{"id":22444,"date":"2020-04-15T12:43:39","date_gmt":"2020-04-15T12:43:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22444"},"modified":"2020-04-15T21:19:37","modified_gmt":"2020-04-15T21:19:37","slug":"o-que-o-tempo-leva-9","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-9\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (9)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;\u00a0<\/strong><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagran)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Dio mio!<\/p>\n<p>Quanta falta de absurdo!<\/p>\n<p>Ainda estou abestalhado com o bendito sonho (ou seria pesadelo?) que acho melhor acompanhar o <em>Lindo-Lind\u00e3o<\/em> na mi\u00fada, sem dar sequer um pio.<\/p>\n<p>Malandro que \u00e9 malandro n\u00e3o bobeia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ele segue alguns poucos passos \u00e0 frente; passos lentos, mas firmes.<\/p>\n<p>Posso observ\u00e1-lo mais atentamente.<\/p>\n<p>\u00c9 uns tantos anos mais coroa que eu, certamente.<\/p>\n<p>Parece bem disposto. Porte ereto \u2013 eu j\u00e1 ando meio broco dos cangotes -, pele temperada pelo sol desses quadrantes.<\/p>\n<p>Viver na montanha, ar puro, em contato com a natureza etc etc. Faz um bem danado.<\/p>\n<p>Aposto que n\u00e3o \u00e9 nativo da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem um estil\u00e3o requintado no gosto em se vestir, uns panos nos conformes e, de barato, esse cord\u00e3o de couro prendendo a cabeleira. Nos trinques.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A bem da verdade, suas (dele) fei\u00e7\u00f5es n\u00e3o me s\u00e3o estranhas.<\/p>\n<p>De onde conhe\u00e7o a figura?<\/p>\n<p>&#8211; Posso cham\u00e1-lo de voc\u00ea, n\u00e3o?<\/p>\n<p>Dou de ombros. Tanto faz.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea (eu) \u00e9 o jornalista turr\u00e3o que empacou (olha o verbo que ele usa?, n\u00e3o gostei) e n\u00e3o seguiu com os grupos nos passeios, o Italiano?<\/p>\n<p>Continuo na minha, em sil\u00eancio disperso. Cara de paisagem.<\/p>\n<p>Entramos na casa.<\/p>\n<p>Dez passos \u00e0 esquerda, uma porta de abrir e fechar, tipo saloon (e essa agora!), e topamos com um amplo refeit\u00f3rio todo zelosamente arrumado \u00e0 espera dos convivas.<\/p>\n<p>Ele escolhe a mesa pr\u00f3xima a uma das janelas, puxa uma das cadeiras. Antes se serve de uma cachacinha amarelecida que est\u00e1 ao gosto do fregu\u00eas no balc\u00e3o ao lado, oferece um trago:<\/p>\n<p>&#8211; Sirva-se, gente boa, \u00e9 das melhores que j\u00e1 provei!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Hesito em responder e aceitar (j\u00e1 cumpri minha cota de vexame por hoje, acho), mas me aboleto em outra das cadeiras.<\/p>\n<p>&#8211; O pessoal dos passeios ainda demora um pouco a, chegar. Voc\u00ea \u00e9 o escritor, jornalista? Italiano de onde? Qual seu nome mesmo?<\/p>\n<p>L\u00e1 vou eu dar a ficha completa:<\/p>\n<p>&#8211; Sou jornalista. Escritores s\u00e3o os bacanudos, os literatos. Sou rep\u00f3rter vira-lata, de p\u00e9 de p\u00e1gina, um escrevinhador do cotidiano. N\u00e3o sou italiano, \u00e9 um apelido que me deram aqui. Nasci em S\u00e3o Paulo, num bairro oper\u00e1rio\u2026<\/p>\n<p>&#8211; Seu nome?<\/p>\n<p>&#8211; Pedro Paulo \u2013 digo sem vontade de dizer. Preferiria continuar sendo s\u00f3 o Italiano.<\/p>\n<p>Enfim\u2026<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tomo coragem \u2013 e inverto o jogo das apresenta\u00e7\u00f5es. Finjo espontaneidade \u2013 e alguma indiferen\u00e7a &#8211; na pergunta:<\/p>\n<p>-O senhor \u00e9 daqui, do lugar?<\/p>\n<p>A resposta em detalhes n\u00e3o me surpreende:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos deixar de cerim\u00f4nia, o Senhor est\u00e1 no c\u00e9u, e \u00e9 bom que por l\u00e1 fique a olhar por n\u00f3s. Am\u00e9m. Sou ga\u00facho, mas vivi quase toda minha vida em S\u00e3o Paulo, onde minha carreira decolou e se estabeleceu. Passei algumas temporadas no Rio. H\u00e1 uns 20 anos, pouco mais, vim para c\u00e1. Eu e os meus livros que leio e releio, basicamente os cl\u00e1ssicos. H\u00e1 quem afirme que eu escolhi esse canto do mundo para fugir dos meus fantasmas. Pode ser\u2026<\/p>\n<p>Por falar nos ditos cujos, dou uma espiadela ao redor para conferir se os malocas dos meus amigos de inf\u00e2ncia \u2013 aqueles do sonho\/pesadelo \u2013 continuam a me rondar.<\/p>\n<p>Aquela molecada \u00e9 foda, viu.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O Tio Carlos danou-se a falar:<\/p>\n<p>&#8211; A bem da verdade, a vida, \u00e0s vezes, precisa de uma pausa, como escreveu Carlos Drummond de Andrade, um dos meus poetas favoritos.<\/p>\n<p>Eita, \u00a0e eu pensando que a frase fosse da minha douta cria\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Disfar\u00e7o. Finjo espanto:<\/p>\n<p>&#8211; Vinte anos, nossa! \u00c9 muito tempo.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o o suficiente, responde ele. &#8211; Pretendo ficar mais, bem mais. Aqui, o ator, autor, diretor, produtor, o homem de teatro Carlos Art\u00falio se reinventou como Compadre Tio Carlos. Adorei a persona e o personagem, fiz boas amizades \u2013 o Felisberto que chamam de Fil\u00f3sofo, por exemplo, \u00e9 um irm\u00e3o que ganhei \u2013 e, serenamente, por fim, posso dizer que me sinto mais feliz do que tristonho. Porque assim \u00e9 a vida real, mais desafiadora e algo al\u00e9m do que se esfor\u00e7am em sugerir as luzes da ribalta.<\/p>\n<p>Acho que entendo, acho.<\/p>\n<p>&#8211; Italiano, gente boa, por essas paragens da Bocaina, menos \u00e9 mais.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>Um canto de esperan\u00e7a&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/S340KTAoyjs\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;\u00a0<\/strong><em>(Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o do Instagran)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Dio mio!<\/p>\n<p>Quanta falta de absurdo!<\/p>\n<p>Ainda estou abestalhado com o bendito sonho (ou seria pesadelo?) que acho melhor acompanhar o <em>Lindo-Lind\u00e3o<\/em> na mi\u00fada,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22446,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22444","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22444"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22444\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22450,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22444\/revisions\/22450"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22446"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}