{"id":22684,"date":"2020-05-14T07:01:27","date_gmt":"2020-05-14T07:01:27","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22684"},"modified":"2020-05-16T13:16:35","modified_gmt":"2020-05-16T13:16:35","slug":"o-que-o-vento-leva-37","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-vento-leva-37\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (37)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>NASCE a amizade. O sens\u00edvel Sancho Pan\u00e7a e o Casanova alquebrado conversam sobre o amar, sumo da vida. Citam Drummond, o poeta: N\u00e3o h\u00e1 nada al\u00e9m&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Felisberto at\u00e9 que \u00e9 divertido.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se o convenceram as explica\u00e7\u00f5es que lhe dei sobre o fato de chamar de Dulcineia as mulheres que desfilaram pela minha vida.<\/p>\n<p>&#8211; Quero preservar alguns nomes de uma poss\u00edvel indiscri\u00e7\u00e3o. Outros, vou ser sincero, ainda tenho dificuldade em diz\u00ea-los. Este ou aquele, em especial&#8230; Mas deixamos assim&#8230; Faz diferen\u00e7a?<\/p>\n<p>N\u00e3o deixo que responda. Pergunto logo:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea conhece o romance de Dom Quixote e o amor exacerbado por uma dama da corte, de nome Dulcineia Del Taboso que, a bem da verdade, era unicamente fruto da imagina\u00e7\u00e3o do gajo?<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o, sim. De ouvir falar. Ler, n\u00e3o li n\u00e3o. Mas, de tristezas e abandonos, doutor, bastam os meus. Prefiro que me conte as suas aventuras. Parece que o doutor soube aproveitar os ventos que lhe sopraram no amor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sou doutor. Me chamo Carlos Art\u00falio.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ser\u00e1 mesmo que me dei mesmo ao desfrute?<\/p>\n<p>Tenho l\u00e1 minhas d\u00favidas.<\/p>\n<p>Arrependimento, nenhum.<\/p>\n<p>Apenas vivi o que me coube viver.<\/p>\n<p>Inclusive com a mo\u00e7a que queria morar num apartamento sem paredes, eu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Guarde essa aqui, Felisberto, para o seu caderninho:<\/p>\n<p>&#8220;Al\u00e9m do amor, n\u00e3o h\u00e1 nada,<br \/>\namar \u00e9 o sumo da vida.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; O autor \u00e9 o poeta Carlos Drummond de Andrade.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Bom, muito bom tamb\u00e9m, gostei. Desculpe se pare\u00e7o abusado, doutor, mas j\u00e1 que tocou no assunto. O senhor n\u00e3o casou n\u00e3o, mas morar junto morou?<\/p>\n<p>Providencial a indaga\u00e7\u00e3o do meu novo amigo.<\/p>\n<p>(Desconfio que seremos bons amigos.)<\/p>\n<p>&#8211; Algumas vezes. O dif\u00edcil n\u00e3o era o chegar e, sim, o momento de partir. A divis\u00e3o das coisas, o luscofusco que permeia o futuro, a sensa\u00e7\u00e3o de perda que \u00e9 inexor\u00e1vel, de que somos ef\u00eameros&#8230; Mesmo que se saia s\u00f3 com a roupa do corpo, \u00e9 sempre traumatizante.<\/p>\n<p>&#8211;\u00a0 N\u00e3o sei o que \u00e9 inexor\u00e1vel. Mas, sei como \u00e9. D\u00f3i demais.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea j\u00e1 foi casado?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Mas foi por um quase, doutor. Um quase.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Felisberto recorre outra vez \u00e0 gaita para exorcizar seus fantasmas,<\/p>\n<p>Sem se dar conta que, aos meus olhos, traveste-se em um destrambelhado e sens\u00edvel Sancho Pan\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu me vejo n\u00e3o como o Cavaleiro Andante e, sim, como um Casanova alquebrado com as linhas do rosto e o cora\u00e7\u00e3o marcados por destemperos e ingl\u00f3rias jornadas.<\/p>\n<p>Na verdade, um homem comum.<\/p>\n<p>Apenas um homem s\u00f3.<\/p>\n<p>Mas que se permite sonhar e querer mais.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Lembro mais dois ou tr\u00eas breves envolvimentos para que, por favor, ele pare com o que chama de m\u00fasica d&#8217;alma.<\/p>\n<p>Sei que este \u00e9 um recurso um tanto desleal, de gosto duvidoso.<\/p>\n<p>Mas ele parece gostar.<\/p>\n<p>Especialmente da hist\u00f3ria da Cigana, de pele cor de jambo e curvas insinuantes. Ela me parou \u00e0 porta do restaurante Piolin. Pediu para ler a minha m\u00e3o. Disse que eu estava prestes a sofrer uma grande perda. Deveria ficar esperto. N\u00e3o podia vacilar. Senti suas m\u00e3os quentes envolverem a minha. Entendi que, babau consulta, era o sinal.<\/p>\n<p>E era, e foi.<\/p>\n<p>Fomos pra casa.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, desapareceu.<\/p>\n<p>Levou meu rel\u00f3gio, minha carteira e o pr\u00eamio que ganhei da Associa\u00e7\u00e3o Paulista dos Cr\u00edticos de Artes como <em>Ator Revela\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Ela imaginou que a estatueta fosse de ouro maci\u00e7o.<\/p>\n<p>E eu j\u00e1 tinha quase 40 anos e uma s\u00f3lida carreira quando a APCA descobriu que eu existia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Felisberto riu a valer da minha tonguice.<\/p>\n<p>Fez um coment\u00e1rio bem pertinente:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, doutor. Pelo visto, nesse dia, a banana engoliu o macaco.<\/p>\n<p>Voltou para a sua &#8216;m\u00fasica d&#8217;alma&#8217;; e eu, em pensamento, para o meu invent\u00e1rio amoroso.<\/p>\n<p>Temos ainda algum tempo de viagem.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma, muito especial, talvez. Aquela Dulcineia que me pediu a certeza do futuro. S\u00f3 pude lhe dar o presente quebradi\u00e7o, de afei\u00e7\u00e3o, desejos e incertezas.<\/p>\n<p>Viajou. Sempre disse que assim faria caso eu n\u00e3o me decidisse.<\/p>\n<p>Um dia, triste dia, eu a esperava no lugar de sempre.<\/p>\n<p>Olhei para o c\u00e9u e vi o avi\u00e3o&#8230; E disse pra mim mesmo:<\/p>\n<p>&#8220;Ela n\u00e3o veio e n\u00e3o vir\u00e1.&#8221;<\/p>\n<p>(Acho que j\u00e1 contei essa hist\u00f3ria?)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9JL2UsMMT7c\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe>&#8221;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>NASCE a amizade. 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