{"id":21839,"date":"2019-12-18T15:12:29","date_gmt":"2019-12-18T15:12:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=21839"},"modified":"2020-01-17T03:15:16","modified_gmt":"2020-01-17T03:15:16","slug":"historia-sem-fim-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/historia-sem-fim-3\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria sem fim, by Escova"},"content":{"rendered":"<h6><em><strong>Foto: Arquivo Pessoal<\/strong><\/em><\/h6>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Claro que lembro, Escova.<\/p>\n<p>Sim, sim, ela se chamava Marilene. Assim mesmo &#8211; e n\u00e3o Maria Helena. Grafava-se e se dizia Marilene.<\/p>\n<p>Onde anda, amigo?<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o ideia.<\/p>\n<p>Era uma esp\u00e9cie \u2018coringa\u2019 da ent\u00e3o <em>Gazeta de S\u00e3o Bernardo, <\/em>um jornal de circula\u00e7\u00e3o quinzenal e distribui\u00e7\u00e3o gratuita e domiciliar na cidade onde hoje moro.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, acho que ainda residia no Ipiranga. Mas, voc\u00ea lembra?, eu cuidava do \u2018fechamento\u2019 de cada edi\u00e7\u00e3o nas oficinas da empresa em que trabalh\u00e1vamos em S\u00e3o Paulo. A velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Era uma &#8220;mo\u00e7a de beleza singular&#8221; (voc\u00ea que me disse),\u00a0 s\u00e9ria e compenetrada nas diversas fun\u00e7\u00f5es que exercia. Chegava \u00e0s primeiras horas da manh\u00e3 de ter\u00e7a. Trazia um pacota\u00e7o de mat\u00e9rias ainda datilografadas em laudas para que eu diagramasse as (quase sempre) 16 p\u00e1ginas da edi\u00e7\u00e3o da semana.<\/p>\n<p>Atenta, acompanhava o meu risque e rabisque.<\/p>\n<p>Aproveitava para ir distribuindo os an\u00fancios nos lugares devidos, p\u00e1gina por p\u00e1gina. Tamb\u00e9m me ajudava na hierarquiza\u00e7\u00e3o das reportagens. Qual a manchete de cada editoria, quais as retrancas, as colunas, essas coisas todas&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tinha um zelo danado para que a <em>GSB<\/em> sa\u00edsse nos trinques.<\/p>\n<p>Lembra?\u00a0 O arquivo de fotos cabia inteiro em uma caixa de sapatos.<\/p>\n<p>Outros tempos&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Por vezes, o \u2018fechamento\u2019 se prolongava madrugada a dentro.<\/p>\n<p>Confesso que era um tanto desesperador. T\u00ednhamos hor\u00e1rios r\u00edgidos para encaminhar as p\u00e1ginas prontas, montadas e revisadas, na gr\u00e1fica que rodaria o jornal.<\/p>\n<p>Sinto falta da adrenalina daquelas horas desafiadoras.<\/p>\n<p>Mas, de boa, prefiro n\u00e3o reviv\u00ea-las.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Justi\u00e7a que lhe fa\u00e7o!<\/p>\n<p>Nessas horas, pudemos \u2013 Marilene e eu \u2013 contar com seu irrestrito apoio, Escova. Voc\u00ea aparecia do nada para nos dar uma for\u00e7a e nos tranquilizar:<\/p>\n<p>\u201cMuita calma nessa hora. No fim, d\u00e1 certo. Se n\u00e3o der, \u00e9 porque n\u00e3o chegou ao fim.\u201d<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma determinada semana, Marilene n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Apareceu um rapazote, estudante de jornalismo, para substitu\u00ed-la. Me entregou o pacote de sempre, repleto de reportagens que, desta feita, narravam a repress\u00e3o violenta \u00e0 primeira greve dos metal\u00fargicos do ABC.<\/p>\n<p>O pau cantou nas ruas centrais de Bern\u00f4 City.<\/p>\n<p>Pol\u00edticos como Ulysses Guimar\u00e3es, Almino Alfonso, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Suplicy, entre outros do ent\u00e3o MDB foram prestar solidariedade aos manifestantes. Acabaram refugiados na igreja matriz, abrigados corajosamente por Dom Cl\u00e1udio.<\/p>\n<p>Abril, de 1979, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fizemos uma bela edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, sentimos a aus\u00eancia da combativa chefinha.<\/p>\n<p>O rapazote sabia pouco dela. Disse que foi convocado pelo \u2018patr\u00e3o\u2019 \u00e0s pressas. N\u00e3o nos explicou por onde andava a Marilene. Mas arriscou um palpite:<\/p>\n<p>&#8211; Acho que ela pediu as contas. Vai casar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, perdemos a Marilene de vista.<\/p>\n<p>Lembro que voc\u00ea, Escova, ficou triste, triste.<\/p>\n<p>Vale lembrar que viv\u00edamos a pr\u00e9-hist\u00f3ria dos \u00e1geis processos comunicacionais hoje em voga.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Anos mais tarde, quando voc\u00ea comprou seu primeiro celular, numa conversa de fim de noite no bar Riviera, deixou escapar a real:<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Que\u00a0saudade da Marilene! Se houvesse celular \u00e0 \u00e9poca, a hist\u00f3ria poderia ser outra.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o foi.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, Escova, foi a primeira vez que ouvimos falar num l\u00edder sindical aguerrido, barbudo, que mudou a hist\u00f3ria deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iTZgJTyxB-M\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em><strong>Foto: Arquivo Pessoal<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Claro que lembro, Escova.<\/p>\n<p>Sim, sim, ela se chamava Marilene. Assim mesmo &#8211; e n\u00e3o Maria Helena. 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