{"id":22105,"date":"2020-02-17T13:33:03","date_gmt":"2020-02-17T13:33:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22105"},"modified":"2020-02-17T13:42:07","modified_gmt":"2020-02-17T13:42:07","slug":"solitario-surfista","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/solitario-surfista\/","title":{"rendered":"Solit\u00e1rio surfista"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desde que saiu de casa, n\u00e3o pensou um minuto sequer em voltar.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensou mais em nada.<\/p>\n<p>Tudo o que imaginou precisar reuniu numa mochila antiga, de lona, do tempo em que era um surfista descolado e o pai, empres\u00e1rio bem sucedido, lhe garantia a vida boa e descompromissada.<\/p>\n<p>Foi h\u00e1 muitos e muitos anos.<\/p>\n<p>(As mochilas n\u00e3o estavam sequer na moda.)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lembrou o pai indo para o trabalho, com uma lustrosa mala 007.<\/p>\n<p>Achava um horror.<\/p>\n<p>Hoje apenas ri daquela avers\u00e3o a tudo o que o pai representava \u2013 e usava: o terno em tom escuro, a camisa social branca impec\u00e1vel, a gravata de seda e a bendita mala 007 preta.<\/p>\n<p>Bendita, sim!<\/p>\n<p>Dali, brotavam as rent\u00e1veis mumunhas \u2013 e o sustento da fam\u00edlia. Dele inclusive.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O pai, os amigos do pai e a fam\u00edlia o chamavam de hippie pela avers\u00e3o que demonstrava aos estudos, ao trabalho. E \u00e0s conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Gostava de estar no mar. Solit\u00e1rio, distante de tudo e de todos. Naquela linha um tanto al\u00e9m de onde as ondas arrebentam. \u00c0 espera da onda certa que, hoje, enquanto caminha sem rumo, tem certeza: nunca lhe chegou.<\/p>\n<p>Reconhece, no entanto, que o barato n\u00e3o era \u2018pegar a onda\u2019, deslizar at\u00e9 \u00e0 beira da praia, estar entre os iguais, aquela bizarra turma de banhistas.<\/p>\n<p>Queria mesmo ficar ali.<\/p>\n<p>No balan\u00e7o das \u00e1guas, em sil\u00eancio, sobre a prancha, olhando a linha do horizonte.<\/p>\n<p>Sem medos, sem sonhos.<\/p>\n<p>Ver o sol se por.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Faz tanto tempo.<\/p>\n<p>Tempo, aquele que n\u00e3o para no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Conheceu Adele, uma francesinha, na praia. E se enroscaram.<\/p>\n<p>A vida mudou um tantinho.<\/p>\n<p>O pai, um dia lhe faltou.<\/p>\n<p>(Mudou tudo.)<\/p>\n<p>Teve que assumir o que chamou de baga\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 que se saiu legal.<\/p>\n<p>Na solid\u00e3o das ondas e nas varia\u00e7\u00f5es das cores quando o sol se p\u00f5e, aprendeu o equil\u00edbrio que as coisas devem ter e o senso de n\u00e3o ir al\u00e9m do que podem suas for\u00e7as. N\u00e3o provocar o desconhecido. Perceber as nuances.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Surpreendeu a todos pelo tino nos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Saiu-se bem.<\/p>\n<p>Mas, dentro dele, sabia bem que aquele n\u00e3o era ele.<\/p>\n<p>Era o outro. Quase ele. Quase o pai, os amigos do pai, a turba de banhistas sem intimidade com o mar que brotam aos borbot\u00f5es nos finais de semana do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Num final de tarde de domingo, depois do futebol na TV, foi at\u00e9 a garagem da casa para ver se havia esquecido o celular no carro &#8211; vital, indispens\u00e1vel engenhoca.<\/p>\n<p>Sim, estava l\u00e1.<\/p>\n<p>Olhou ao redor e, a um canto, se deparou com as velhas e carcomidas pranchas.<\/p>\n<p>Bateu uma sensa\u00e7\u00e3o estranha.<\/p>\n<p>De perda?<\/p>\n<p>N\u00e3o soube dizer<\/p>\n<p>Uma tristeza?<\/p>\n<p>Preferiu n\u00e3o pensar.<\/p>\n<p>Deixou o celular onde estava no assento do passageiro. Recuperou a velha mochila da estante dos inserv\u00edveis. E caminhou a passos mi\u00fados e decididos para dentro da casa.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 do dia seguinte, acordou cedo.<\/p>\n<p>Ficou \u00e0 espreita.<\/p>\n<p>Esperou que todos sa\u00edssem, encheu a mochila com uma muda de roupas.<\/p>\n<p>Foi at\u00e9 a garagem. Pegou o celular e ligou para o Torl\u00f3i, o faz tudo da empresa.<\/p>\n<p>Disse que precisaria de uns dias \u201cpara resolver problemas particulares\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Vai tocando tudo, a\u00ed. Eu volto quando der.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desligou.<\/p>\n<p>Jogou o aparelho de volta pra dentro do carro.<\/p>\n<p>E saiu a p\u00e9, sem rumo, sem prumo, a ruminar com um sorriso ir\u00f4nico a frase que disse ao amigo e funcion\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211; Eu volto quando der.<\/p>\n<p>Para ele mesmo, e s\u00f3 pra ele, confessou num sussurro entre os dentes:<\/p>\n<p>&#8211; Tomara que n\u00e3o d\u00ea&#8230;<\/p>\n<p>E concluiu:<\/p>\n<p>-Vou tirar a limpo essa hist\u00f3ria de ser hippie em pleno s\u00e9culo 21.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6jDJXjSeNIg\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desde que saiu de casa, n\u00e3o pensou um minuto sequer em voltar.<\/p>\n<p>N\u00e3o pensou mais em nada.<\/p>\n<p>Tudo o que imaginou precisar reuniu numa mochila antiga,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22106,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1066,1064,1067,1065,1063],"class_list":["post-22105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-hippie","tag-mochila","tag-por-do-sol","tag-prancha","tag-surfista"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22105"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22110,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22105\/revisions\/22110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22106"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}