{"id":22474,"date":"2020-04-20T12:35:20","date_gmt":"2020-04-20T12:35:20","guid":{"rendered":"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22474"},"modified":"2020-04-20T13:18:14","modified_gmt":"2020-04-20T13:18:14","slug":"o-que-o-tempo-leva-14","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-14\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (14)"},"content":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211;<em> (Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O amigo Felisberto abre o jip\u00e3o que nos trouxe.<\/p>\n<p>Deixa portas e o bagageiro escancarados a gosto do fregu\u00eas.<\/p>\n<p>Joga ali algumas trolhas que imagino ser pr\u00f3prias da viagem.<\/p>\n<p>N\u00e3o espero a convoca\u00e7\u00e3o de retirada.<\/p>\n<p>Entro sem cerim\u00f4nia como se embarcasse numa tresloucada nave pronta a nos levar de volta ao passado.<\/p>\n<p>Sensa\u00e7\u00e3o mais do que estranha.<\/p>\n<p>T\u00e3o bom ficar por ali.<\/p>\n<p>Por que a \u00e2nsia em partir? Nem tudo que nos move tem ou carece de explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais mist\u00e9rios entre o c\u00e9u etcetcetc.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Espero mais alguns segundos at\u00e9 que Felisberto se aprume ao volante.<\/p>\n<p>N\u00e3o pe\u00e7o licen\u00e7a e j\u00e1 me aboletei no banco do carona antes que o fa\u00e7a algum aventureiro. Ajeito a mochila no assoalho, sob minhas pernas.<\/p>\n<p>Fecho quest\u00e3o comigo mesmo: o assento \u00e9 meu por merecimento e, v\u00e1 l\u00e1, tempo de jornada.<\/p>\n<p>Quem quiser que se escorregue pelos bancos traseiros.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Partimos.<\/p>\n<p>Felisberto, imbu\u00eddo das fun\u00e7\u00f5es de motorista, n\u00e3o se mostra a fim de filosofias e convers\u00ea.<\/p>\n<p>Entendo logo. Aos primeiros metros da estradinha de terra batida e cascalho, repleta de irregularidades e, mais adiante, curvas, arrisco dizer (para mim mesmo) que n\u00e3o teremos vida f\u00e1cil nas pr\u00f3ximas tr\u00eas horas, pouco mais, pouco menos.<\/p>\n<p>Melhor n\u00e3o sofrer por antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Grudo o olhar, atrav\u00e9s da janela, na linha do horizonte. Deixo a vis\u00e3o fatigar-se entre montanhas, matas e o azul do c\u00e9u, agora com laivos alaranjados que prenunciam a proximidade da noite.<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>Distraio-me a relembrar as conversas de hoje. O Ator e o Fil\u00f3sofo, que dupla! Quando e por que decidiram assenhorear-se do pr\u00f3prio destino?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso coragem.<\/p>\n<p>Uma grande desilus\u00e3o amorosa, talvez.<\/p>\n<p><em>O homem tem duas miss\u00f5es importantes. Amar e escrever \u00e0 m\u00e1quina. Escrever \u00e0 m\u00e1quina, com dois dedos. Amar, com a vida inteira. <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sou o Fil\u00f3sofo, menos ainda o Ator, mas tenho l\u00e1 meus arroubos de fraseador \u2013 embora aqui o fino pensar seja do saudoso cronista Ant\u00f4nio Maria dos tempos pr\u00e9 internet\u00eas.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m foge ao pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<p>Essa frase tamb\u00e9m \u00e9 boa \u2013 devo ter lido em algum lugar.<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>Arrisco dizer que todos n\u00f3s estamos em busca da tal felicidade, seja qual for o caminho que percorrermos.<\/p>\n<p>Alguns aos solavancos como este agora.<\/p>\n<p>O grilo \u00e9 que quando ela (a tal felicidade) se d\u00e1, muitas\u00a0 vezes, creiam, n\u00e3oa reconhecemos.<\/p>\n<p>Verdade sem mentira.<\/p>\n<p>S\u00f3 depois, bem depois, diremos:<\/p>\n<p>&#8220;Eu era feliz e n\u00e3o sabia.