{"id":21809,"date":"2019-12-09T10:05:03","date_gmt":"2019-12-09T10:05:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=21809"},"modified":"2019-12-09T10:05:03","modified_gmt":"2019-12-09T10:05:03","slug":"o-homem-que-mudou-a-minha-vida","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-homem-que-mudou-a-minha-vida\/","title":{"rendered":"O homem que mudou a minha vida"},"content":{"rendered":"<p>Tem um temp\u00e3o, amigo!<\/p>\n<p>Mais de 50 anos, pode?<\/p>\n<p>Quem diria&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a tal roda do tempo que gira e gira&#8230;<\/p>\n<p>Implac\u00e1vel!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quem entrou primeiro naquele \u00f4nibus.<\/p>\n<p>Eu ou voc\u00ea.<\/p>\n<p>Sei que foi a primeira vez que nos vimos.<\/p>\n<p>De p\u00e9, no fund\u00e3o da engenhoca de lata, a rodar e sacudir nossos juvenis projetos de vida.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos o mesmo destino: o primeiro dia de aula na nova escola, o Ataliba de Oliveira no bairro de S\u00e3o Jo\u00e3o Cl\u00edmaco. Cursar\u00edamos o primeiro ano do curso cient\u00edfico; mas, fora todas as demais, uma d\u00favida nos afligia:<\/p>\n<p>&#8211; Ser\u00e1 que tem trote?<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro quem perguntou.<\/p>\n<p>Lembro que a resposta foi o sil\u00eancio tenso.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea tinha pouco mais de 15 anos \u2013- e ainda, \u00f3bvio, n\u00e3o exibia o t\u00edtulo de doutor antes do nome.<\/p>\n<p>Era o Z\u00e9 Roberto. Ou apenas Beto. Mo\u00e7o bem-comportado, de fino trato.<\/p>\n<p>Eu, 17, a ostentar uma desgrenhada cabeleira e trajar roupas escuras \u00e0 moda dos roqueiros e dos poetas malditos.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Durei pouco ali.<\/p>\n<p>Havia trote \u2013 e pesado.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixei que me raspassem a cabe\u00e7a. Tornei-me<em> persona non grata \u00a0<\/em>entre os veteranos raivosos. Acabei jurado por eles. Amea\u00e7aram. Mais cedo ou mais tarde me pegariam.<\/p>\n<p>&#8211; Pega, n\u00e3o \u2013 respondi.<\/p>\n<p>Desisti do curso.<\/p>\n<p>Voc\u00ea insistiu por mais alguns dias no Ataliba, salvou o topete de <em>reco<\/em> \u00a0na sanha da s\u00f3rdida \u2018brincadeira\u2019 dos rapazes. Mas, tamb\u00e9m abandonou o curso.<\/p>\n<p>Tinha outros planos.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sem rumo e sem prumo, semanas depois, aportei, com as madeixas intactas e pelos ombros, no est\u00f3ico Col\u00e9gio IV Centen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Antes me certifiquei que n\u00e3o haveria trote.<\/p>\n<p>Que bela surpresa!<\/p>\n<p>Quem encontro por ali, matriculado como eu no curso Normal?<\/p>\n<p>Bet\u00e3o, o novo velho amigo.<\/p>\n<p>Deu-me boas vindas e me apresentou \u00e0 turma toda.<\/p>\n<p>Foi meu anfitri\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Voc\u00ea estava feliz. Sorriso rasgado, cheio de pose.<\/p>\n<p>Disse que sua fam\u00edlia era toda de professores \u2013- e faria o Magist\u00e9rio para seguir a tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, o sonho mesmo era estudar Medicina.<\/p>\n<p>Eu, que n\u00e3o trazia qualquer projeto no meu mal-ajambrado alforje, tamb\u00e9m fiquei feliz em lhe ver.<\/p>\n<p>Acho que nossos \u2018santos\u2019 bateram desde o primeiro encontro.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Outra coincid\u00eancia: mor\u00e1vamos perto, no Ipiranga, dois quarteir\u00f5es distantes um sobradinho do outro.<\/p>\n<p>Tanto que numa tarde de domingo que o tempo engoliu, o rapazote bateu \u00e0 minha porta para o irrecus\u00e1vel convite:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos ao cinema. Preciso levar minhas irm\u00e3s. \u201cAo Mestre Com Carinho\u201d. Topa?