{"id":22784,"date":"2020-05-22T06:58:03","date_gmt":"2020-05-22T06:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=22784"},"modified":"2020-05-22T18:52:12","modified_gmt":"2020-05-22T18:52:12","slug":"o-que-o-tempo-leva-45","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-que-o-tempo-leva-45\/","title":{"rendered":"O que o tempo leva&#8230; (45)"},"content":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>&#8220;Claro que existe o amor. Mas existe a vida para torn\u00e1-lo imposs\u00edvel&#8221; &#8211; Rubem Fonseca. &#8220;Amor \u00e9 caminho sem volta, doutor &#8221; &#8211; Felisberto, o Fil\u00f3sofo&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Felisberto e o incr\u00edvel Fusca Bala retomam o caminho.<\/p>\n<p>Trepidantes. Ele, o carro e eu, no embalo.<\/p>\n<p>Sigo para o meu enigm\u00e1tico destino.<\/p>\n<p>Nem o Z\u00e9 Augusto, menos ainda o Carlos Art\u00falio, nenhum dos dois (que s\u00e3o um) se imaginaria num fusquinha mequetrefe (valente, mas sempre um fusquinha) a caminho das barrancas e das nascentes do riacho das Garrafas, um denodado afluente do famoso (ao menos, por aqui) rio Mambucaba, este sim com o glorioso des\u00edgnio de correr para o mar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Meu amigo motorista n\u00e3o se cont\u00e9m:<\/p>\n<p>&#8211; Sempre que passo por aqui me corr\u00f3i uma saudade daquelas. S\u00f3 garrando na melodia para afugentar as m\u00e1goas do cora\u00e7\u00e3o de quem ama e n\u00e3o \u00e9 amado.<\/p>\n<p>E d\u00e1-lhe gaita!<\/p>\n<p>Olho e desconfio.<\/p>\n<p>Esse sujeito \u00e9, no fundo, um brincalh\u00e3o. Est\u00e1 de zueira comigo.<\/p>\n<p>Uma frase pode me salvar:<\/p>\n<p>&#8211; Felisberto, amigo, ouve esta:<\/p>\n<p>&#8220;Claro que existe o amor.<\/p>\n<p>Mas existe a vida para torn\u00e1-lo imposs\u00edvel.&#8221;<\/p>\n<p>Continuo:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 de um grande escritor brasileiro. Chama-se Rubem Fonseca. Gostou?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 boa tamb\u00e9m. Depois me lembre para anotar, viu?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Amor \u00e9 caminho sem volta, doutor.<\/p>\n<p>Rapaz, bateu um remorso. O mo\u00e7oilo ficou triste que s\u00f3.<\/p>\n<p>Vou lhe contar uma passagem para distrair.<\/p>\n<p>Certa noite, o m\u00fasico Ca\u00e7ulinha apareceu para jantar no restaurante em que eu estava com um grupo de amigos e a mo\u00e7a. O Ca\u00e7ulinha, esse que toca no Doming\u00e3o do Faust\u00e3o. Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Eu o conhecia dos tempos da TV Record. Nos cumprimentamos com um aceno de m\u00e3o.<\/p>\n<p>Logo lhe trouxeram um acorde\u00e3o antes mesmo da comida e lhe pediram que tocasse algo.<\/p>\n<p>Ele tocou lindamente <em>La Vie en Rose.<\/em><\/p>\n<p>Os olhos da mo\u00e7a brilharam de encantamento.<\/p>\n<p>Eu e ela est\u00e1vamos assim no vai-n\u00e3o-vai, quase indo.<\/p>\n<p>Fomos.<\/p>\n<p>Um momento m\u00e1gico, pleno, inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Eu devia ter a idade que voc\u00ea hoje tem. Assim \u00e9 que \u00e9, camarada. Acredite. Quando menos se espera&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, doutor, gosto da vida que tenho hoje. Mas seria bem melhor se, quando voltasse pro meu ranchinho na subida da \u00c1gua Santa, eu tivesse algu\u00e9m a me esperar. Seria o marmanjo mais feliz do mundo.