{"id":22418,"date":"2020-04-10T12:45:43","date_gmt":"2020-04-10T12:45:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22418"},"modified":"2020-04-10T13:13:01","modified_gmt":"2020-04-10T13:13:01","slug":"o-que-o-tempo-leva-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-4\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (4)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;<\/strong> <em>(Foto: Arquivo Pessoal)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Arranjei uma pequena grande confus\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem ao certo o que fazer comigo (Tipo aquela samambaia que cresceu al\u00e9m da conta &#8211; e agora atrapalha a passagem de todo mundo).<\/p>\n<p><em>Chi se ne frega!<\/em> \u2013 como diziam os italianos amigos do pai no Bar Ast\u00f3ria, a beber cerveja e jogar Patr\u00e3o e Sotto.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sou de ascend\u00eancia italiana,\u00a0<em>capiche<\/em>?<\/p>\n<p>Dos dois ramos da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por parte de m\u00e3e, os Chisolini se orgulhavam em dizer que vieram de Mantova e de Floren\u00e7a.<\/p>\n<p>J\u00e1 o v\u00f4 Carlito, embora nascido em Cascatinha no Rio de Janeiro, contava que os pais, os Avezzani, chegaram de N\u00e1poles.<\/p>\n<p>Por parte de pai, a coisa era mais simpl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Martinos e Leones aqui aportaram no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, vindos da Cal\u00e1bria.<\/p>\n<p>Era s\u00f3 o que diziam.<\/p>\n<p>E s\u00f3 o que se sabe ainda hoje.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O norte e o sul da Velha Bota t\u00eam l\u00e1 suas diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Digamos que os de cima se consideram mais ricos e cultos e belos enquanto os do sul s\u00e3o mais r\u00fasticos e turr\u00f5es e belos.<\/p>\n<p>Toda vez que o pai fazia das suas, n\u00e3o era raro a m\u00e3e justificar com o coment\u00e1rio nada lisonjeiro:<\/p>\n<p>\u2013 Ah, calabr\u00eas, foi o diabo que te fez.<\/p>\n<p>Como o pai aprontava muito e estava sempre em d\u00edvida com a m\u00e3e, ele apenas sorria e deixava\u00a0 vida seguir naturalmente.<\/p>\n<p>E assim a vida seguia.<\/p>\n<p>\u00d4 saudade!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma hist\u00f3ria que se ouvia na fam\u00edlia (da m\u00e3e, l\u00f3gico) \u2018enaltecia\u2019 a teimosia dos calabreses.<\/p>\n<p>Era a seguinte:<\/p>\n<p><em>Depois de andar pelo mundo, um homem, obviamente calabr\u00eas, quis voltar pra sua aldeia no sul da It\u00e1lia. Andou, andou, at\u00e9 que encontrou o Senhor, disfar\u00e7ado de eremita em uma clareira, que lhe disse:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Bom homem, me diga aonde vai?<\/em><\/p>\n<p><em>Ele respondeu<\/em>:<\/p>\n<p><em>\u2013 Ora, volto pra minha terra.<\/em><\/p>\n<p><em>E o Senhor:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Deveria dizer: \u2018com a gra\u00e7a de Deus\u2019.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Volto pra minha terra, e pronto e basta \u2013 reiterou o calabr\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>O Senhor n\u00e3o perdoou:<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Ent\u00e3o, por sua teimosia, ser\u00e1 punido. Ficar\u00e1 preso por sete anos no charco da Solid\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Naquele preciso momento, o caminhante virou um sapo e ficou a coaxar por sete anos no tal local determinado. A pular de l\u00e1 pra c\u00e1 e de c\u00e1 pra l\u00e1.<\/em><\/p>\n<p><em>Passado este per\u00edodo, desfez-se o encanto e o calabr\u00eas retomou sua caminhada.<\/em><\/p>\n<p><em>Andou algumas l\u00e9guas e outra vez o eremita\/Senhor se interp\u00f4s aos seus passos, com a mesma indaga\u00e7\u00e3o:<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u2013 Bom homem, me diga aonde vai?<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Ora, volto pra minha terra.<\/em><\/p>\n<p><em>\u2013 Deveria dizer: \u2018com a gra\u00e7a de Deus\u2019.<\/em><\/p>\n<p><em>Desta vez, o calabr\u00eas sequer chegou a responder. <\/em><\/p>\n<p><em>Entendeu com quem dialogava e, bem a seu modo, resmungando alguns\u00a0 improp\u00e9rios, retomou o rumo do Charco.<\/em><em><br \/>\n<\/em>&#8230;<\/p>\n<p>Essa historieta, como disse, ouvia na casa de meus av\u00f3s maternos.<\/p>\n<p>H\u00e1 coisa de ano e tanto, passei uns dias recentes em R\u00e9ggio Cal\u00e1bria, na ponta da Bota, e fiquei sabendo que o conto \u00e9 do Norte da It\u00e1lia e retrata o jeito de encarar a vida dos moradores de Biella, na regi\u00e3o de Piemonte.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m quem creditasse a fa\u00e7anha aos moradores de Trieste.<\/p>\n<p>Os <em>regiocalabreses <\/em>\u00a0se empolgaram na discuss\u00e3o da origem da f\u00e1bula\u00a0 &#8211; e, sinceramente, sa\u00ed da roda sem saber em quem acreditar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa muito. N\u00e3o importa nada.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m por aqui, neste Brasilz\u00e3o de meu Deus transfigurado ou n\u00e3o de eremita, vejo muita gente tinhosa que s\u00f3.<\/p>\n<p>Mandando e desmandando.<\/p>\n<p>Mas, isto \u00e9 outra hist\u00f3ria que fica para uma pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>E nada do caf\u00e9 chegar.<\/p>\n<p>Bolo, ent\u00e3o, pelo jeito, nem pensar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Kop3cUVd2qQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;<\/strong> <em>(Foto: Arquivo Pessoal)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Arranjei uma pequena grande confus\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem ao certo o que fazer comigo (Tipo aquela samambaia que cresceu al\u00e9m da conta &#8211;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":18171,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22418"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22423,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22418\/revisions\/22423"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18171"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}