{"id":20664,"date":"2019-05-30T15:02:18","date_gmt":"2019-05-30T15:02:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20664"},"modified":"2019-05-30T22:11:16","modified_gmt":"2019-05-30T22:11:16","slug":"estudantes-nas-ruas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/estudantes-nas-ruas\/","title":{"rendered":"Estudantes nas ruas&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Devia ter 16 pra 17 anos.<\/p>\n<p>Trabalhava como balconista em uma loja de discos, ali, nas imedia\u00e7\u00f5es do Largo de S\u00e3o Francisco, no centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era l\u00e1 um grande emprego.<\/p>\n<p>Eu o entendia quase como uma divers\u00e3o.<\/p>\n<p>Ganhava pouco, mas passava o dia ouvindo m\u00fasica e a conversar com o amigo Diogo que trabalhava comigo, com os divertidos e piadistas lavadores de carro que faziam ponto na quebrada ali adiante e, cereja do bolo, com os estudantes do ensino m\u00e9dio da Funda\u00e7\u00e3o \u00c1lvares Penteado (especialmente as estudantes, sempre bem-vindas). Vez ou outra, fazia ponto por ali a turma \u00a0\u2018cabe\u00e7a-feita\u2019da Faculdade de Direito do Largo S\u00e3o Francisco.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Vou dizer, na sinceridade: tinha uma dimens\u00e3o rasa do que acontecia no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Estudava \u00e0 noite no Col\u00e9gio IV Centen\u00e1rio, no Ipiranga.<\/p>\n<p>M\u00fasica e futebol, as minhas paix\u00f5es juvenis.<\/p>\n<p>Os recados \u00e0 consci\u00eancia social brotavam exatamente a partir daqueles encontros (mais ouvia que falava) e das can\u00e7\u00f5es de Chico, Gil, Caetano, Vandr\u00e9 e outros.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/maio-de-1968\/\">Maio de 68<\/a> me surpreendeu ali. Coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>Muitos dos embates entre estudantes e policiais pelo fim da ditadura se deram diante dos meus olhos, naquele cen\u00e1rio tradicional, as ruas do centro-velho de Sampa.<\/p>\n<p>Uma correria danada.<\/p>\n<p>Bombas, cassetetes, n\u00e3o me lembro se tiros tamb\u00e9m (mas, sempre havia a possibilidade), pedras, um fumac\u00ea daqueles e as bolinhas de gudes espalhadas pelos estudantes numa estrat\u00e9gia para dificultar o avan\u00e7o da cavalaria sobre eles.<\/p>\n<p>Desc\u00edamos correndo a velha porta de a\u00e7o. Dentro da loja, no espa\u00e7o apertado entre as bancas de discos, dezenas de estudantes se abrigavam, com nosso consentimento e para desespero do gerente (esqueci o nome dele, mas recordo que era f\u00e3 n\u00famero 1 da cantora Nalva Aguiar).<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Fic\u00e1vamos por ali. \u00c0 espera que o turbilh\u00e3o passasse.<\/p>\n<p>Os estudantes n\u00e3o demonstravam medo.<\/p>\n<p>Conversavam animadamente.<\/p>\n<p>Traziam no olhar o brilho de um sonho bom, generoso, fraterno: o fim do autoritarismo, do retrocesso e a constru\u00e7\u00e3o de um Brasil mais justo e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Num fim de tarde, ap\u00f3s outro rebuli\u00e7o entre a estudantada e os milicos, flagrei o chefete nos dedurando para o dono da loja, o Sr. Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Queixava-se que o nosso gesto era &#8216;da maior irresponsabilidade&#8217;. Vai que os policiais decidissem invadir a loja. Seria um preju\u00edzo enorme \u2013 e todos n\u00f3s poder\u00edamos parar no cambur\u00e3o. Acusados de &#8216;comunistas&#8217;.<\/p>\n<p>Pior: \u00a0no lugar de conferir as f\u00e9rias do dia, o pequenino Sr. Lu\u00eds teria que, no fim da tarde, dar explica\u00e7\u00f5es no Distrito Policial mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 pensou?<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Fiquei puto! Diogo, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O Sr. Lu\u00eds se fez de alheio \u00e0 conversa. Por alguns segundos. Depois, foi sucinto no coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211; Se algu\u00e9m pode mudar alguma coisa pra melhor nesse pa\u00eds, s\u00e3o os jovens, os estudantes. Quando saem \u00e0s ruas, est\u00e3o lutando por n\u00f3s&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o disse mais nada.<\/p>\n<p>Pediu apenas que deslig\u00e1ssemos o som at\u00e9 porque a \u00fanica cr\u00edtica que fazia \u00e0 meninada era a m\u00fasica que ouvia (no momento, tocava uma balada de Nalva Aguiar) e, de resto, que fech\u00e1ssemos a loja.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos embora. Que amanh\u00e3 \u00e9 outro dia.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Os estudantes saem \u00e0s ruas hoje.<\/p>\n<p>Manifestam-se contra os cortes na Educa\u00e7\u00e3o anunciados pelo Governo e por pautas, umas pelas outras, absurdamente, iguais \u00e0s de 50 anos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>S\u00e3o acusados de &#8220;idiotas&#8221;, &#8220;imbecis&#8221; e&#8230; &#8220;comunistas&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, nem o babaca daquele gerente foi t\u00e3o tosco.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Continuo raso em termos de quase todos os assuntos e tema, nunca mais ouvi falar do amigo Diogo, do gerente vacil\u00e3o e mesmo da cantora Nalva Aguiar. Mas, preciso lhes confessar que hoje penso exatamente como o Sr. Lu\u00eds, a quem cham\u00e1vamos de \u201cLuisinho, o dono da bodega\u201d, que\u00a0tamb\u00e9m desapareceu na espessa n\u00e9voa do tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o gosto nada da m\u00fasica que ouvem, mas, quando os estudantes saem \u00e0s ruas, sei que lutam por todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Se ainda temos uma r\u00e9stia de esperan\u00e7a, acreditem, vem da\u00ed&#8230; Da juventude, dos estudantes nas ruas e pra\u00e7as de todo o Brasil.<\/p>\n<h6><em><strong>Foto: o Resistente<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e1udrJwWnPk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Devia ter 16 pra 17 anos.<\/p>\n<p>Trabalhava como balconista em uma loja de discos, ali, nas imedia\u00e7\u00f5es do Largo de S\u00e3o Francisco, no centro de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o era l\u00e1 um grande emprego.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20665,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[304,305,153,245,307,306,244],"class_list":["post-20664","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-cortes-na-educacao","tag-estudantes","tag-governo","tag-greve","tag-juventude","tag-maio-de-68","tag-manifestacoes"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20664","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20664"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20664\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20675,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20664\/revisions\/20675"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20665"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20664"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20664"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20664"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}