{"id":22613,"date":"2020-05-06T07:07:35","date_gmt":"2020-05-06T07:07:35","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22613"},"modified":"2020-05-06T12:42:41","modified_gmt":"2020-05-06T12:42:41","slug":"o-que-o-tempo-leva-30","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-30\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (30)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>POIS N\u00c3O \u00c9 que o Fil\u00f3sofo est\u00e1 de volta! E reencontra o amigo, amig\u00e3o mesmo, o Bosco. Nada a temer sen\u00e3o o correr da vida&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O \u00f4nibus faz uma curva, outra e &#8230;<\/p>\n<p>Felisberto levanta-se. Acomoda-se na primeira poltrona, agora livre. J\u00e1 pode ver as luzes, de um amarelo esmaecido, cor de ouro velho, que iluminam \u00e0 placa com a indica\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>Per\u00edmetro Urbano. S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro<\/em>.<\/p>\n<p>Sente-se em casa.<\/p>\n<p>&#8220;Pois n\u00e3o \u00e9 que voltei mesmo!&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Alguns minutos depois, est\u00e1 na pra\u00e7a do vilarejo de pouco mais que 4 mil habitantes. N\u00e3o h\u00e1 esta\u00e7\u00e3o rodovi\u00e1ria, acredite se quiser. O ponto de parada (embarque e desembarque) \u00e9 em frente ao bar que, ali\u00e1s, permanece igualzinho aos tempos de rapazola. S\u00f3 que agora exibe um letreiro luminoso com a nova denomina\u00e7\u00e3o: <em>Bet&#8217;s Bar<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;Bonito, \u00e9 a modernidade!&#8221;<\/p>\n<p>Da janela, olha o movimento apesar do hor\u00e1rio. Tem uma garotada com jeito de cidade grande. Sempre foi esse rebuli\u00e7o. Em tempos de f\u00e9rias escolares ou fim de semana prolongado, junta gente de S\u00e3o Paulo, Rio, Minas para aproveitar a tranquilidade e os encantos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, lembra Felisberto, \u00e9 uma cidade bem charmosa aos p\u00e9s dos morros da Bocaina, a decantada Serra da Bocaina que tem sua beleza preservada por decreto federal entre a cordilheira da Mantiqueira e a Serra do Mar.<\/p>\n<p>Aprendeu tudo direitinho com o professor Cassemiro (assim mesmo com <em>ss<\/em>) e nunca mais esqueceu.<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 l\u00e1 que se situa o Parque Nacional da Bocaina, com cachoeiras, fauna, flora que atraem turistas de todo o mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Falou e disse, o professor.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Olha mais atentamente, e reconhece o Bosco, um amigo de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>A express\u00e3o de menino indolente (apesar da barba rala que agora exibe), o corpo atarracado&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que est\u00e1 no del\u00edrio de novo. Vendo coisa que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Arriscou.<\/p>\n<p>Num impulso, pegou as tralhas e desceu.<\/p>\n<p>Dane-se.<\/p>\n<p>\u00c9 o amigo, amig\u00e3o mesmo. N\u00e3o os tratantes que deixou em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Rever Bosco s\u00f3 pode lhe fazer bem.<\/p>\n<p>Aquele Felisberto de ontem n\u00e3o existe mais. Define-se como um novo homem apesar dos desaforos que traz no peito e a velha bota de couro fajuto de cobra, resqu\u00edcios de um tempo que agora quer esquecer.<\/p>\n<p>Um bom momento para estrear o chapel\u00e3o de cowboy.<\/p>\n<p>Nada a temer sen\u00e3o o correr da vida.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Paramentado do jeito que estava, convenhamos, normal que demorasse alguns segundos para o amigo reconhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Bosco fica visivelmente feliz quando identifica Felisberto, dos tempos de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lembra que ele, Felisberto, colecionava frases bonitas num caderninho &#8211; e as recitava na aula de Orat\u00f3ria.