{"id":22191,"date":"2020-03-10T14:27:31","date_gmt":"2020-03-10T14:27:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22191"},"modified":"2020-03-10T21:25:23","modified_gmt":"2020-03-10T21:25:23","slug":"o-sonho-nao-acabou-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-sonho-nao-acabou-2\/","title":{"rendered":"O sonho que n\u00e3o acabou&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Passa o Rei com seu cortejo<\/em><\/p>\n<p><em>Passa o Deus com seu andor<\/em><\/p>\n<p><em>E mil\u00eanios depois, neste caminho, apenas<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda sopra o vento das macieiras em flor&#8230;<\/em><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio Quintana, em O Caminho<\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Meados dos anos 90. A jovem, com jeito de menina, se apresenta a mim, ent\u00e3o o editor do jornal, como postulante ao est\u00e1gio na velha reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor.<\/p>\n<p>Estranhei. Parecia t\u00e3o novinha. Como poderia estar no terceiro ano do curso de jornalismo &#8211; requisito m\u00ednimo para a vaga?<\/p>\n<p>Sem muito pensar, cometi a indelicadeza de lhe perguntar a idade.<\/p>\n<p>Ela sorriu. Na virada dos 20 anos, a vida \u00e9 de uma leveza&#8230;<\/p>\n<p>E respondeu com a data do nascimento.<\/p>\n<p>10 de mar\u00e7o de 1974.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Querem saber?<\/p>\n<p>Fiquei impactado com a dura constata\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que a mo\u00e7a tinha de idade, eu, naquela altura do campeonato, j\u00e1 ostentava de profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, meus caros.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o me dei conta que naquele mesmo 10 de mar\u00e7o de 1974, depois de uma brev\u00edssima experi\u00eancia sem eira, nem beira no <em>Di\u00e1rio da Noite, <\/em>tamb\u00e9m no terceiro ano do curso de Jornalismo da USP, eu era contratado como redator-estagi\u00e1rio na combativa <em>Gazeta do Ipiranga<\/em>.<\/p>\n<p>Diria que foi a primeira vez, aos quarenta e quequ\u00e9recos, que senti o chamado peso do tempo, aquele que n\u00e3o para no porto, n\u00e3o apita na curva, n\u00e3o espera ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lembro essa historieta &#8211; e n\u00e3o lhes dou o nome da ent\u00e3o jovem para n\u00e3o ser ainda mais indiscreto do que fui naquela tarde &#8211; para lhes dizer que:<\/p>\n<p>Nada, nada, \u00a0amigos e am\u00e1veis leitores, estou nessa lida de batucar letrinhas h\u00e1 l\u00e1 se v\u00e3o 46 anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou \u2013 e nunca fui &#8211; assim um Jorge Jesus, mas tenho um orgulho danado da minha humilde trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Fiz grandes amigos ao longo da jornada.<\/p>\n<p>Combati o bom combate.<\/p>\n<p>Tenho seis livros publicados.<\/p>\n<p>(O s\u00e9timo e oitavo j\u00e1 deveriam estar a caminho.)<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Se n\u00e3o pude escrever tudo o que quis.<\/p>\n<p>Ao menos, tentei &#8211; e tento.<\/p>\n<p>Mas, confesso: nunca escrevi o que n\u00e3o quis.<\/p>\n<p>O que parece pouco, mas, querem saber?<\/p>\n<p>D\u00e1 um trabalho danado.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desse quase cinquenten\u00e1rio profissional (jornalista adora n\u00fameros redondos, efem\u00e9rides), tamb\u00e9m dediquei pouco mais de 20 anos ao ensino da arte e do of\u00edcio do jornalismo em tr\u00eas ou quatro universidades.<\/p>\n<p>Foi bom enquanto durou, enquanto acreditei naquilo que tinha a liberdade de lecionar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nunca fiz as contas de quantos estudantes assistiram \u00e0s minhas aulas.<\/p>\n<p>Centenas e centenas, certamente.<\/p>\n<p>Milhares, talvez.<\/p>\n<p>S\u00f3 de cerim\u00f4nias de cola\u00e7\u00e3o de grau, creio ter participado de umas 30 ou mais. Em muitas, compareci como coordenador do curso. Em outras, fui como professor homenageado.<\/p>\n<p>80 alunos por turma em m\u00e9dia. Fa\u00e7am as contas&#8230;<\/p>\n<p>Certa ocasi\u00e3o me escolheram como paraninfo.<\/p>\n<p>Quanta honra!<\/p>\n<p>No meu pronunciamento, fiz o seguinte destaque:<\/p>\n<p>\u201cO Pa\u00eds precisa de jornalistas que ousem sonhar.