<\/p>\n<p>&#8220;Algu\u00e9m&#8221; que n\u00f3s dois sabemos bem que \u00e9.<\/p>\n<p>(Ficou pior a emenda que o soneto.)<\/p>\n<p>Tenho muito que aprender por aqui. Inclusive, a hora de falar e, principalmente, a de calar.<\/p>\n<p>&#8211; Tem gente que precisa de tanta coisa na vida, n\u00e3o \u00e9 doutor? S\u00f3 queria que ela me quisesse. Mas entendi que \u00e9 imposs\u00edvel. Nem lembra que eu existo. E, ademais, eu j\u00e1 me acostumei com a minha sina, \u00e0 minha solid\u00e3o. Tenho muitos amigos, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>&#8211; Felisberto, meu prezado, era exatamente isso que eu estava pensando enquanto voc\u00ea, ao contr\u00e1rio do Ca\u00e7ulinha, assassinava o repert\u00f3rio. A \u00fanica diferen\u00e7a entre n\u00f3s dois \u00e9 que eu vou precisar me acostumar com a ideia de ser s\u00f3. Como v\u00ea, apesar de diferentes, somos iguais. Na mesma canoa furada. Ou melhor, no mesmo e valente Fusc\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Porteiraaaa! Olhe l\u00e1, doutor, naquela eleva\u00e7\u00e3o acima do lago. \u00c9 a pousada. Logo atr\u00e1s ficam os chalezinhos. Um deles ser\u00e1 o do senhor, gostou?<\/p>\n<p>Felisberto n\u00e3o ficou para ouvir a resposta.<\/p>\n<p>Foi cumprir o tal ritual enquanto eu, o grande ator, embevecia-me com a exuber\u00e2ncia do cen\u00e1rio onde representarei o mais dif\u00edcil papel: ser apenas um homem s\u00f3. Sem planos, sem ilus\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi preciso descer do carro para o cora\u00e7\u00e3o transbordar, tal e qual os c\u00f3rregos em dias de chuva forte.<\/p>\n<p>Uma trava na garganta pontuou e antecipou o pensamento: seria maravilhoso t\u00ea-la aqui comigo. Ela quem? Quem seria a Dulcineia, a Derradeira?<\/p>\n<p>Eita que n\u00e3o me decido&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Doutor, doutor, eis a\u00ed. O novo lar. Uma florada vermelha o aguarda! Deixe que eu leve as malas e as caixas de livros.<\/p>\n<p>&#8211; Vamos fazer isso juntos, ok?<\/p>\n<p>&#8211; Antes, por\u00e9m, eu gostaria de lhe presentear: fique com a minha gaita. Perdoe a fala\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se \u00e9 apropriada, mas acho que o amigo vai precisar. N\u00e3o precisa saber tocar, n\u00e3o. Ser assim um Ca\u00e7ulinha. Quando a saudade bater, o senhor sopra forte que o som pode n\u00e3o sair l\u00e1 grande coisa. Mas, lhe garanto, os olhos n\u00e3o ardem tanto e a gente escapa daquela apertura no peito que d\u00f3i no corpo e esmerilha a alma.<\/p>\n<p>&#8211; Felisberto, amigo, n\u00e3o precisa se&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olhe, n\u00e3o se preocupe comigo. Que estou mais calejado e, na boa, me desafogo melhor no assovio.<\/p>\n<p>&#8211; D\u00ea c\u00e1 um abra\u00e7o, homem.<\/p>\n<p>&#8211; Fique com Deus, doutor. At\u00e9 mais ver&#8230;<\/p>\n<p>(FIM)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4REbp0s_G9w\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UMA NOVELA BLOGUEIRA &#8211; (Foto: Arquivo Pessoal)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>&#8220;Claro que existe o amor. 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