{"id":20712,"date":"2019-06-05T15:03:04","date_gmt":"2019-06-05T15:03:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=20712"},"modified":"2019-06-05T15:15:17","modified_gmt":"2019-06-05T15:15:17","slug":"chuvas-e-trovoadas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/chuvas-e-trovoadas\/","title":{"rendered":"Chuvas e trovoadas"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Eita, s\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Que a manh\u00e3 est\u00e1 chuvosa e triste.<\/p>\n<p>E, olha, que vacil\u00e3o, acabou o rem\u00e9dio da press\u00e3o. O Losartana que tomo assim que acordo.<\/p>\n<p>Tem jeito n\u00e3o.<\/p>\n<p>Terei que me dar ao trabalho de bater a p\u00e9 at\u00e9 a farm\u00e1cia mais pr\u00f3xima de casa.<\/p>\n<p>Recorrerei ao velho e bom guarda-chuva.<\/p>\n<p>Melhor encarar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Vou que vou no passinho mi\u00fado.<\/p>\n<p>Passo na padaria para um r\u00e1pido caf\u00e9.<\/p>\n<p>Uma boa surpresa quando paro na faixa de pedestres: os senhores motoristas educadamente param seus nobres ve\u00edculos para eu e mais dois cruzarem at\u00e9 o outro lado da rua.<\/p>\n<p>Nem tudo est\u00e1 perdido, penso comigo.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Alguns minutos depois chego \u00e0 farm\u00e1cia.<\/p>\n<p>No caminho, reparei que o ponto de \u00f4nibus estava lotado. Uns aguardavam a chuva passar, creio. Outros, olhos atentos ao movimento dos coletivos que chegavam, motores bufando, e sa\u00edam.<\/p>\n<p>Mal consegui passar entre a turma que estava por ali, sob a t\u00edmida aba do abrigo de alum\u00ednio<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 fui bom nisso.<\/p>\n<p>Enfrentei muitos salseiros como esse quando era garot\u00e3o. Morava no Ipiranga, estudava na Cidade Universit\u00e1ria e trabalhava, \u00e0 tarde, no Jardim Moreira, periferia de Guarulhos.<\/p>\n<p>8 bus\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9 mole? Ou quer que mexa?<\/p>\n<p>N\u00e3o reclamava.<\/p>\n<p>Havia um sonho no horizonte.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Volto.<\/p>\n<p>Caminho diante do banco onde tenho conta. Lamento que n\u00e3o esteja aberto. Poderia antecipar os pagamentos do dia 10, conversar com a gerente da minha conta, saber os limites da vermelhid\u00e3o do meu saldo.<\/p>\n<p>A grana cada vez mais curta.<\/p>\n<p>O m\u00eas cada vez mais longo.<\/p>\n<p>Olai\u00e1.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Passo pela parada \u2013 e agora reparo que est\u00e1 quase vazia. S\u00f3 h\u00e1 uma garota por ali sentada em um dos assentos de a\u00e7o sob a cobertura.<\/p>\n<p>Ela sequer se move com o ir-e-vir dos coletivos.<\/p>\n<p>Est\u00e1 encolhida envolta no grosso casaco de l\u00e3, cabe\u00e7a curvada, o rosto encharcado de l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Tem\u00a0uns 20 anos, se tanto. Pouco mais, pouco menos.<\/p>\n<p>Sente a minha aproxima\u00e7\u00e3o, ergue a cabe\u00e7a, olha e, tenho certeza, ruminando seus dilemas, n\u00e3o me v\u00ea.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Tenho o impulso de lhe fazer companhia ali.<\/p>\n<p>Tentar uma conversa. Confort\u00e1-la.<\/p>\n<p>Por vezes, me imagino o or\u00e1culo do mundo s\u00f3 porque tenho sessenta e quase todos os anos.<\/p>\n<p>Que tolo que sou.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Sigo em frente.<\/p>\n<p>Recupero de mem\u00f3ria uma frase que me \u00e9 rotineira:<\/p>\n<p>\u201cA \u00fanica pressa que hoje tenho \u00e9 de chegar em casa.\u201d<\/p>\n<p>Mas, reconhe\u00e7o, a afli\u00e7\u00e3o da mo\u00e7a passou a ser minha tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Qual ser\u00e1 o motivo?<\/p>\n<p>Um caso de doen\u00e7a na fam\u00edlia?<\/p>\n<p>Algum desconforto moment\u00e2neo, queda de press\u00e3o, coisa assim?<\/p>\n<p>O amor que se foi?<\/p>\n<p>(Mas \u00e9 t\u00e3o jovem, logo outro bater\u00e1 \u00e0 porta.)<\/p>\n<p>Ou&#8230;<\/p>\n<p>O que \u00e9 mais prov\u00e1vel, aquele que assola a milh\u00f5es de brasileiros, especialmente nossa linda juventude&#8230;<\/p>\n<p>Falo do desemprego, da falta de perspectiva, do cotidiano que engole a chance de um amanh\u00e3 promissor.<\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Fico pensando.<\/p>\n<p>Como seria se fosse: se hoje eu tivesse 20, 30 anos e me deparasse com o desafio de construir uma carreira neste pa\u00eds estra\u00e7alhado por governantes toscos, desumanos, que menosprezam a Educa\u00e7\u00e3o, apostam em armas, no \u00f3dio e no retrocesso?<\/p>\n<p>Muito provavelmente estaria como a mo\u00e7a, sentado \u00e0 beira do caminho, sujeito a chuvas e trovoadas. Sem perspectivas, sem amparo social, sem a chance de semear o pr\u00f3prio futuro. Sem ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00c9, meus caros, tenha a idade que tiver, acreditem: \u00e9\u00a0imposs\u00edvel viver sem um sonho bom, um sonho solid\u00e1rio. Que \u00e9 nosso, sim; mas, deles (os jovens) e de todos, principalmente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xIY9DRMGaek\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: J\u00f4 Rabelo<\/strong><\/em><\/p>\n<p><strong>&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Eita, s\u00f4&#8230;<\/p>\n<p>Que a manh\u00e3 est\u00e1 chuvosa e triste.<\/p>\n<p>E, olha, que vacil\u00e3o, acabou o rem\u00e9dio da press\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20713,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[327,238,325,326,329,328],"class_list":["post-20712","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-chuvas-e-trovoadas","tag-desgoverno","tag-manha-de-chuva","tag-moca-no-ponto-de-onibus","tag-solidariedade","tag-sonho"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20712"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20712\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20716,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20712\/revisions\/20716"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20713"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}