{"id":22592,"date":"2020-05-04T07:01:00","date_gmt":"2020-05-04T07:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22592"},"modified":"2020-05-04T18:01:18","modified_gmt":"2020-05-04T18:01:18","slug":"o-que-o-tempo-leva-28","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-28\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (28)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O METR\u00d4 vai preenchendo de cinza met\u00e1lico todo o horizonte \u00e0\u00a0 frente de Felisberto. Ele tem claro o que deve ser feito&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>14h02.<\/p>\n<p>Olha para o rel\u00f3gio da esta\u00e7\u00e3o para confirmar o hor\u00e1rio com o do mostrador do <em>made in Paraguai\u00a0<\/em>que traz no pulso.<\/p>\n<p>Se \u00e9 para ser que seja agora, pensa.<\/p>\n<p>Apesar de tudo &#8211; e dela, em especial -, \u00e9 um homem de decis\u00f5es fortes.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desce afobado pela escada rolante rumo \u00e0 plataforma dos trens.<\/p>\n<p>O metr\u00f4 com destino ao bairro de Santana se aproxima e a multid\u00e3o ao redor se inquieta.<\/p>\n<p>Todos querem embarcar ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 agora ou nunca.<\/p>\n<p>Tem claro o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer &#8211; e far\u00e1.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode ficar protelando, pensar duas, tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>Mudaria de ideia, f\u00e1cil, f\u00e1cil.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegue entender o amor de Lucilinda e o Sr. Camargo, nada a ver um com o outro.<\/p>\n<p>Est\u00e1 mais pra filha dele.<\/p>\n<p>Eita, que a ard\u00eancia lhe invade o peito. Volta a suar frio. Est\u00e1 gelado.<\/p>\n<p>N\u00e3o pode titubear.<\/p>\n<p>Ouviria e diria, de novo e sempre, &#8220;\u00e9 um tremendo e lament\u00e1vel engano&#8221;?<\/p>\n<p>N\u00e3o deve se iludir.<\/p>\n<p>Chega!<\/p>\n<p>Decis\u00e3o tomada &#8211; e ponto final.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Apressa o passo, olha para o ch\u00e3o entre os p\u00e9s da gentalha, ultrapassa o risco amarelo da faixa de seguran\u00e7a entre a plataforma e o vag\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem que estar ali quando o momento chegar.<\/p>\n<p>Um, dois segundos a mais&#8230;<\/p>\n<p>O metr\u00f4 vai preenchendo de cinza met\u00e1lico todo o horizonte \u00e0\u00a0 frente.<\/p>\n<p>A confus\u00e3o \u00e9 geral.<\/p>\n<p>Precipita-se em meio \u00e0quela gente toda.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos se apicha para dentro do vag\u00e3o.<\/p>\n<p>Aliviado e cheio de planos:<\/p>\n<p>&#8220;Volto para minha terra. L\u00e1 sou amigo do rei. Terei a mulher que eu quero na cama que escolherei&#8221; &#8211; ouviu a frase de um bacana, um tal de Sr. Bandeira. Pelo menos era assim que o chamavam, toda vez que guardava a rel\u00edquia do seu Prefect 50 l\u00e1 no estacionamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem l\u00e1 grande certeza. Sem consultar o caderninho, faz uma confus\u00e3o danada.<\/p>\n<p>O poema <em>Pas\u00e1rgada<\/em> \u00e9 de Manuel Bandeira, esclare\u00e7a-se.<\/p>\n<p>O nome do dono da rel\u00edquia n\u00e3o precisa necessariamente constar do nosso relato.<\/p>\n<p>Fica, com todo o respeito, e por enquanto, sendo s\u00f3 o velhote letrado que tamb\u00e9m curtia dizer poemas e frases bonitas.<\/p>\n<p>&#8211; Sabia das coisas. Um homem de respeito.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Felisberto s\u00f3 n\u00e3o entende porque repete a frase agora nesse sufoco.<\/p>\n<p>1 &#8211; N\u00e3o \u00e9 amigo de ningu\u00e9m, menos ainda de um rei.<\/p>\n<p>2 &#8211; N\u00e3o sabe lembrar sequer o nome de uma mulher conhecida.<\/p>\n<p>3 &#8211; N\u00e3o tem onde dormir. N\u00e3o tem cama, portanto.<\/p>\n<p>4 &#8211; Nem sequer imagina qual seja o nome do prefeito de Bananal para onde pretende voltar e viver.<\/p>\n<p>Quest\u00f5es postas, quest\u00f5es sem respostas.<\/p>\n<p>Serve como desabafo, talvez.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Desde que se entendeu por gente, sempre soube que o \u00f4nibus S\u00e3o Paulo\/Bananal tem sa\u00edda di\u00e1ria \u00e0s 16h30. Tem certeza que n\u00e3o mudou. A vida no lugar de onde veio, os confins do Vale do Para\u00edba, \u00e9 assim mesmo. N\u00e3o muda nunca.<\/p>\n<p>Sempre soube tamb\u00e9m que um dia voltaria. Ricos ou pobres, vivos ou mortos, todos retornam para a terrinha. \u00c9 uma praxe do lugar, uma tradi\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m comenta, n\u00e3o est\u00e1 escrita em livro nenhum, nenhum documento, n\u00e3o \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o lavrada em cart\u00f3rio, mas existe e se renova a cada gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele mesmo. Um exemplo vivo (ufa!) desta verdade factual. N\u00e3o imaginou que voltaria t\u00e3o cedo, Mas, o destino &#8211; e que triste destino!, lamenta &#8211; o empurrou para a Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria do Tiet\u00ea e agora ele espera, aparentemente tranquilo, uma daquelas sucatas da P\u00e1ssaro Marrom.<\/p>\n<p>Destino: a secular e hist\u00f3rica Bananal.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lembra que, quando menino, vinha para Capital com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Era uma festa!<\/p>\n<p>N\u00e3o se dava conta das quase seis horas de viagem.<\/p>\n<p>Uma aventura por estradas vicinais p\u00e9ssimas e o intermin\u00e1vel pinga-pinga em diferentes cidades. Uma doideira.<\/p>\n<p>Em compensa\u00e7\u00e3o, a volta era um arrasto s\u00f3. Guaratinguet\u00e1, Lorena, Cachoeira, Silveiras, Areias, S\u00e3o Jos\u00e9, Formoso, Arape\u00ed e finalmente Bananal na divisa com o Rio de Janeiro. Onze meia, meia-noite e pouco, fosse qual fosse o hor\u00e1rio, todos desembarcavam esfolados das n\u00e1degas ao c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Agora, acontece justamente o oposto.<\/p>\n<p>O desacor\u00e7oamento \u00e9 s\u00f3 e inteiro dele.<\/p>\n<p>N\u00e3o quer mais pensar no &#8221; tremendo e lament\u00e1vel engano&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, incr\u00edvel, sente-se revigorado s\u00f3 de se imaginar em Bananal. Rever a m\u00e3e, os familiares, alguns amigos e, quem sabe, ficar por ali tocando sua vidinha at\u00e9 que todos em S\u00e3o Paulo se esque\u00e7am dele e ele, principalmente, se esque\u00e7a de Lucilinda.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DIxSq-yCE5E\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: J\u00f4 Rabelo)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O METR\u00d4 vai preenchendo de cinza met\u00e1lico todo o horizonte \u00e0\u00a0 frente de Felisberto. 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