{"id":22749,"date":"2020-05-20T07:00:47","date_gmt":"2020-05-20T07:00:47","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22749"},"modified":"2020-05-20T13:21:04","modified_gmt":"2020-05-20T13:21:04","slug":"o-que-o-tempo-leva-43","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-43\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (43)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O ATOR reflete sobre os des\u00edgnios de um (in)certo senhor chamado Destino. E se pergunta: para onde foi a leveza de outros tempos? Sem resposta&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Um amigo querido, homem de teatro como eu, namorador como eu, brincalh\u00e3o como eu nunca consegui ser, tinha um dito bem divertido sobre o fim dos relacionamentos amorosos:<\/p>\n<p>&#8220;O que acaba com tudo n\u00e3o \u00e9 necessariamente a falta de amor. S\u00e3o as mulheres que mudam e esquecem de nos avisar. Acordam, olham-se no espelho e dizem: sou uma nova mulher. Tascam um &#8216;voc\u00ea me sufoca&#8217; e n\u00f3s, at\u00f4nitos: O qu\u00ea? Como assim? H\u00e3? Perdeu, camarada, perdeu.&#8221;<\/p>\n<p>Ele ainda nos divertia ao acrescentar o bord\u00e3o de um personagem de sucesso que o consagrou na TV:<\/p>\n<p>&#8211; T\u00f4 certo ou t\u00f4 errado?<\/p>\n<p>Queria ter a leveza e o jeito bom de tocar a vida que o amigo tem.<\/p>\n<p>Talvez n\u00e3o estivesse agora aqui. Me entendendo livre para chutar tudo para o alto &#8211; e fugir dos meus assombros. Uma jornada em busca do autoconhecimento ou apenas uma fuga estrat\u00e9gica como fez o novo amigo Felisberto?<\/p>\n<p>Sei, n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Chegamos! Quer dizer, quase quase. Falta o ritual das porteiras. Logo mais o doutor-ator vai conhecer o novo lar. Tem certeza que \u00e9 isso mesmo o que o senhor quer?<\/p>\n<p>Felisberto, o Fil\u00f3sofo, na sua simplicidade, parece mesmo adivinhar as d\u00favidas que batucam no meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sejamos firmes na resposta:<\/p>\n<p>&#8211; Quantas porteiras s\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Tr\u00eas.<\/p>\n<p>&#8211; Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de ritual?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei tamb\u00e9m. Inventei agora.<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? Est\u00e1 me testando, \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; Brincadeira. \u00c9 um cerimonial meu. Paro o carro, abro a porteira. Fa\u00e7o minhas ora\u00e7\u00f5es de agradecimento por mais esse dia, mais essa jornada, mais esse peda\u00e7o de p\u00e3o ganho com o meu santo of\u00edcio, pois o Senhor nos guardou no caminho. Assim vou e volto. Deus caminha comigo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Tem certeza que assim chegaremos l\u00e1 antes de anoitecer?<\/p>\n<p>&#8211; Esquece a pressa, doutor. \u00c9 tudo muito r\u00e1pido. Se eu n\u00e3o contasse, o amigo nunca iria descobrir. V\u00e1 se acostumando, doutor. Por aqui, tamanha a solid\u00e3o, cada um inventa um jeit\u00e3o de falar consigo mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 dramaturgia, Felisberto. Cada qual a representar o pr\u00f3prio personagem a lhe enriquecer com cacos e delicadezas. Ali\u00e1s, a vida e a arte se equivalem.<\/p>\n<p>&#8211; Uma imita a outra, n\u00e3o \u00e9 assim que dizem? E eu digo que a outra \u00e9 que imita a uma.<\/p>\n<p>&#8211; Tem a ver.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, doutor, \u00e0s vezes, penso que n\u00e3o era propriamente eu o pacato cidad\u00e3o que morou em S\u00e3o Paulo e viveu tudo o que viveu. Era algu\u00e9m bem parecido comigo. Hoje a hist\u00f3ria toda se desenrola como fita de cinema, dessas que grudam na mem\u00f3ria da gente.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Espero que Felisberto retorne \u00e0 cabine para lhe responder algo sem grande convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O que posso lhe dizer? N\u00e3o temos um padr\u00e3o \u00fanico ao longo da vida. Somos assim &#8211; e pronto. Cada qual carrega dentro de si nuances que se transformam a cada viv\u00eancia. Seria at\u00e9 muito chato se todos nossos ciclos fossem previs\u00edveis e rigorosamente iguais. O que somos hoje, certamente, n\u00e3o seremos amanh\u00e3. Voc\u00ea que gosta de recolher frases e pensamentos, anote mais essa: &#8220;O mesmo homem n\u00e3o atravessa duas vezes o mesmo rio&#8221;. D\u00e1 para entender?<\/p>\n<p>&#8211; Sim, sim. Homem e rio mudam a cada momento, a cada rolar das \u00e1guas. Sou do mato, doutor. Desse trem, eu entendo.<\/p>\n<p>&#8211; Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>E logo surge a segunda porteira.<\/p>\n<p>Felisberto para o Fusc\u00e3o, salta e caminha rapidamente de cabe\u00e7a baixa.<\/p>\n<p>Volta para o carro ainda de cabe\u00e7a baixa a movimentar levemente os l\u00e1bios.<\/p>\n<p>Passamos, ele breca, desce, fecha a porteira, volta para o volante e l\u00e1 vamos n\u00f3s.<\/p>\n<p>&#8211; Que o Senhor nos aben\u00e7oe!, fa\u00e7o a sauda\u00e7\u00e3o impulsivamente quando retomamos a estreita e irregular estrada.<\/p>\n<p>Faz-se um sil\u00eancio natural.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tenho quase certeza que Felisberto reflete sobre nossa conversa ao longo do caminho.<\/p>\n<p>Se a tal Lucilinda n\u00e3o tivesse existido do jeito que existiu em sua vida, \u00e9 muito prov\u00e1vel que ele n\u00e3o estivesse aqui agora.<\/p>\n<p>Eu o vejo feliz na medida do que \u00e9 poss\u00edvel ser feliz longe de quem se ama.<\/p>\n<p>Um tanto assustador, pois penso que entendo a cada minuto um pouco melhor do assunto &#8211; e me espanto.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m estou a esgrimir meus fantasmas.<\/p>\n<p>Penso tamb\u00e9m nos tais des\u00edgnios de um (in)certo senhor chamado Destino.<\/p>\n<p>Para onde foi a leveza de outros tempos?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hWjiyhTyUT0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>O ATOR reflete sobre os des\u00edgnios de um (in)certo senhor chamado Destino. 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