{"id":22634,"date":"2020-05-08T07:16:37","date_gmt":"2020-05-08T07:16:37","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22634"},"modified":"2020-05-08T14:45:30","modified_gmt":"2020-05-08T14:45:30","slug":"o-que-tempo-leva-32","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-tempo-leva-32\/","title":{"rendered":"O que tempo leva&#8230; (32)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>DE ALMA TRINCADA, Felisberto se transforma num turismeiro e ruma para o para\u00edso da Serra da Bocaina. Algu\u00e9m a\u00ed precisa de carreto?<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Alguma coisa trincou trincado n&#8217;alma de Felisberto.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se entender.<\/p>\n<p>Nem tudo nesta vida a gente pode e deve explicar.<\/p>\n<p>N\u00e3o deu tempo de o dia terminar, Felisberto \u00e9 senhor de uma certeza absoluta: n\u00e3o cabe mais ali naquele n\u00facleo familiar. Bastou rever o irm\u00e3o Marivaldo, conhecer a cunhada (que apesar do nome Doralinda, n\u00e3o se iguala \u00e0 belezura da ex-amada) e as crian\u00e7as para reconhecer que todos ali lhes s\u00e3o seres absolutamente estranhos.<\/p>\n<p>Sentiu-se inoportuno.<\/p>\n<p>Pensa nos filhos que imaginou ter com &#8216;aquela l\u00e1&#8217; e se convence que a conviv\u00eancia por ali vai mexer, remexer e tresmexer em \u00e1reas malcicratizadas, sentimentos outros, dolorosos, que prefere abafar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Da mesma forma que chegou abruptamente, parte antes do anoitecer.<\/p>\n<p>Ouviu Bosco falar das belezuras da Serra da Bocaina e da estradinha de cascalho e barro que leva ao Parque Nacional, &#8220;preservado por lei federal&#8221;. Bosco o entusiasmou: &#8220;vem gente do mundo inteiro conhecer os encantos do lugar&#8221;. A Cachoeira de Santo Isidro tem mais de 80 metros de altura, a mata-virgem, as pousadinhas, a plataforma para o salto de asas deltas, riachos sinuosos de \u00e1guas cristalinas&#8230; A famosa Trilha do Ouro, uma rota de pedras tiradas do fundo dos rios que, nos tempos da Coroa, era usada pelos tropeiros para trazer o valioso metal das Minas Gerais at\u00e9 os portos de Paraty e Angra dos Reis.<\/p>\n<p>Dizem que h\u00e1 at\u00e9 uma rota alternativa, feita pelos contrabandistas de ent\u00e3o, que n\u00e3o queriam pagar os altos impostos portugueses. Vendiam o ouro diretamente para os navios ingleses.<\/p>\n<p>&#8211; Aquilo deve ser mesmo um para\u00edso.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Guia-se outra vez pela intui\u00e7\u00e3o, rumo a S\u00e3o Jos\u00e9 do Barreiro.<\/p>\n<p>Deixa uns trocados para a m\u00e3e, d\u00e1-lhe um beijo na testa e<em> bora<\/em> procurar o amigo Bosco. Ele vai lhe acolher por alguns dias &#8211; e Felisberto j\u00e1 sabe como tocar a vida a partir de agora.<\/p>\n<p>Vai ser um <em>turismeiro<\/em>. Ou seja, trabalhar com turismo no seu linguajar.<\/p>\n<p>E n\u00e3o?<\/p>\n<p>Para isso morou tanto tempo em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Recorda ter visto\u00a0no notici\u00e1rio da TV, e n\u00e3o faz muito n\u00e3o, a reportagem sobre um congresso internacional de agentes de viagem. Um <em>bacanudo<\/em>\u00a0definiu &#8220;o turismo como grande propulsor dos investimentos no pa\u00eds, no futuro que agora come\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 s\u00f3 dar um trato no Fusc\u00e3o, acertar o motor, levantar o <em>fac\u00e3o,\u00a0<\/em>colocar correntes nas rodas para os dias mais chuvosos&#8230;<\/p>\n<p>O resto fica por conta da habilidade do manobrista e piloto. Chegar\u00e1 em locais inalcan\u00e7\u00e1veis at\u00e9 para os jipeiros.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m duvida?<\/p>\n<p>Sem saber, cita Riobaldo, o jagun\u00e7o-fil\u00f3sofo de Guimar\u00e3es Rosa:<\/p>\n<p>&#8220;Passarinho quando debru\u00e7a, j\u00e1 est\u00e1 com o voo pronto.&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Felisberto, o Fil\u00f3sofo, logo fez o nome na pequena cidade. Sempre que algu\u00e9m precisa de um carreto &#8220;de pequeno porte&#8221;, ele \u00e9 lembrado e chamado. Quem tem encomendas para cidades vizinhas (Cruzeiro, Lavrinhas, Lorena, Pinda etc) contrata o prestativo Felisberto que, ali\u00e1s, sempre faz um precinho camarada e \u00e9 certeza de pronta entrega.<\/p>\n<p>&#8220;Servimos bem para servir sempre.&#8221;<\/p>\n<p>Ele por ele mesmo gosta mesmo de subir a Serra da Bocaina. Dois (at\u00e9 tr\u00eas) turistas por vez. Ali\u00e1s, esses ficam encantados com a educa\u00e7\u00e3o e os malabarismos do motorista e, de quebra, se divertem com as hist\u00f3rias que conta. Hist\u00f3rias de um amor imposs\u00edvel. Um plebeu e a linda princesa que se conheceram num reino distante, com v\u00e1rios castelos de altas torres. Ambos se apaixonaram perdidamente. Mas, havia um compromisso anterior e, como sempre acontece nas grandes hist\u00f3rias de amor, n\u00e3o h\u00e1 verdadeiramente um final feliz.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Nesse momento, ao final da hist\u00f3ria, saca do porta-luvas uma gaita de boca e se p\u00f5e a inventar can\u00e7\u00f5es tristes que s\u00f3 ele pr\u00f3prio sabe existir em seu maltratado cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Somos todas as can\u00e7\u00f5es&#8221;, diz (sem citar o nome) intimamente \u00e0 inesquec\u00edvel mulher da sua vida.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iw9sRninXwc\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>DE ALMA TRINCADA, Felisberto se transforma num turismeiro e ruma para o para\u00edso da Serra da Bocaina.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1207,1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-folhetim","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22634"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22634\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22793,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22634\/revisions\/22793"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21329"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}