&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns muitos anos, mais do que eu gostaria de admitir, eu sempre fa\u00e7o a ressalva, o que me \u00e9 um tanto desalentador\u2026<\/p>\n<p>Enfim, como eu pensava (dizia a mim mesmo), naqueles idos, andava eu por Valladolid quando entrei numa das tantas igrejas da cidade espanhola (n\u00e3o lembro se era a matriz) e o que vejo?<\/p>\n<p>Uma madona com semblante sorridente, feliz, t\u00e3o radiante que de pronto nos cativa.<\/p>\n<p>Deu-me, confesso, um estranhamento.<\/p>\n<p>Na base que a sustentava, anjinhos \u00e0 parte, algu\u00e9m escreveu com letras disformes e imprecisas:<\/p>\n<p><strong><em>Virgem da Alegria<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Foi um susto quando a vi.<\/p>\n<p>Demorou um tantinho at\u00e9 cair a ficha.<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera:<\/p>\n<p>N\u00e3o estamos acostumados a nos defrontar com a Santa Alegria. Um dom que nos era natural, espont\u00e2neo e, ao que parece, vem se perdendo.<\/p>\n<p>Fiquei por ali, naquela capela, olhos atentos aos circundantes:<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas \u2013 e muitas, pra n\u00e3o dizer quase todas \u2013 que, mesmo depois de ler e reler a placa, n\u00e3o conseguiram entender o que ali se cunhou com todas as letras:<\/p>\n<p><em>\u00a0Santa Alegria<\/em><\/p>\n<p><em>Bendita Alegria <\/em><\/p>\n<p><em>Bem vinda toda a alegria<\/em><\/p>\n<p>Saem dali com ar sombrio, arrevesado, tipo:<\/p>\n<p>\u201cIsto n\u00e3o existe.\u201d<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Talvez o mundo atual tenha mesmo descartado a alegria de nossas vidas. A aut\u00eantica alegria. Das coisas simples, sensatas e sinceras como gosto de dizer.<\/p>\n<p>Temos de estar aptos a atender as conven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Atender ao que esperam de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Sermos politicamente corretos.<\/p>\n<p>Ostentarmos um not\u00e1vel status social.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos sair pela a\u00ed a demonstrar emo\u00e7\u00f5es. Fragilidades, medos, d\u00favidas.<\/p>\n<p>Assim nos fazem \u2013 e deixamos que o fa\u00e7am \u2013 mecanizados, objetivos, aparentemente poderosos \u2013 e, ao fim de tantas e tamanhas conquistas \u2013 tristes\u2026 Competitivos e tristes.<\/p>\n<p>Robotizados e tristes.<\/p>\n<p>Senhores da verdade e tristes.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n<p>Daria para escrever um livro sobre o assunto.<\/p>\n<p>Talvez uma grande reportagem estaria de bom tamanho.<\/p>\n<p>Um podcast, quem sabe? Est\u00e1 t\u00e3o na moda&#8230;<\/p>\n<p>Sair por a\u00ed dando palestras sobre o tema Essa tal Felicidade.<\/p>\n<p>Eu, e minhas parlapatices!<\/p>\n<p>Sejamos pr\u00e1ticos:<\/p>\n<p>Melhor mesmo seria chegar logo no hotelzinho de Barreiro &#8211; e dormir gostoso.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>Um canto esquecido, por P\u00e1dua e TomChris&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B0jQsV0ExKI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><strong>UMA NOVELA BLOGUEIRA<\/strong> &#8211;<em> (Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O amigo Felisberto abre o jip\u00e3o que nos trouxe.<\/p>\n<p>Deixa portas e o bagageiro escancarados a gosto do fregu\u00eas.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22477,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22474"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22484,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22474\/revisions\/22484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22477"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}