{"id":21562,"date":"2019-10-29T14:55:41","date_gmt":"2019-10-29T14:55:41","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=21562"},"modified":"2019-10-29T17:16:53","modified_gmt":"2019-10-29T17:16:53","slug":"cem-anos-de-solidao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/cem-anos-de-solidao\/","title":{"rendered":"Cem anos de solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: Cartagena, 2013\/arquivo pessoal<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>&#8211; Diga uma coisa, compadre: por que voc\u00ea est\u00e1 brigando:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Por que h\u00e1 de ser, compadre \u2013 respondeu o Coronel Gerineldo Marquez -, pelo grande Partido Liberal.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Feliz \u00e9 voc\u00ea que sabe disso. Eu, de minha parte, s\u00f3 agora percebo que estou brigando por orgulho.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Isso \u00e9 ruim, disse o Coronel Gerineldo Marquez.<\/em><\/p>\n<p><em>O Coronel Aureliano Buend\u00eda se divertiu com o seu sobressalto. \u201cNaturalmente\u201d, disse.\u201dMas, em todo caso, \u00e9 melhor isso do que n\u00e3o saber por que se briga\u201d. Olhou-o nos olhos, e acrescentou sorrindo:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Ou brigar, como voc\u00ea, por alguma coisa que n\u00e3o significa nada para ningu\u00e9m.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nesta fase da vida, tenho me permitido mais as releituras do que a visita \u00e0s novas publica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei explicar bem o motivo; como de resto, cada vez menos pe\u00e7o (e\/ou dou) explica\u00e7\u00f5es para as coisas que est\u00e3o postas pela a\u00ed e n\u00e3o consigo entender.<\/p>\n<p>O mundo anda muito sem no\u00e7\u00e3o, concordam?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nessa toada, meu livro de cabeceira, por esses dias arrastados, tem sido o \u00e9pico de Gabriel Garc\u00eda Marquez, <em>Cem Anos de Solid\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>Ando ali pela p\u00e1gina 150 \u2013 portanto, ainda h\u00e1 um bom caminho a percorrer.<\/p>\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de que leio um texto in\u00e9dito \u2013 e, a cada p\u00e1gina, mais revelador desses tempos t\u00e3o fugazes e destrambelhados.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lan\u00e7ada originalmente em 1967, s\u00f3 fui tomar conhecimento da obra ali pelo in\u00edcio dos anos 70.<\/p>\n<p>Era estudante de jornalismo na USP, trabalhava no Grupo Escolar Jardim Moreira em Guarulhos, morava no Ipiranga.<\/p>\n<p>Bem diferente da saga dos Buend\u00eda, a minha era percorrer esse diversificado trajeto. Vivia no bus\u00e3o. Subia de um, descia, pegava outro. Quatro para ir. Quatro para voltar. Ao todo, oito por dia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>No sacolejo do \u00f4nibus, as lutas da trama, confesso, me eram bem mais pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p>Me identificava com o prop\u00f3sito dos revolucion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Viv\u00edamos um per\u00edodo ditatorial, \u00e9 bem verdade.<\/p>\n<p>L\u00e1 (na trama) como c\u00e1 (na vida real), sab\u00edamos quem era nosso inimigo.<\/p>\n<p>E de que lado est\u00e1vamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favida que a idade, os sonhos, as expectativas e o pr\u00f3prio desconforto sobre rodas tinham influ\u00eancia decisiva no envolvimento que me propiciava a leitura.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Quando estive, anos atr\u00e1s, em Cartagena das \u00cdndias, fui conhecer no Centro Hist\u00f3rico a bela casa (foto) de Gabriel Garc\u00eda Marquez (1927\/2014).<\/p>\n<p>Ele ainda estava vivo \u2013 e vi um grupo de turistas (americanos, talvez), com o livro na m\u00e3o em busca de um aut\u00f3grafo.<\/p>\n<p>Os nativos desestimulavam qualquer esperan\u00e7a dos incautos:<\/p>\n<p>&#8211; A casa \u00e9, na verdade, uma fortaleza. Gabo anda muito doente. Mesmo quando est\u00e1 por aqui, \u00e9 como se n\u00e3o estivesse.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sempre me impressiona a for\u00e7a arrebatadora da Literatura, especialmente quando me defronto com um livro, como este <em>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/em>, que desafia o passar do tempo fatiado em sonhos e mem\u00f3rias, dramas e esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00darsula, a mam\u00e3e coragem da trama, \u00e9 hoje meu personagem preferido.<\/p>\n<p>Antes, era o Coronel Aureliano.<\/p>\n<p>Eu o via como um Che Guevara, nascido em Macondo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Me ocorre que as \u00faltimas d\u00e9cadas tenham nos distanciado deste aprendizado vital: ler a vida em grandes obras que se fazem eternas. At\u00e9 porque revelam a humanidade \u00e0 Humanidade diante da jornada que, por mais que se pense diferente, modernosa e coisa e tal, \u00e9 a mesma desde que o mundo \u00e9 mundo: luta-se pela sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Tem raz\u00e3o o Coronel Aureliano Buend\u00eda:<\/p>\n<p>Em busca de um suposto Poder e notoriedade, trava-se uma luta enganosa, ef\u00eamera que \u201cn\u00e3o significa nada pra ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>S\u00e1bias palavras&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mLhpvrhFrWY\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: Cartagena, 2013\/arquivo pessoal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>&#8211; Diga uma coisa, compadre: por que voc\u00ea est\u00e1 brigando:<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Por que h\u00e1 de ser,<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21563,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[809,807,806,808],"class_list":["post-21562","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-america-latina","tag-cem-anos-de-solidao","tag-gabriel-garcia-marquez","tag-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21562","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21562"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21562\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21567,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21562\/revisions\/21567"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21563"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21562"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21562"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21562"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}