<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 quanto tempo foi isso, meu Deus?<\/p>\n<p>30, 35 anos.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o pode ser. Tanto tempo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Felisberto, por sua vez, recordou a express\u00e3o de felicidade do pr\u00f3prio pai (Que Deus o tenha!) quando chegou em casa com a not\u00edcia: havia arrumado uma fun\u00e7\u00e3o como caseiro numa bela ch\u00e1cara l\u00e1 para os lados do Morro Frio. A vida andava sofrida que s\u00f3 em Bananal. E assim toda a fam\u00edlia mudou-se para a cidade vizinha, de S\u00e3o Jos\u00e9 de Barreiro.<\/p>\n<p>Foram oito anos, se tanto.<\/p>\n<p>Depois Felisberto fez o trajeto que todo jovem da regi\u00e3o faz. Morou um tempo em Guaratinguet\u00e1 e, dali, para Capital logo depois que o pai morreu.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 Por onde voc\u00ea andou esse tempo todo, rapaz?<\/p>\n<p>&#8211; Por a\u00ed, por a\u00ed, simplificou Felisberto.<\/p>\n<p>&#8211; E o seu pessoal? T\u00e1 sozinho? Veio ver a fam\u00edlia?<\/p>\n<p>&#8211; Olha que nem eu sei. At\u00e9 agorinha pouco vou lhe dizer que estava s\u00f3 e mal acompanhado.<\/p>\n<p>&#8211; J\u00e1 vi que continua colecionando tiradas de efeitos. Eis que o nosso Fil\u00f3sofo est\u00e1 de volta, ent\u00e3o? Quem diria?<\/p>\n<p>Felisberto, j\u00e1 devidamente reempossado como &#8216;o Fil\u00f3sofo das frases bonitas&#8217;, apelido que ganhara quando garoto, pensava numa daquelas bem bonitas para assegurar uma boa entrada em cena.<\/p>\n<p>Mas, de s\u00fabito, fica p\u00e1lido, emudece.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Antes que Bosco possa entender o que se passa, vem a pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; De quem \u00e9 aquele Fusc\u00e3o?<\/p>\n<p>Pode parecer inacredit\u00e1vel, recurso de novela mesmo, mas Felisberto est\u00e1 diante do carro que foi de Lucilinda. Verde, placas, AT 4558, de S\u00e3o Paulo ainda. Ali, parado a meio fio, o abusado parece estar \u00e0 sua espera. Ao seu alcance.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a dona caiu em\u00a0 si e despencou, estrada afora, atr\u00e1s dele?<\/p>\n<p>Reviravoltas no jogo do amor?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Larga o amigo falando sozinho, e vai certificar-se de que n\u00e3o, n\u00e3o, est\u00e1 delirando.<\/p>\n<p>Confere o vidro traseiro &#8211; e n\u00e3o tem mais qualquer d\u00favida.<\/p>\n<p>L\u00e1 sobrevivem as marcas &#8211; n\u00e3o, as de um cora\u00e7\u00e3o arrebentado, mas da cola do adesivo do S\u00e3o Paulo Futebol Clube que ele pr\u00f3prio (at\u00e9 ent\u00e3o um fan\u00e1tico palmeirense) ajudou Lucilinda a pregar bem no centro.<\/p>\n<p>Uma homenagem ao Tricolor de Ra\u00ed, a quem ela &#8220;amava de paix\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Desde esse dia, Felisberto (quanta ingenuidade!) virou bandeira. Fez picadinho do p\u00f4ster do Ademir da Guia. Uma heresia. Mas, o amor valia qualquer barganha, qualquer sacrif\u00edcio (quase foi preso por amar demais) e, a partir de ent\u00e3o, se disse s\u00e3o-paulino desde criancinha.<\/p>\n<p>Ai de quem tocasse nesse assunto futebol\u00edstico, com alguma suspeita!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Pensando bem, e diante das circunst\u00e2ncias, poderia voltar a ser palmeirense. Nada impede.<\/p>\n<p>Resolve deixar para depois a reflex\u00e3o sobre t\u00e3o palpitante tema.<\/p>\n<p>Agora, quer desvendar o mist\u00e9rio do Fusc\u00e3o Verde, ano 1971.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WOhSIZaC1cI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>POIS N\u00c3O \u00c9 que o Fil\u00f3sofo est\u00e1 de volta! 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