{"id":22435,"date":"2020-04-13T13:26:31","date_gmt":"2020-04-13T13:26:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22435"},"modified":"2020-04-13T13:33:17","modified_gmt":"2020-04-13T13:33:17","slug":"o-que-o-tempo-leva-7","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-7\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (7)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211; <em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4, molecada, por que o cachorro entra na igreja? Voc\u00eas sabem?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Porque encontra a porta aberta. Simples.<\/p>\n<p>&#8211; Ah&#8230;<\/p>\n<p>\u2013 Agora, piralhos, sabem o porqu\u00ea ele sai?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o achou comida.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, cabe\u00e7\u00e3o, porque a porta continua aberta. Entenderam?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Entender, entender, a gente n\u00e3o entendia. Mas era o jeit\u00e3o que os adultos tinham de nos tocar das rodas que faziam para se divertir e beber e conversar e jogar bilhar no Bar do Pepino, ali, nas quebradas da rua Muniz de Souza com a Almeida Torres.<\/p>\n<p>Minha turma era abusada, garotada enxerida, louca para se enturmar com os grand\u00f5es. N\u00e3o \u00e9ramos barra-pesada (como se dizia, ent\u00e3o, para definir os violentos), mas bagun\u00e7\u00e1vamos al\u00e9m da conta.<\/p>\n<p>Vira e mexe, o lanterninha nos expulsava das matin\u00eas no cine Riviera.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lembrei a hist\u00f3ria, pois foi num passinho vira-lata que, malandramente, fui me achegando ao casar\u00e3o que \u00e9 a sede central da fazenda onde se localiza a Pousada Estrela dos Bo\u00eamios.<\/p>\n<p>De perto, a constru\u00e7\u00e3o se assoberba.<\/p>\n<p>Faz-se ainda mais imponente.<\/p>\n<p>Impressiona.<\/p>\n<p>Passa a sensa\u00e7\u00e3o de que \u00e9 uma nave-m\u00e3e a nos encaminhar para dentro da Hist\u00f3ria de um estranho pa\u00eds \u201clindo e trigueiro\u201d, como diz aquele samba \u00e9pico.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel dizer que estou diante da malfadada Casa Grande, aquela do livro do professor Gilberto Freyre.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A Casa Grande que, nas aulas de Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea do Brasil, causava uma pol\u00eamica.<\/p>\n<p>Dividia a turma.<\/p>\n<p>Uns achando que Freyre romanceava em cima do tema. Dava tra\u00e7os mais suaves ao horror que foi a escravid\u00e3o no Brasil e, assim, de certa forma, toldava a realidade que viv\u00edamos at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 e, tristemente, vivemos ainda hoje num Brasil de imensas senzalas.<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o come\u00e7ava na sala de aula e se estendia, ap\u00f3s o hor\u00e1rio, no Rei das Batidas, afamado botequim ali, no comecinho da Cidade Universit\u00e1ria. Uns goles a mais \u2013 e tudo acabava num samba triste que um veterano, de vasta cabeleira e bigode, o Serj\u00e3o, entoava em tom de lamento.<\/p>\n<p>Nunca me pronunciei sobre o momentoso tema. Mas, lembro o in\u00edcio do samba:<\/p>\n<p><em>\u00d4 Antonico, vou lhe pedir um favor<\/em><\/p>\n<p><em>Que s\u00f3 depende da sua boa vontade<\/em>.<\/p>\n<p><em>\u00c9 necess\u00e1rio uma vira\u00e7\u00e3o pro Nestor<\/em><\/p>\n<p><em>Que est\u00e1 passando por grande dificuldade.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>No folheto de apresenta\u00e7\u00e3o do passeio, folder para os american\u00f3ides de plant\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 qualquer men\u00e7\u00e3o, tipo \u201cvisita a uma aut\u00eantica senzala\u201d.<\/p>\n<p>Suponho que, no lugar antes habitado pelos escravos, podem ter constru\u00eddo os confort\u00e1veis chal\u00e9s para abrigar a turistada.<\/p>\n<p>Suponho.<\/p>\n<p>Seria uma amarga ironia.<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Vou me aboletar numa dessas poltronas de palha trabalhada que se espalham na ampla varanda do casario. Deixar que o tempo verta lentamente no entreato da mem\u00f3ria e das ideias.<\/p>\n<p>O tempo, amigos, n\u00e3o para no porto<\/p>\n<p>N\u00e3o apita na curva<\/p>\n<p>N\u00e3o espera ningu\u00e9m<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Agora percebo o motivo que leva os cowboys do cinema a usarem aqueles chapel\u00f5es de aba larga. Numa horinha distra\u00edda como esta, \u00e9 s\u00f3 embic\u00e1-lo sobre o rosto e puxar uma pestana legal.<\/p>\n<p>O bon\u00e9 disfar\u00e7a um tanto, mas, convenhamos, compromete o estilo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei o que os colegas da USP pensariam ao me flagrarem assim, tirando uma de<em> coron\u00e9<\/em>.<\/p>\n<p>Divertido mesmo seria ver a express\u00e3o de espanto dos meus amigos de inf\u00e2ncia, aqueles das matin\u00eas no Riviera, se me vissem agora.<\/p>\n<p>Estou me sentido o pr\u00f3prio Roy Rogers.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CQKf56stDx8\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211; <em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4, molecada, por que o cachorro entra na igreja? 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