\u201d<\/p>\n<p>(Para ler a \u00edntegra do discurso <a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/eu-paraninfo\/\"><strong>CLIQUEM AQUI<\/strong><\/a>!)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fico pensando se hoje, ao dizer o que disse, qual seria a rea\u00e7\u00e3o do distinto p\u00fablico?<\/p>\n<p>Aplaudiriam?<\/p>\n<p>Ficariam em cr\u00edtico sil\u00eancio?<\/p>\n<p>Ou reagiriam com uma estrepitosa vaia?<\/p>\n<p>Desconfio que essa terceira hip\u00f3tese \u00e9 a mais prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Brasil vive um per\u00edodo tosco. De impens\u00e1vel retrocesso.<\/p>\n<p>Parece querer retornar \u00e0s trevas do autoritarismo e da servid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito quero aqui me solidarizar com o professor Felipe Boff, do curso de jornalismo da Universidade do Vale dos Sinos \u2013 Unisinos \u2013 em S\u00e3o Leopoldo, no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Escolhido como paraninfo da turma, ele foi hostilizado pela plateia durante seu discurso na tribuna da cola\u00e7\u00e3o de grau da turma de 2019.<\/p>\n<p>Um horror.<\/p>\n<p>Precisou sair escoltado do audit\u00f3rio, segundo reportagem do site <em>Jornalistas Livres<\/em>.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fa\u00e7o minhas as palavras que honrosamente proferiu no ato:<\/p>\n<p><em>A imprensa brasileira vive seus dias mais dif\u00edceis desde a ditadura militar. Entre 1964 e 1985, jornalistas foram censurados, perseguidos, presos, torturados e assassinados, como Vladimir Herzog.<\/em><\/p>\n<p><em>Hoje somos insultados nas redes e nas ruas, perseguidos por mil\u00edcias virtuais e reais, cerceados e desrespeitados por autoridades que se sentem desobrigadas de prestar contas \u00e0 sociedade.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornalistaslivres.org\/professor-e-vaiado-em-formatura-de-jornalistas-por-apontar-ataques-do-governo-a-imprensa\/\"><strong>*AQUI<\/strong><\/a>, a reportagem!<\/p>\n<p>Leiam tamb\u00e9m:<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdojuca.uol.com.br\/2020\/03\/um-professor-contra-a-barbarie\/\"><em><strong>Um professor contra a barb\u00e1rie<\/strong><\/em><\/a><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Jornalismo, meus caros, \u00e9 car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Jornalismo \u00e9 resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o for assim, se \u00e9 para ficar batendo palmas pra maluco dan\u00e7ar, por que ent\u00e3o escolher o jornalismo como profiss\u00e3o e raz\u00e3o de vida?<\/p>\n<p>Jornalismo \u00e9 miss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o faz qualquer sentido, concordam?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Dizem que o Jornalismo mudou nesses anos todos \u2013 e mudou, sim. Na forma, na multiplica\u00e7\u00e3o e converg\u00eancia das plataformas midi\u00e1ticas, no jeito de capturar o leitor\/espectador. Mas, na ess\u00eancia, que me desculpem os descolados, moderninhos e cong\u00eaneres, \u00e9 o mesmo:<\/p>\n<p>Jornalismo prop\u00f5e a transforma\u00e7\u00e3o social e a defesa do bem comum. Da democracia. Dos direitos cidad\u00e3os e, principalmente, da justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/otcDhfJINLQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Leiam tamb\u00e9:<\/p>\n<p><em><strong>Um professor contra a barb\u00e1rie<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Passa o Rei com seu cortejo<\/em><\/p>\n<p><em>Passa o Deus com seu andor<\/em><\/p>\n<p><em>E mil\u00eanios depois,<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22192,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1107,44,1110,135,1108,1109,675],"class_list":["post-22191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-46-anos","tag-jornalismo","tag-luciana-mello","tag-memoria","tag-paraninfo","tag-professor","tag-taiguara"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22191"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22198,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22191\/revisions\/22198"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22192"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}