{"id":22457,"date":"2020-04-17T12:48:49","date_gmt":"2020-04-17T12:48:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22457"},"modified":"2020-04-17T13:01:56","modified_gmt":"2020-04-17T13:01:56","slug":"o-que-o-tempo-leva-11","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-11\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (11)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; <\/strong><em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer, mas digo que&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; \u00a0a partir daquele instante, Carlos Art\u00falio, o Ator com A mai\u00fasculo, passou a ser o centro das aten\u00e7\u00f5es da enternecida Pousada Estrela dos Bo\u00eamios.<\/p>\n<p>Especialmente entre as mulheres, o grosso da caravana, assim que retornaram dos passeios, o entusiasmo se generalizou feito fogo no paiol.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Logo o reconhecem e passam a rode\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Para onde quer que ele v\u00e1, nunca est\u00e1 sozinho.<\/p>\n<p>Elazinhas se revezam em filas, at\u00e9 que comportadas, \u00e0 espera da vez para as inevit\u00e1veis selfies.<\/p>\n<p>Sorriem que sorriem.<\/p>\n<p>Falam que falam.<\/p>\n<p>Ficam aos cochichos, sussuros. Destacam esta ou aquela novela, esta ou aquela montagem teatral.<\/p>\n<p>Um s\u00f3 paparicar<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Carlos Art\u00falio interage numa boa. Sem qualquer estrelismo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 em casa \u2013 ali\u00e1s, mora em um dos chal\u00e9s.<\/p>\n<p>Sem exagero, consolida-se como a grande atra\u00e7\u00e3o do dia. Mais que montanhas, regatos, cachoeiras, o verde da natureza, as brom\u00e9lias, o c\u00e9u azul, essas naturalices (se me permitem o neologismo).<\/p>\n<p>&#8211; O coroa \u00e9 um charme \u2013 ou\u00e7o uma jovem comentar ao passar por mim, passo firme em dire\u00e7\u00e3o ao ator.<\/p>\n<p>Por uns breves segundos, pensei que fosse comigo.<\/p>\n<p>Sem no\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Penso alto:<\/p>\n<p>&#8211; Quem foi rei&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Nunca perde a realeza \u2013 conclui o Felisberto, imbu\u00eddo de seus pensares filosofais.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desconfio que o certo \u00e9:<\/p>\n<p>\u201cQuem foi rei, nunca perde a majestade.\u201d<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o serei eu a question\u00e1-lo.<\/p>\n<p>At\u00e9 estimo encontrar o Fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>Aproveito para lhe agradecer o que fez por mim \u2013 e pergunto como foram as andan\u00e7as morro acima com a turistada.<\/p>\n<p>&#8211; O de sempre, gente boa \u2013 ele me responde.<\/p>\n<p>E arrisca-se num complemento:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o atino bem o motivo que essas pessoas distintas, acostumadas ao conforto da bem-bom, v\u00eam para esses perdidos onde eu e os meus nos escondemos. Olham pra n\u00f3s e dizem: \u2018Isto \u00e9 que \u00e9 vida!\u2019. \u00d4 minha Santa Catarina, est\u00e3o de ironia. Ficam felizes, parecem animados. Passam umas horinhas, n\u00e3o largam a insepar\u00e1vel maquininha, e logo voltam para o lugar de onde vieram. Do jeito que v\u00eam, eles se v\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nunca havia pensado nesse contra-senso.<\/p>\n<p>&#8211; Falam que querem para espairecer, descansar, esquecer os dias corridos, as afli\u00e7\u00f5es da tranqueira de aldeia em que vivem. Que \u00e9 barulhenta, com polui\u00e7\u00e3o, tr\u00e2nsito&#8230; Mas, voltam correndinho.<\/p>\n<p>Concordo, faz sentido.