{"id":22596,"date":"2020-05-05T07:12:42","date_gmt":"2020-05-05T07:12:42","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22596"},"modified":"2020-05-05T12:36:34","modified_gmt":"2020-05-05T12:36:34","slug":"o-que-o-tempo-leva-29","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-29\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (29)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Wilson Luque)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>QUEM DIRIA? Menos de 24 horas atr\u00e1s, era s\u00f3 o Felisba, apaixonado e iludido. Agora viaja e pensa no que deveria ser e n\u00e3o foi&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quanto tempo n\u00e3o enfrenta uma estrada?<\/p>\n<p>A pergunta fica batucando sem resposta na cabe\u00e7a de Felisberto. Vai que vai destrambelhado que s\u00f3 o \u00f4nibus que agora corta a Dutra numa velocidade superior aos limites de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&#8220;Segura, pe\u00e3o!&#8221;<\/p>\n<p>Sente-se melhor. At\u00e9 consegue brincar consigo mesmo. Ajuda que o bus\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 com lota\u00e7\u00e3o esgotada, o que permite que se esparrame sozinho em duas poltronas do fund\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabe ao certo como chegou ali. Menos ainda o que vai fazer daqui pra frente. Menos de 24 horas atr\u00e1s, era s\u00f3 o Felisba, apaixonado e iludido. Quem diria?<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, pensa no que deveria ser e n\u00e3o foi. Lucilinda aparece para tumultuar as ideias.<\/p>\n<p>N\u00e3o tem qualquer ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma vez ouviu de outro bacana que guardava um Santan\u00e3o no estacionamento uma frase bonita:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o apresse o rio, ele corre sozinho&#8221;.<\/p>\n<p>Pensou nos c\u00f3rregos e rios daqueles cant\u00f5es onde nasceu e viveu, e disse para si mesmo:<\/p>\n<p>&#8220;Faz todo sentido&#8221;.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o deu pra guardar num caderno, de capa dura que comprou num mercadinho, tudo o que ouve e l\u00ea de frases que acha que vale \u00e0 pena.<\/p>\n<p>Se ele fosse estudado, escrevesse um livro, uma novela de televis\u00e3o ou mesmo uma can\u00e7\u00e3o, ia lhe dar esse nome:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o apresse o rio&#8221;<\/p>\n<p>Batuta, perfeito.<\/p>\n<p>Apressou-se a anotar no tal caderno esta \u00faltima fala. Pois era exatamente assim que se sentia naquele preciso instante.<\/p>\n<p>&#8220;Tudo \u00e9 tudo, e nada \u00e9 nada&#8221;.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Adormece sem planos e desperta com o \u00f4nibus sacudindo e jogando para todos os lados, feito barco \u00e0 deriva. Conhece o motivo desde os tempos idos: a sequ\u00eancia de curvas e o piso esburacado. O asfalto da Dutra ficou para tr\u00e1s, agora \u00e9 o s<em>alve-se quem puder<\/em>\u00a0da estradinha que liga Queluz a Bananal.<\/p>\n<p>Noite feita, quase nove horas, tanto tempo sem dar com os costados por aqui, n\u00e3o sabe mais se localizar. Os modernos guias de turismo definem aquela regi\u00e3o como &#8220;o roteiro das cidades hist\u00f3ricas&#8221;. Para os nativos, o roteiro \u00e9 mesmo &#8220;o das cidades mortas&#8221;.<\/p>\n<p>A gosto do fregu\u00eas.<\/p>\n<p>Conhece s\u00f3 o lado paulista. Bananal, S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro, Areias, Silveiras e Queluz viveram o auge em meados do s\u00e9culo 18 no tempo das primeiras fazendas que cultivavam caf\u00e9 ainda no imp\u00e9rio. Antes toda aquela regi\u00e3o era rota de tropeiros.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O professor do Grupo Escolar onde estudou dizia que D. Pedro I dormiu na Fazenda do Pau D&#8217;Alho antes de seguir para S\u00e3o Paulo e proclamar a Independ\u00eancia. Ser\u00e1 verdade? T\u00e1 certo que o professor Ruggiero era de Barreiro, onde fica a fazenda.<\/p>\n<p>Sei l\u00e1, o povo gosta de inventar umas hist\u00f3rias, e &#8216;puxar a sardinha para a sua brasa&#8217;..<\/p>\n<p>Se bem que uma tarde, ainda quando vivia na Capital, o locutor deu a not\u00edcia com aquela voz empolada:<\/p>\n<p>&#8220;Bom dia, amigos ouvintes. A R\u00e1dio Eldorado tem honra de anunciar que: pela sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica, o Governo do Estado de S\u00e3o Paulo vai investir &#8220;tantos&#8221; milh\u00f5es de reais para recuperar a Fazenda Pau D&#8217;Alho em S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro, no Vale do Para\u00edba. O restauro estar\u00e1 a cargo de uma equipe de professores da Universidade de S\u00e3o Paulo&#8221;.<\/p>\n<p>Se bem conhece no ritmo da vida naquele fim de mundo, Felisberto \u00e9 capaz de apostar que as obras ainda est\u00e3o em andamento.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Dito e feito.<\/p>\n<p>Falando no tro\u00e7o, olha ele ali.<\/p>\n<p>Felisberto enxerga, apesar da escurid\u00e3o, as cinco monumentais palmeiras \u00e0 frente de um imponente port\u00e3o de madeira, os altos muros caiados, o telhado do casario.<\/p>\n<p>\u00c9 o Pau D&#8217;Alho.<\/p>\n<p>Em algum canto, ali naquele breu da noite, h\u00e1 uma placa do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, anunciando a restaura\u00e7\u00e3o que nunca termina.<\/p>\n<p>De novidade mesmo, desconfia, s\u00f3 deve haver o nome do governador atual, e olhe l\u00e1.<\/p>\n<p>Cidades mortas, sempre foi assim.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pvHnfq4hYgg\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Wilson Luque)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>QUEM DIRIA? Menos de 24 horas atr\u00e1s, era s\u00f3 o Felisba, apaixonado e iludido. Agora viaja e pensa no que deveria ser e n\u00e3o foi&#8230;<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22648,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22596","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22596","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22596"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22596\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22743,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22596\/revisions\/22743"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22648"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22596"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22596"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22596"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}