querido? Por qu\u00ea? Mesmo voc\u00ea, garoto ainda, vai dizer que nunca pecou, nunca errou? Diga, filho, nunca errou?<\/p>\n<p>E o Nestor, todo posudo:<\/p>\n<p>&#8211; Pecar, pecar, eu pequei. Mas, desta dist\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 pra me gabar, n\u00e3o; nunca errei n\u00e3o, tio!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Gar\u00e7om,<\/p>\n<p>Desce um.<\/p>\n<p>Desce dois.<\/p>\n<p>Desce mais&#8230;<\/p>\n<p>Que hoje por aqui vamos bebemorar a vit\u00f3ria palestrina sobre o Peixe&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20582,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[260,261,264,263,259,262,135,149],"class_list":["post-20581","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-bodoque","tag-brincadeiras","tag-cambuci","tag-garotos","tag-infancia","tag-mappin","tag-memoria","tag-nestor"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20581","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20581"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20581\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20585,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20581\/revisions\/20585"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20582"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}