<\/p>\n<p>Mas, ele n\u00e3o terminou:<\/p>\n<p>&#8211; Por aqui, Italiano, os dias s\u00e3o sempre iguais. Qual a novidade que buscam e n\u00e3o encontram? Fa\u00e7a chuva, fa\u00e7a sol. Todo o dia \u00e9 dia de lida. Clareou, hora de ro\u00e7ar, tocar o boi, fazer o que tiver que ser feito. Entardeceu, \u00e9 voltar pra casa, e seguir a sina. Assim \u00e9 a natureza, assim somos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O Fil\u00f3sofo est\u00e1 filosofando, como dizem por aqui.<\/p>\n<p>Desabafa ou tenta me convencer de algo?<\/p>\n<p>Sei n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o entendi aonde pretende chegar, mas vai chegar.<\/p>\n<p>Tenho certeza.<\/p>\n<p>Agora me enche de perguntas:<\/p>\n<p>(Perguntas que prefiro n\u00e3o responder.)<\/p>\n<p>&#8211; Os cara\u00edbas t\u00eam hora de trabalhar? Tem hora de espairecer? Hora pra rir? \u00a0Hora pra chorar? Hora pra amar? E, principalmente, hora pra desamar,\u00a0 sei bem. Tem hora pra tudo, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ele ri, debochado, diante da minha perplexidade.<\/p>\n<p>Diz que \u00e9 s\u00f3 um devaneio. Nada pessoal.<\/p>\n<p>&#8211; O Italiano, voc\u00ea me parece diferent\u00e3o dos outros. Pelo menos n\u00e3o lhe vi consultar uma s\u00f3 vez aquela engenhoca, o tal do celular. O pessoal vem pra c\u00e1 e n\u00e3o desprega o olho e o nariz da engenhoca, rapaz. D\u00e1 uma aus\u00eancia neles que \u00e9 de assustar. A\u00ed, v\u00e3o ver a cachoeira, a montanha, o azul\u00e3o do c\u00e9u, a passarada e n\u00e3o olham no ampliado. Preferem ver pelo buraquinho da c\u00e2mera e depois dizem que \u00e9 pra ter uma lembran\u00e7a do lugar. Lembran\u00e7a do qu\u00ea, mo\u00e7o? Se n\u00e3o viu do jeito que haveria de ver. Concorda?<\/p>\n<p>At\u00e9 concordo, s\u00f3 n\u00e3o vou dizer a ele que, por descuido, joguei meu celular na mochila sem ver que a bateria estava zerada. Tamb\u00e9m esqueci o carregador no hotel.<\/p>\n<p>Tenho um nome (ou melhor, um apelido ) a zelar, n\u00e3o conv\u00e9m cair na vala comum do descr\u00e9dito.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Melhor perguntar algo para ele n\u00e3o insistir na tem\u00e1tica da telefonia celular.<\/p>\n<p>&#8211; Sempre morou aqui, Felisberto?<\/p>\n<p>(Nunca sei se o chamo de Felisberto ou me dou \u00e0 familiaridade do apelido.)<\/p>\n<p>&#8211; Nasci em Bananal, me criei em S\u00e3o Jos\u00e9, dali para Guaratinguet\u00e1 e, depois, por bons anos \u2013 uns 15 \u2013 morei na Capital, mas nem gosto de lembrar isso, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fico em sil\u00eancio, n\u00e3o quero ser invasivo.<\/p>\n<p>Mas, ele \u00e9 falante:<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo n\u00e3o \u00e9 pra mim, n\u00e3o. Nunca fui feliz por l\u00e1. Um desconcerto no cora\u00e7\u00e3o \u2013 e resolvi voltar pro meu lugar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Eita!<\/p>\n<p>Agora que fiquei curioso.<\/p>\n<p>Pergunto ou n\u00e3o pergunto \u2013 eis a quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6B1Vc_UPmXk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; <\/strong><em>(Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer, mas digo que&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; \u00a0a partir daquele instante, Carlos Art\u00falio,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":20474,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22457","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22457","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22457"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22457\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22461,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22457\/revisions\/22461"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20474"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22457"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22457"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22457"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}