{"id":22692,"date":"2020-05-16T07:15:02","date_gmt":"2020-05-16T07:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22692"},"modified":"2020-05-17T14:44:34","modified_gmt":"2020-05-17T14:44:34","slug":"o-que-o-vento-leva-39","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-vento-leva-39\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (39)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O teatro perdeu o passo? Houve um tempo de luta\u00a0e compromisso. Parceria: o palco e a vida. E agora? A esparrela de olhar para o pr\u00f3prio umbigo&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8211; A arte existe porque a vida s\u00f3 n\u00e3o basta, doutor.<\/p>\n<p>Eu e minha mania de pensar em voz alta.<\/p>\n<p>Acabei por perturbar o Felisberto.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que o chamam de Fil\u00f3sofo. Melhor do que eu soube responder \u00e0 pergunta que me fiz. N\u00e3o sei se sem querer ou de prop\u00f3sito acaba de citar o grande Ferreira Goulart que conheci h\u00e1 muitos e muitos anos, mas n\u00e3o chegamos a ficar amigos.<\/p>\n<p>\u00c9 bem por a\u00ed.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Houve uma \u00e9poca em que o teatro chutou para o alto o conservadorismo.<\/p>\n<p>Tempo do Teatro de Arena, de Boal.<\/p>\n<p>Tempo de <em>Roda Viva<\/em>, do Chico Buarque.<\/p>\n<p>De<em> O Rei da Vela<\/em>, de Oswald de Andrade no Oficina e outras tantas aventuras renovadoras.<\/p>\n<p>Combateu-se a ditadura de forma corajosa, contundente. Enfrentou-se a censura e o arb\u00edtrio. Fomos vitais para o \u00eaxito das manifesta\u00e7\u00f5es pelas Diretas-J\u00e1 que, de uma forma ou de outra, consolidaram como plena realidade o processo de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas, a partir da\u00ed, uma ou outra montagem se prop\u00f4s a fugir ao lugar comum.<\/p>\n<p>Antunes Filho, certamente. Quem mais?<\/p>\n<p>Estou sendo radical?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9ramos os antenados, os precursores do novo, arautos de uma sociedade mais justa, mais contempor\u00e2nea. De um ser humano mais solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>Onde perdemos o passo?<\/p>\n<p>Fa\u00e7o o me\u00e1-culpa, pois tamb\u00e9m ca\u00ed em tenta\u00e7\u00e3o, na esparrela de s\u00f3 olhar para o pr\u00f3prio umbigo.<\/p>\n<p>Passamos a ser conivente com o sistema, os que est\u00e3o no poder.<\/p>\n<p>Que poder? Qualquer poder.<\/p>\n<p>Foi bem mais c\u00f4modo servir a um s\u00f3 patr\u00e3o, tanto no palco como nos est\u00fadios de TV.<\/p>\n<p>Em troca, viramos pessoas ilustres, importantes. Somos convidados &#8211; e alguns regiamente pagos &#8211; para frequentar festas e recep\u00e7\u00f5es dos novos ricos, os emergentes insossos. Se preservarmos a imagem pura e bela, seremos chamados pelas as ag\u00eancias de publicidade para campanhas milion\u00e1rias, com alt\u00edssimo cach\u00ea. E todos passam a nos invejar por isso.<\/p>\n<p>Quando a Poderosa nos contrata, ent\u00e3o, diz a\u00ed!<\/p>\n<p>\u00c9 o auge.<\/p>\n<p>Passamos a usar o crach\u00e1 globalizante na alma.<\/p>\n<p>\u00c0s favas, o amer\u00edndio em cena.<\/p>\n<p>\u00c0s favas, os sonhos, o compromisso, a utopia.<\/p>\n<p>\u00c0s favas, eu mesmo!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Pronto.<\/p>\n<p>Exatamente esse rancor que quero deixar para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Nada adianta ficar remoendo m\u00e1goas, remorsos.<\/p>\n<p>Fiz o caminho \u00e0 minha maneira. My way.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, tive a sincera impress\u00e3o de que o s\u00e9culo 20 havia acabado quando soube da morte de Frank Sinatra.<\/p>\n<p>Eu e muitos como eu tamb\u00e9m morremos um pouco naquele momento.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Exagero?<\/p>\n<p>Ok. H\u00e1 um paradoxo a\u00ed.<\/p>\n<p>Sinatra n\u00e3o tinha nada de contestador, revolucion\u00e1rio. Mas, sempre foi a refer\u00eancia de uma gera\u00e7\u00e3o que amava e amava e amava at\u00e9 as \u00faltimas e avassaladoras consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>O que Sinatra sofreu por amor quando Ava Gardner o deixou foi qualquer coisa!<\/p>\n<p>O \u00eddolo mundial, devastado. Apesar de toda a fama, todo o dinheiro e as mais belas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Disse isso \u00e0 mo\u00e7a, certa vez.<\/p>\n<p>Sabe o que me respondeu?<\/p>\n<p>&#8211; Alguma ele aprontou.<\/p>\n<p>Rebati:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fale assim.<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que os homens s\u00e3o solid\u00e1rios. N\u00f3s, mulheres tamb\u00e9m, <em>m\u00f4<\/em>.<\/p>\n<p>Fiquei em sil\u00eancio. Talvez houvesse ali um desencontro geracional.<\/p>\n<p>Na verdade, sou um cara \u00e0 moda antiga.<\/p>\n<p>&#8211; Vem, vamos andar na praia, vai ser bom.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, lembro que li a biografia do ator italiano Marcello Mastroianni, aquele que viveu um (quase) secreto romance com a deslumbrante Catherine Deneuve. H\u00e1, em um dos trechos, um tocante depoimento ao escritor Enzo Biagi.<\/p>\n<p>O ator compara nossa exist\u00eancia \u00e0s f\u00e9rias de ver\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;No primeiros dias, pensamos que nunca ter\u00e3o fim. Mas, rapidamente, quando nos damos conta, j\u00e1 se acabaram, e deixamos tantas coisas por fazer. Quando era jovem, pensava que era eterno, e creio que todo o jovem pensa assim. Agora sei que, da vida, j\u00e1 vivi o meu melhor &#8211; e s\u00f3 posso agradecer o fato de continuar vivo e trabalhando, com tantos amigos por perto.&#8221;<\/p>\n<p>Mastroianni deveria ter, \u00e0 \u00e9poca, a idade que hoje tenho.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o, por\u00e9m, estou longe de ter a magnific\u00eancia do grande ator italiano.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Eu acabara de visitar o apartamento sem paredes, aquele que n\u00e3o comprei. Era um dia tipicamente paulistano. Borralhento e desalentado. Olhei pela janela. Estava s\u00f3. Longe da praia, longe dela e n\u00e3o havia sequer a linha do horizonte para me amparar.<\/p>\n<p>Entendi que era a hora de partir&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w019MzRosmk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O teatro perdeu o passo? Houve um tempo de luta\u00a0e compromisso. Parceria: o palco e a vida.<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":22795,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1210,1211,1209,596,1208],"class_list":["post-22692","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-o-ator","tag-o-filosofo","tag-o-que-o-tempo-leva","tag-romance","tag-uma-novela-blogueira"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22692"}],"version-history":[{"count":19,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22692\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22876,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22692\/revisions\/22876"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/22795"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}