{"id":21236,"date":"2019-09-06T13:34:36","date_gmt":"2019-09-06T13:34:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=21236"},"modified":"2019-09-07T05:57:58","modified_gmt":"2019-09-07T05:57:58","slug":"quem-nunca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/quem-nunca\/","title":{"rendered":"Quem nunca?"},"content":{"rendered":"<p>Uma cidade litor\u00e2nea perdida no Nordeste brasileiro. Um canto de mundo ensolarado para amorenar a filosofia que a vida lhe imp\u00f4s:<\/p>\n<p><em>Lembrar de esquecer.<\/em><\/p>\n<p><em>Esquecer de lembrar.<\/em><\/p>\n<p>Fuga ou op\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Reencontrar-se.<\/p>\n<p>Revitalizar-se.<\/p>\n<p>Reviver.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ele e ningu\u00e9m sabem explicar.<\/p>\n<p>Exatamente neste oco do mundo onde a civiliza\u00e7\u00e3o e o turismo n\u00e3o deram as caras, \u00e9 exatamente a\u00ed que o forasteiro imagina encontrar a almejada paz que todos procuram e, se poss\u00edvel, um naco de felicidade.<\/p>\n<p>Quem nunca?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sua presen\u00e7a, entre os da terra, causa estranheza.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pra menos.<\/p>\n<p>Longe de ser um jovem aventureiro, \u00e9 entrado em anos. Homem feito. Chega do nada, arrasta um mochil\u00e3o de pano, com tudo (quase nada) o que tem dentro.<\/p>\n<p>Figura estranha. Cabelos revoltos, em desalinho. Fei\u00e7\u00f5es r\u00fasticas e olhar fatigado.<\/p>\n<p>Cal\u00e7a tamancos de madeira.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 l\u00e1 jeito de se apresentar?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Seria um extraterrestre?<\/p>\n<p>Um desajustado em busca de encrenca?<\/p>\n<p>Um fugitivo da lei?<\/p>\n<p>(Como se lei houvesse nesses tr\u00f3picos.)<\/p>\n<p>Mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Vai morar sozinho naquela choupana \u00e0 beira-mar.<\/p>\n<p>\u00c9 de poucas palavras.<\/p>\n<p>D\u00e1 pra perceber que se faz indiferente a tudo e a todos.<\/p>\n<p>Sobram d\u00favidas a seu respeito.<\/p>\n<p>Quem aguenta viver nesse fim de mundo?<\/p>\n<p><strong><em>Parte 2<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Segure a curiosidade, car\u00edssimo leitor.<\/p>\n<p>Tal personagem inspira-se em outro, o m\u00e9dico Juarez Le\u00e3o que viveu, entre 24 de janeiro e 9 de outubro de 1973, no universo ficcional da novela \u201cO Bem Amado\u201d, de Dias Gomes.<\/p>\n<p>Novela que, entre outros feitos, imortalizou o ator Paulo Gracindo como o parlapat\u00e3o prefeito Odorico Paragua\u00e7u, da imagin\u00e1ria (mas, t\u00e3o real) cidade de Sicupira.<\/p>\n<p>Juarez Le\u00e3o (que s\u00f3 ao fim da trama se soube era um m\u00e9dico renomado) foi interpretado por outro grande ator, Jardel Filho.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A arte imita a vida ou \u00e9 a vida que imita a arte?<\/p>\n<p>Outra das tantas quest\u00f5es para as quais n\u00e3o trago resposta.<\/p>\n<p>Sei que eu tinha l\u00e1 meus 20 e poucos anos (e todos os sonhos do mundo) quando assisti, ainda que parcialmente, \u00e0 novela.<\/p>\n<p>Divertiam-me o palavreado de Odorico, as estripulias de Zeca Diabo (Lima Duarte), amava a beleza de Telma (Sandra Br\u00e9a), enfim&#8230; Um elenco de primeira.<\/p>\n<p>Mas, o que me impressionava mesmo ia al\u00e9m da trama.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Queria saber se existia algu\u00e9m com a coragem (e o tutano) de Juarez Le\u00e3o para largar o conforto da cidade grande e se aboletar em algum cafund\u00f3 do Planeta.<\/p>\n<p>Vivia-se um tempo em que era moda as tais comunidades hipongas, o amor livre, a contracultura, o rebelar-se contra os sen\u00f5es da ditadura no Brasil, o consumismo, as conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Essa tribo olhava pra frente, queria construir outra era. A era de Aquarius.<\/p>\n<p>Mas, o tal Juarez Le\u00e3o fugia do estere\u00f3tipo.<\/p>\n<p>Emaranhava-se\u00a0 com o passado.<\/p>\n<p><em><strong>Parte 3<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Eu era jovem, como lhes antecipei acima, e algo inconsequente, como me definia o Velho Marques, naquela reda\u00e7\u00e3o onde trabalhei.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia entender tamanha prostra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, quase 50 anos depois (olhe a loucura que vivemos), me vejo cercado de gente que deseja (ou apenas fala em) imitar, na vida real, o exemplo de Juarez Le\u00e3o.<\/p>\n<p>Reclamam que o grau de bo\u00e7alidade, ego\u00edsmo e estupidez \u00e9 tamanho que t\u00eam vontade de escafeder-se, cair no mundo, abandonarem-se por plagas serenas e acolhedoras onde se possa morar no interior do pr\u00f3prio interior.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sem que saibam, pois poucos se lembram da novela, repetem o gesto do nosso her\u00f3i.<\/p>\n<p>N\u00e3o conjecturam o futuro.<\/p>\n<p>Dia desses, escutei:<\/p>\n<p>\u201cO mundo anda sem rumo e sem prumo. Mas, deve haver um para\u00edso perdido onde se possa viver em paz. Pra esquecer e ser esquecido.\u201d<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o vou lhes contar o final da novela.<\/p>\n<p>At\u00e9 porque n\u00e3o lembro.<\/p>\n<p>(Desconfio que o amigo leitor vai encontr\u00e1-la num desses Net Flix da vida.)<\/p>\n<p>Permito-me, por\u00e9m \u2013 e finalmente, uma sincera confidencia.<\/p>\n<p>(Que fique entre n\u00f3s, hein!)<\/p>\n<p>Sem qualquer convic\u00e7\u00e3o,\u00a0vez ou outra penso nisso.<\/p>\n<p>Mas, acreditem, dispensaria os tamancos de madeira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0KW8cLVGqls\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma cidade litor\u00e2nea perdida no Nordeste brasileiro. 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