{"id":22451,"date":"2020-04-16T13:27:50","date_gmt":"2020-04-16T13:27:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22451"},"modified":"2020-04-16T13:33:24","modified_gmt":"2020-04-16T13:33:24","slug":"o-que-o-tempo-leva-10","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-10\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (10)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211; <em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>Menos \u00e9 mais&#8230;<\/p>\n<p>D\u00e1 para entender.<\/p>\n<p>At\u00e9 j\u00e1 senti essa ang\u00fastia. No meu caso foi quando embiquei para os 50 anos. Andava por ali, quarenta e muitos.<\/p>\n<p>Se puxar pelo calend\u00e1rio, mais ou menos \u00e0 \u00e9poca em que o Tio Carlos decidiu se bandear para a Serra da Bocaina, de mala (como ele disse, cheia de livros) e cuia (de chimarr\u00e3o, lembrem-se que ele \u00e9 ga\u00facho).<\/p>\n<p>Coincid\u00eancia pura, deixa quieto.<\/p>\n<p>Bateu em mim um mimimi existencial brabo. Daqueles do tipo tenho tudo, mas nada me satisfaz.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fiquei t\u00e3o apalermado que at\u00e9 pensei em fazer o vi\u00e7oso Caminho de Santiago de Compostela. 800 quil\u00f4metros de caminhada, cajado, paradas em albergues credenciados, eu comigo mesmo em busca do autoconhecimento.<\/p>\n<p>Estava decidido.<\/p>\n<p>Cheguei mesmo a participar de reuni\u00f5es na Associa\u00e7\u00e3o dos Amigos do Caminho de Santiago da Compostela, se\u00e7\u00e3o Brasil.<\/p>\n<p>Verdade.<\/p>\n<p>Virei o s\u00f3cio de n\u00famero 520.<\/p>\n<p>Tudo nas conformidades. Emendaria as duas f\u00e9rias vencidas que tinha no jornal \u2013 e, logo cedo, p\u00e9 na estrada pra n\u00e3o ter por\u00e9m.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Um choque de realidade.<\/p>\n<p>Uma providencial tendinite no calcanhar do p\u00e9 direito (ou esquerdo, n\u00e3o lembro agora) obrigou-me a usar uma palmilha alem\u00e3 (cara pra ded\u00e9u), al\u00e9m de adiar temporariamente meus planos de peregrino.<\/p>\n<p>Semanas depois, quase recuperado da inc\u00f4moda dor \u2013 eis que leio numa dessas revistas de turismo, de p\u00e1ginas super coloridas, uma competent\u00edssima reportagem de um colega do curso de jornalismo, o Maciel, grande cara que n\u00e3o vejo desde, digamos assim, os bancos escolares.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m se arvorou pelas sinuosidades da afamada vereda. S\u00f3 que de uma forma bem peculiar. Como, ali\u00e1s, bem sugeria o t\u00edtulo da ampla mat\u00e9ria:<\/p>\n<p><em>Pelos caminhos (das baladas) de Santiago<\/em><\/p>\n<p>Aplaudi de p\u00e9 a genialidade do Maci\u00e7a \u2013 e humildemente desisti de vez da empreitada.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o fui eu que fiz?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Atrevo-me a contar essa hist\u00f3ria para o nobre ator Carlos Art\u00falio \u2013 e ele ri que s\u00f3.<\/p>\n<p>Mostra-se solid\u00e1rio \u00e0 minha desdita.<\/p>\n<p>Diz que, se fosse com ele, certamente escolheria a segunda op\u00e7\u00e3o. A das baladas.<\/p>\n<p>Dou de ombros.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tenho resist\u00eancia atl\u00e9tica para a primeira \u2013 digo. &#8211; Da mesma forma, que me falta desenvoltura para a segunda.<\/p>\n<p>Dois goles que dei na tal cachacinha da boa \u2013 e c\u00e1 estou a rememorar encantamentos outros do passado que decididamente seria melhor esquecer de vez.