{"id":22678,"date":"2020-05-13T07:00:03","date_gmt":"2020-05-13T07:00:03","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22678"},"modified":"2020-05-13T12:38:21","modified_gmt":"2020-05-13T12:38:21","slug":"o-que-o-tempo-leva-36","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-36\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (36)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;\u00a0 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Atelier VianaCabral)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>ESTILHA\u00c7OS\u00a0de lembran\u00e7as e um naco de saudade. Rostos e formas de amar, as Dulcineias que povoam os sonhos e os pesadelos&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As minhas Dulcineias foram muitas, meu caro Felisberto.<\/p>\n<p>Tiveram diferentes rostos, nomes e formas de amar.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, serei franco, n\u00e3o sei se amar \u00e9 a palavra mais adequada, precisa.<\/p>\n<p>Todas ainda povoam meus sonhos e pesadelos.<\/p>\n<p>Habitam, cada qual \u00e0 pr\u00f3pria maneira, o s\u00f3t\u00e3o da mem\u00f3ria de um tempo vivido, ardentemente vivido mais do que planejado, racionalizado. Tempo, de inconsequ\u00eancias prazerosas, que me escapou entre os v\u00e3os dos dedos assim como todas elas, de um jeito ou de outro, tamb\u00e9m me escaparam.<\/p>\n<p>Num dia encantado, chegaram.<\/p>\n<p>Em outro, inexoravelmente turvo, se foram.<\/p>\n<p>Deixaram estilha\u00e7os de lembran\u00e7as e um naco de saudade.<\/p>\n<p>Algumas, confesso, tamb\u00e9m deixaram uma grande sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio (barulhentas que s\u00f3!).<\/p>\n<p>Muitas, reconhe\u00e7o, fazem um bem danado recordar.<\/p>\n<p>Por onde andam?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ensaiava uma montagem do cl\u00e1ssico Ricardo III para encenar no Teatro Municipal de S\u00e3o Paulo. Achei que a barba ainda que rala, de alguns dias, daria mais veracidade ao personagem. Numa pregui\u00e7osa manh\u00e3, flagrei Dulcineia, a Graciosa, com jeito de quem queria me provocar. Ria um riso que, ainda hoje, s\u00f3 de lembrar me enternece. No rosto, a provoca\u00e7\u00e3o e o dengo:<\/p>\n<p>&#8211; Que cavaleiro do Rei que nada! T\u00e1 com cara de cachorro vadio.<\/p>\n<p>E completou toda amorosa:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe esses vira-latas que, em dia de chuva, arranham a porta, latem e uivam, querendo abrigo e companhia?<\/p>\n<p>\u00c0 noite voltou para ver o espet\u00e1culo, estava lind\u00edssima. Depois veio me ver no camarim. Deixei a porta aberta. N\u00e3o sei se era a deixa, mas durou anos, intensos anos, at\u00e9 que a porta do Destino trancasse de vez &#8211; e ela se foi.<\/p>\n<p>Continuava linda.<\/p>\n<p>Estonteantemente linda.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Quando interpretei Te\u00f3filo Ramos, um coronel decadente numa novela de boa audi\u00eancia na TV, conheci uma jovem e talentosa atriz, a Dulcineia de Cabelos Crespos.<\/p>\n<p>Sem explica\u00e7\u00f5es, logo depois de gravarmos as primeiras cenas, apareceu no meu apartamento no Bixiga sem ser convidada. Fic\u00e1vamos at\u00e9 as tantas &#8211; e ela pedia um t\u00e1xi pra ir embora, sem cerim\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8211; Eu sou assim. Independente. Tudo e nada.<\/p>\n<p>Uma noite, perdemos o controle.<\/p>\n<p>Foi m\u00e1gico, intenso. O dia clareou, ela disse qualquer coisa &#8211; e nunca mais a vi.<\/p>\n<p>Havia gravado a \u00faltima cena no dia anterior.<\/p>\n<p>Deixou um gosto de quero mais e dois ou tr\u00eas fios de cabelos encaracolados que recolhi do len\u00e7ol e n\u00e3o guardei.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Com Dulcineia, a Paix\u00e3o, foi memor\u00e1vel. Dez dias trepidantes que incluiu <em>r\u00e9veillon<\/em> em alto mar.<\/p>\n<p>Em meio a fogos de artif\u00edcio, ta\u00e7as de champanhe, meu cart\u00e3o de cr\u00e9dito a derreter, certo del\u00edrio provocado pela bebida e o jogar do navio, tudo se prometeu e nada se cumpriu.<\/p>\n<p>Vai saber?<\/p>\n<p>Na volta, precisei viajar para participar de alguns festivais de teatro na Europa. Coisa de grupos experimentais, puro desbunde. No regresso, dois, tr\u00eas meses depois, soube que ela iria casar com um granfo.<\/p>\n<p>Fingi que entendi como sempre fa\u00e7o quando nada entendo.<\/p>\n<p>Meses e meses depois, eu a encontro por acaso numa pr\u00e9-estreia. Me apresenta formalmente ao marido &#8211; e, depois longe dele, me chama de &#8220;Marcolino, o vacil\u00e3o&#8221; e questiona:<\/p>\n<p>Por que n\u00e3o apostei todas as fichas naquela desenfreada paix\u00e3o?<\/p>\n<p>Disse-me que perdemos, ambos.<\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p>Ela me pareceu bem feliz.<\/p>\n<p>E eu n\u00e3o dou sorte em jogos de azar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A Dulcineia Corista, lasciva e incontrol\u00e1vel, queria um filho. Que fosse pedir ao marido! Cada uma?<\/p>\n<p>A Dulcineia F\u00e3 dizia gostar de me ver no palco. Que conversa! Fora dele: sexo, sexo, sexo!<\/p>\n<p>A Dulcineia Poeta me escrevia todos os dias. Poemas, declara\u00e7\u00f5es, recados de quem n\u00e3o quer se sentir s\u00f3. N\u00e3o segurei a onda. Nunca fui de guardar bilhetes.<\/p>\n<p>Houve tamb\u00e9m aquela estudante do EAD. Mas, eu andava empolgado com a possibilidade de trabalhar com o Gerald Thomas, nem me dei conta das suas quer\u00eancias. Era atrevida, mas morava longe demais para ser di\u00e1ria. O desencontro foi inevit\u00e1vel. Um dia nos perdemos de vez &#8211; e nem sentimos a aus\u00eancia um do outro.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Houve outras e mais outras, mas j\u00e1 falei demais, n\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Gosto de ouvir hist\u00f3rias, doutor. Mas, se me permite uma pergunta, o senhor \u00e9 ator \u00e9? E nunca se casou?<\/p>\n<p>&#8211; Casar, casar, de papel passado, n\u00e3o. Perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que quebrou esses tabus todos, essa conven\u00e7\u00f5es sociais. Meio hippie, outro tanto rebelde sem causa. Vanguarda das vanguardas, sabe como \u00e9? Casar para muitos de n\u00f3s significava estar juntos, conviver, compartilhar e amar-se loucamente.<\/p>\n<p>&#8211; Olhe que pensei que fosse s\u00f3 eu o complicado nesse enrosco de homem e mulher, viu? S\u00f3 mais uma perguntinha, doutor-ator: por que todas elas tinham sempre o mesmo nome? \u00c9 tara \u00e9? Dulce o qu\u00ea mesmo?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/WCnArLi3uCk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211;\u00a0 (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o\/Atelier VianaCabral)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>ESTILHA\u00c7OS\u00a0de lembran\u00e7as e um naco de saudade. 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