{"id":22628,"date":"2020-05-07T07:45:47","date_gmt":"2020-05-07T07:45:47","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22628"},"modified":"2020-05-07T12:16:24","modified_gmt":"2020-05-07T12:16:24","slug":"o-que-o-tempo-leva-31","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-31\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (31)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>FILOSOFAR<\/strong><\/em> <em><strong>de Felisberto, o menino crescido: nunca precisou de nada al\u00e9m do pouco que possu\u00eda. A cidade grande que o fez triste&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De ilus\u00e3o, meu caro Felisberto, n\u00e3o mais se vive.<\/p>\n<p>Anote mais essa no caderninho de frases e pensamentos.<\/p>\n<p>Bosco, o amig\u00e3o, vem em socorro &#8211; e desfaz qualquer equ\u00edvoco.<\/p>\n<p>O valente Fusc\u00e3o \u00e9 de um amigo, o Percival. Comprou numa feira de autom\u00f3veis no Anhembi, em S\u00e3o Paulo, de um senhor falador metido a fazer piadinha. Pagou uma bagatela, 0 cidad\u00e3o estava com pressa de se livrar do carango, mas Perci n\u00e3o est\u00e1 satisfeito.<\/p>\n<p>O <em>bicho<\/em> \u00e9 beberr\u00e3o. Gasta muita gasolina:<\/p>\n<p>&#8211; Ainda se fosse a \u00e1lcool, v\u00e1 l\u00e1!, diz Bosco.<\/p>\n<p>&#8211; Nos derivados de cana, a prefer\u00eancia \u00e9 do motorista, rebate Perci.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nada como estar na pr\u00f3pria terrinha.<\/p>\n<p>Vinte minutos depois, l\u00e1 se v\u00e3o as economias de Felisberto e parte da indeniza\u00e7\u00e3o que ainda nem chegou a cair na conta.<\/p>\n<p>O Fusc\u00e3o Verde 71 \u00e9 de Felisberto, ponto de partida para nova vida e novas emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Ah, danado!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>De chapel\u00e3o, bota de couro de cobra e Fusc\u00e3o que Felisberto reencarna o Fil\u00f3sofo e chega na manh\u00e3 seguinte na casa da m\u00e3e.<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe trouxe qualquer lembrancinha como das vezes anteriores. Mas, se justifica: viveu uns mal-entendidos na cidade grande &#8211; e preferiu voltar, assim, no estalo.<\/p>\n<p>&#8211; O bom filho a casa torna, n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o?<\/p>\n<p>Dona Eul\u00e1lia se surpreende com o inesperado da apari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Continua o mesmo menino crescido, pensa a m\u00e3e.<\/p>\n<p>Agora estava ali \u00e0 sua frente, dono de um autom\u00f3vel barulhento, uma mala disforme com al\u00e7a e de pano, todo amarfanhado. Mas, o que lhe chama mesmo a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o no rosto, de uma alegria tristonha, t\u00edpica de quem quer esquecer o passado e, se poss\u00edvel, voltar a sorrir.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Respeitoso como sempre foi, Felisberto pede b\u00ean\u00e7\u00e3o e, antes que se lhe fa\u00e7a qualquer pergunta, responde as inquieta\u00e7\u00f5es que afligem o cora\u00e7\u00e3o materno:<\/p>\n<p>&#8211; Cansei da cidade grande. Aquele n\u00e3o \u00e9 o meu lugar. Muita hipocrisia, muita falsidade. Quero me ajustar por aqui.<\/p>\n<p>&#8211; Pois veja s\u00f3&#8230; Tinha a certeza que estava tudo \u00e0s mil maravilhas. Jurava que n\u00e3o poria os p\u00e9s por aqui t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>&#8211; Estou pensando em descansar alguns dias e depois vou ver o que fa\u00e7o da vida. Tem lugar pra mais um?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O ranchinho se espalha num terreno inclinado, at\u00e9 que de tamanho razo\u00e1vel. Uns 10 por 20.<\/p>\n<p>A casa, no entanto, meio de pau-a-pique, meio de alvenaria, continua acanhada. Especialmente porque Dona Eul\u00e1lia mora com o outro filho, a nora e dois netos pequenos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, n\u00e3o h\u00e1 como deixar o filho sem abrigo.<\/p>\n<p>&#8211; Vou lhe ajeitar um lugar pra dormir. Por enquanto, guardo seus trecos no meu quartinho.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Logo o cheiro forte de caf\u00e9 quente faz Felisberto puxar pelas lembran\u00e7as de idas e vividas \u00e9pocas. Apesar da pobreza, sempre foi um menino feliz. Afeito \u00e0s pequenas aventuras de garoto num lugar onde a natureza \u00e9 dominante,\u00a0 sinceramente levou um bom tempo at\u00e9 ser capaz de distinguir entre quem tem e quem n\u00e3o tem grana.<\/p>\n<p>Estudou em escola p\u00fablica como todo mundo ali. Andou a cavalo, nadou no ribeir\u00e3o, apanhou a <em>frutaiada<\/em> toda no p\u00e9, chutou bola descal\u00e7o pelos campinhos improvisados entre s\u00edtios e fazendas.<\/p>\n<p>Que se lembre agora, nunca precisou de nada al\u00e9m do pouco que possu\u00eda.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>A cidade grande que o fez triste.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, tinha plena convic\u00e7\u00e3o: o desalinho da cidade grande fez com que ela n\u00e3o entendesse o tamanho do amor que ele, Felisberto, lhe dedicou.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m cometeu um tremendo e lament\u00e1vel engano ao troc\u00e1-lo por aquele l\u00e1.<\/p>\n<p>\u00c9 isso. Est\u00e1 mais do que explicado.<\/p>\n<p>Melhor n\u00e3o pensar. Nunca mais.<\/p>\n<p>Esquecer que uma tal de&#8230; (como \u00e9 o nome mesmo?) existe, eis o desafio.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que consegue?<\/p>\n<p>&#8220;Todo o adeus \u00e9 uma nova chance de partir e chegar.&#8221;<\/p>\n<p>(Correu anotar a frase no caderninho.)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IYZwuB_FQhg\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>FILOSOFAR<\/strong><\/em> <em><strong>de Felisberto, o menino crescido: nunca precisou de nada al\u00e9m do pouco que possu\u00eda.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22671,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22628","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22628"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22628\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22765,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22628\/revisions\/22765"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22671"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}