<\/p>\n<p>E acrescento:<\/p>\n<p>&#8211; Al\u00e9m do que, amigo, sou do tempo da gandaia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Rimos com gosto.<\/p>\n<p>Outro brinde.<\/p>\n<p>Outra golada.<\/p>\n<p>E j\u00e1 estou me sinto quase um compadre do homem.<\/p>\n<p>L\u00edngua frouxa, escapa-me outra divaga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o sendo propriamente um noveleiro de estirpe, e querendo mostrar uma rebuscada cultura dramat\u00fargica, cito um personagem que muito me marcou (n\u00e3o tenho l\u00e1 grandes explica\u00e7\u00f5es para o fato) naqueles idos e havidos. Foi o papel do ator Jardel Filho, na novela de Dias Gomes, <em>O Bem Amado<\/em>, com interpreta\u00e7\u00e3o magistral de Paulo Gracindo como Odorico Paragua\u00e7u.<\/p>\n<p>(Gostaram? Sou quase um Google novel\u00edstico ambulante!)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Jardel fez o papel do m\u00e9dico Juarez Le\u00e3o que, l\u00e1 pelas tantas, aparece na cidadezinha praiana de Sucupira a viver solit\u00e1rio, longe de tudo e de todos numa choupana \u00e0 beira do mar.<\/p>\n<p>N\u00e3o diz a ningu\u00e9m que \u00e9 doutor.<\/p>\n<p>(S\u00f3 se descobre no fim da novela)<\/p>\n<p>O povar\u00e9u todo comenta:<\/p>\n<p>\u201cQuem ser\u00e1 o forasteiro?\u201d<\/p>\n<p>E ele ali, na dele, cara de poucos amigos e algum segredo a lhe cadenciar o baticum do cora\u00e7\u00e3o e obscurecer a mente.<\/p>\n<p>&#8211; Tinha uma empatia com o tal personagem.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Meu (quase) novo amigo d\u00e1 outra golada.<\/p>\n<p>Diz que gostaria de ter feito esse papel. Mas, reconhece, Jardel teve desempenho incompar\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8211; Ningu\u00e9m faria melhor, diz.<\/p>\n<p>Eram amigos, ele e Jardel.<\/p>\n<p>Conheceram-se, jovens iniciantes, no Teatro Brasileiro de Com\u00e9dia.<\/p>\n<p>&#8211; Grandes recorda\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>Pergunto se n\u00e3o sente saudade?<\/p>\n<p>Balan\u00e7a a cabe\u00e7a como a dizer assim-assim.<\/p>\n<p>&#8211; Vivi intensamente tudo o que me coube viver. N\u00e3o faria melhor do que fiz. Daqueles anos todos, s\u00f3 sinto falta mesmo da vitalidade, do ir e vir, fazer e desfazer, de se estar pleno, aberto aos incitamentos&#8230; Ter a tola compreens\u00e3o de que somos relevantes para o mundo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Carlos Art\u00falio segue falando&#8230;<\/p>\n<p>Ele foi grande, not\u00e1vel.<\/p>\n<p>Uma legenda do teatro, da TV, do cinema, das artes&#8230;<\/p>\n<p>Mas, querem saber, penso que hoje ele representa o seu melhor \u2013 e mais aut\u00eantico \u2013 personagem.<\/p>\n<p>Continua brilhante.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>Um canto triste&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hVCw8RFk4D0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pranto<\/strong><\/p>\n<p>&#8220;<em>Quanto a mim, o que me mant\u00e9m vivo \u00e9 o risco iminente da paix\u00e3o e seus coadjuvantes, amor, \u00f3dio, gozo, miseric\u00f3rdia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p><strong>Rubem Fonseca &#8211; <\/strong>(1925\/2020)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211; <em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>Menos \u00e9 mais&#8230;<\/p>\n<p>D\u00e1 para entender.<\/p>\n<p>At\u00e9 j\u00e1 senti essa ang\u00fastia. 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