{"id":20612,"date":"2019-05-24T14:48:09","date_gmt":"2019-05-24T14:48:09","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20612"},"modified":"2019-05-24T15:08:29","modified_gmt":"2019-05-24T15:08:29","slug":"assim-falou-a-dona-yolanda-minha-mae","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/assim-falou-a-dona-yolanda-minha-mae\/","title":{"rendered":"Assim falou Dona Yolanda, minha m\u00e3e&#8230;"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>foto: L. Cunha<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sexta pela manh\u00e3, acordava e, antes de ir para a velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado, passava no apartamento dos pais para tomar um caf\u00e9 refor\u00e7ado.<\/p>\n<p>Era praxe a cena:<\/p>\n<p>Jornal na m\u00e3o, o pai lia em voz alta a coluna que eu escrevera naquela semana. A m\u00e3e j\u00e1 estava com a vis\u00e3o esmaecida \u2013 e, l\u00e1 do jeito dela, se fazia interessada no assunto.<\/p>\n<p>(Tenho l\u00e1 minhas d\u00favidas.)<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Ao final, o Velho Aldo se mostrava orgulhoso do filho jornalista e levava o jornal para compartilhar com os amigos da padaria, do ponto de t\u00e1xi, da barbearia, fosse onde fosse.<\/p>\n<p>Dona Yolanda era mais lac\u00f4nica no coment\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o adianta, filho, as pessoas s\u00f3 enxergam e ouvem o que querem. S\u00e3o distra\u00eddas e surdas para o que n\u00e3o querem. Tente entender o lado que n\u00e3o \u00e9 o seu.<\/p>\n<p>Desconfio que a m\u00e3e, em sua simplicidade, j\u00e1 previa o fen\u00f4meno da \u201cbolha\u201d que hoje vivemos.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o foram poucas as vezes que ouvi s\u00e1bias palavras daquela senhorinha mi\u00fada, de cabelos branquinhos, branquinhos.<\/p>\n<p>Por vezes, parecia ranhetice de m\u00e3e:<\/p>\n<p>&#8211; A pessoa s\u00f3 se co\u00e7a quando mexem no seu bolso.<\/p>\n<p>E outra?<\/p>\n<p>&#8211; Agir por ressentimento n\u00e3o d\u00e1 camisa a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>(Podemos entender agir por \u00f3dio, por vingan\u00e7a, essas doidices.)<\/p>\n<p><strong>&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>A m\u00e3e era uma dona de casa das antigas, dessas em extin\u00e7\u00e3o (feliz ou infelizmente, a gosto do fregu\u00eas ou do politicamente correto) que vivia para o marido e os filhos e ia muito pouco al\u00e9m do chamado n\u00facleo familiar.<\/p>\n<p>As coisas que dizia, portanto, n\u00e3o tinham o tal matiz ideol\u00f3gico, pol\u00edtico, econ\u00f4mico. Eram um olhar sobre o cotidiano, a vida mais comezinha, a vida real.<\/p>\n<p>Mas, vejo hoje, muitas das considera\u00e7\u00f5es que fazia seriam bem oportunas, aplicadas aos nossos dias nos mais diversos setores da sociedade:<\/p>\n<p>&#8211; Dinheiro e poder, dizem, n\u00e3o trazem felicidade. Mas, movimentam o mundo.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Dona Yolanda n\u00e3o era ambiciosa.<\/p>\n<p>Queria mesmo era viver em paz \u2013 e acho que, na fase final da vida, conseguiu a proeza.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o motivo que me trouxe a essas linhas, a essas lembran\u00e7as. Olhei o notici\u00e1rio, conferi o que havia de novo no celular, liguei e desliguei a TV \u2013 e vim para o computador com outra certeza que a m\u00e3e dividia com a gente:<\/p>\n<p>&#8211; Tem que confiar desconfiando.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Desculpem a\u00ed, se estou sendo deselegante com este ou com aquele, se n\u00e3o vejo e n\u00e3o defendo o lado deste ou daquele. Sei que vivemos na tal bolha, num tempo de intoler\u00e2ncia, em que a opini\u00e3o (abalizada ou n\u00e3o) se p\u00f5e acima da verdade factual; num tempo em que se aperta o bot\u00e3o do DANE-SE e vida que segue.<\/p>\n<p>Mas, convenhamos, as perguntas est\u00e3o pela a\u00ed, soltas no pesado ar que respiramos. Da Amaz\u00f4nia devastada aos engomadinhos do pour-point no sul do Pa\u00eds. Da base de Alc\u00e2ntara no Maranh\u00e3o entregue aos americanos aos alegres acionistas da Taurus:<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que est\u00e1vamos t\u00e3o cegos e surdos \u2013 e assim continuamos \u2013 quando n\u00e3o enxergamos o \u00f3bvio da corrida eleitoral?<\/p>\n<p>De olho arregalado no vil metal e no tal poder (que bem pode ser uma vaga no STF), n\u00e3o t\u00ednhamos a exata no\u00e7\u00e3o do que lacr\u00e1vamos nas urnas?<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que fomos t\u00e3o ing\u00eanuos assim a ponto de confiar todas as nossas esperan\u00e7as em quem sempre apostou no retrocesso?<\/p>\n<p>E t\u00eam outras e mais outras. Perguntas n\u00e3o faltam. Muitas, todas.<\/p>\n<p>Paro por aqui.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Vejo muita gente que ainda duvida do que l\u00ea e ouve sobre os malfeitos da Corte em Bras\u00edlia:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 intriga \u2013 dizem.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o deixam o homem governar.<\/p>\n<p>Outros, enfim, perceberam a canoa furada que embarcaram e nos levaram juntos.<\/p>\n<p>Dizem-se janainamente arrependidos, que n\u00e3o sabiam e isto e aquilo e aquel\u2019outro.<\/p>\n<p><strong>&#8230; <\/strong><\/p>\n<p>Dona Yolanda, que a saudade e a vida me fazem referenciar nesta manh\u00e3 de sexta de desjejum descafeinado, teria a frase certa:<\/p>\n<p>&#8211; Arrependimento \u00e9 bom quando \u00e9 sincero. E n\u00e3o fica s\u00f3 no palavr\u00f3rio.<\/p>\n<p>Mais uma pra terminar:<\/p>\n<p>&#8211; Reze, filho, reze. E v\u00e1&#8230; Se d\u00ea ao trabalho que n\u00e3o h\u00e1 mal que sempre dure&#8230;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a8EO7Fm9JEM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>foto: L. Cunha<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sexta pela manh\u00e3, acordava e, antes de ir para a velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado, passava no apartamento dos pais para tomar um caf\u00e9 refor\u00e7ado.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20613,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[282,252,277,278,281,135,280,279],"class_list":["post-20612","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-bolha","tag-brasil-hoje","tag-cafe-da-manha","tag-dona-yolanda","tag-frases","tag-memoria","tag-os-arrependidos","tag-velho-aldo"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20612","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20612"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20612\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20618,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20612\/revisions\/20618"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20613"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20612"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20612"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20612"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}