<\/p>\n<p>Topei.<\/p>\n<p>E, alguns anos depois, o abusado aqui casou com a Neisa, sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Por isso, sempre que poss\u00edvel, fiz quest\u00e3o de lembr\u00e1-lo da responsabilidade que lhe cabia sobre meus tr\u00f4pegos passos e lhe outorguei o cerimonioso t\u00edtulo de \u201cO Homem Que Mudou a Minha Vida\u201d.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Que hist\u00f3ria, companheiro!<\/p>\n<p>Voc\u00ea cumpriu o roteiro a que se prop\u00f4s.<\/p>\n<p>Foi estudar Medicina no Rio Grande do Sul e, de l\u00e1, voltou de poncho, chimarr\u00e3o, fama de bom churrasqueiro, canudo e diploma.<\/p>\n<p>Era, enfim, o Doutor Stipp,<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Na USP, me fiz jornalista a saracotear, entre letras e p\u00e1ginas, vida afora.<\/p>\n<p>Foi um tempo em que ficamos distantes. Mas, ainda assim, pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Que fazer? Eu era agora da fam\u00edlia. Amigo, cunhado, paciente. O chatonildo da vez.<\/p>\n<p>Qualquer dorzinha, comigo ou com algu\u00e9m pr\u00f3ximo, l\u00e1 ia eu atr\u00e1s do amigo. Sempre sol\u00edcito e algo debochado quando percebia que era manha minha:<\/p>\n<p>&#8211; Toma um Melhoral que passa!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sempre me causou profunda admira\u00e7\u00e3o a sua generosidade para com todos \u2013 e, especial, com sua gente. Quem o rodeasse tinha o privil\u00e9gio de sua aten\u00e7\u00e3o, carinho e conhecimento.<\/p>\n<p>Nas horas mais atribuladas, fosse quem fosse, bastava um telefonema. Sua voz firme, quantas vezes, aquietou dores e d\u00favidas, nos deu \u00e2nimo e nos recuperou para a dura lida desta exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Nasceu para coisa, o Doutor Stipp.<\/p>\n<p>Mudou, pra melhor, a minha vida e a de muitos.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>E agora?<\/p>\n<p>Que tristeza sem fim, meu camarada!<\/p>\n<p>Voc\u00ea partiu fora do combinado.<\/p>\n<p>Na ter\u00e7a-feira que passou.<\/p>\n<p>A gente ainda n\u00e3o assimilou o baque.<\/p>\n<p>Dif\u00edcil entender que a vida, meu caro, tamb\u00e9m se comp\u00f5e desta saudade que se faz irremedi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Assim, implac\u00e1vel, \u00e9 a tal roda do tempo, aquela que nos p\u00f4s frente a frente no bus\u00e3o, e que gira e gira e gira&#8230;<\/p>\n<p>Descanse em paz, Bet\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230; n\u00e3o tenho procura\u00e7\u00e3o, mas te agrade\u00e7o por tudo, em nome de todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tem um temp\u00e3o, amigo!<\/p>\n<p>Mais de 50 anos, pode?<\/p>\n<p>Quem diria&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 a tal roda do tempo que gira e gira&#8230;<\/p>\n<p>Implac\u00e1vel!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21810,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[919,916,765,918,917],"class_list":["post-21809","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-amigo","tag-dr-stipp","tag-homenagem","tag-in-memoriam","tag-ze-roberto"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21809","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21809"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21809\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21811,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21809\/revisions\/21811"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21810"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21809"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21809"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21809"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}