{"id":24408,"date":"2020-10-16T06:15:11","date_gmt":"2020-10-16T06:15:11","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24408"},"modified":"2020-10-16T18:31:12","modified_gmt":"2020-10-16T18:31:12","slug":"70-anos-da-tv-no-brasil-cronicas-e-memorias-ii","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/70-anos-da-tv-no-brasil-cronicas-e-memorias-ii\/","title":{"rendered":"70 anos da TV no Brasil (cr\u00f4nicas e mem\u00f3rias) &#8211; II"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto\/Reprodu\u00e7\u00e3o: TV Tupi (abertura da programa\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>(2) &#8211; Na ponta da faca<\/strong><\/p>\n<p>O pai era uma figura\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99, aos 82 anos \u2013 teve l\u00e1 suas manias; por vezes, indecifr\u00e1veis aos meus olhos de filho.<\/p>\n<p>Algumas, por\u00e9m, as cultivo como rel\u00edquias \u2013 uma v\u00e3 tentativa de prender o tempo no casulo da minha saudade.<\/p>\n<p>Copio descaradamente o pai no h\u00e1bito de aparar o bigode e deix\u00e1-lo mais fino, por exemplo.<\/p>\n<p>Nunca entendi, por\u00e9m, o \u2018m\u00e3o aberta\u2019 que o pai divertia-se em ser.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ficava n\u00edtido que o estavam passando para tr\u00e1s em alguma negocia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ele nem a\u00ed.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o vou ficar mais rico ou menos pobre por isso\u201d, comentava.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Talvez entre as mais antiga manias do Velho Aldo que me recordo estava a de terminar a noite assistindo a um telejornal, quase interagindo com os apresentadores.<\/p>\n<p>Mas isso l\u00e1 nos antigamente \u2013 d\u00e9cada de 50 \u2013\u00a0 quando a pioneira TV Tupi encerrava a programa\u00e7\u00e3o com uma edi\u00e7\u00e3o de o\u00a0<em>Di\u00e1rio de S. Paulo na TV<\/em>,\u00a0 por volta das 22 horas.<\/p>\n<p>Para o menino que fui, significava alta madrugada.<\/p>\n<p>Carlos Spera, Jos\u00e9 Carlos de Moraes (o rep\u00f3rter Tico-Tico) e Maur\u00edcio Loureiro Gama (que eu achava parecido com o pai) comandavam o jornal, bem diferente dos atuais. Poucas imagens externas, quase todas vindas de ag\u00eancias internacionais, e muita fala\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas precursores do jornalismo televisivo.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 essa \u00e9poca, para mim, televis\u00e3o era um bom lugar para se ver os seriados de mocinhos e bandidos. Os primeiros sempre venciam ap\u00f3s surrar magnificamente os oponentes.<\/p>\n<p>Lembro especialmente os brasileiros Falc\u00e3o Negro e Capit\u00e3o Sete e os importados Roy Roge, Rintintin e o elegante e conquistador Bat Masterson. Queria tanto conhec\u00ea-los em carne e osso. Mas eram seres que habitavam os confins de uma paleontol\u00f3gica TV Invictus, entre o tubo gigante e v\u00e1lvulas miraculosas.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo assim, gostava de acompanhar o Velho Aldo (ent\u00e3o ainda um quarent\u00e3o de estilo) na \u00e1rdua tarefa di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Era divertido \u2013 e intrigante.<\/p>\n<p>O pai discutia, em voz alta e firmemente, os assuntos da noite com os jornalistas e eu\u2026<\/p>\n<p>Bem, eu ficava \u00e0 espera dos meus nacos de queijo.<\/p>\n<p>(Preciso lhes informar sobre outro h\u00e1bito do pai. Sempre trazia um peda\u00e7o grande de queijo \u2018duro\u2019, parmes\u00e3o, que cortava em cubos e, em meios aos debates e not\u00edcias, os devorava na ponta de uma pequena faca.)<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Certa noite, l\u00e1 est\u00e1vamos a cumprir o sacrossanto ritual. Quando ouvimos um estrondo assustador como se arrombassem a porta da cozinha.<\/p>\n<p>A Branquinha, uma cadela que t\u00ednhamos, se p\u00f4s a latir no quintal.<\/p>\n<p>Intu\u00edmos a cena.<\/p>\n<p>Seriam desalmados ladr\u00f5es?<\/p>\n<p>Estariam invadindo nosso rec\u00f4ndito lar, tal e qual os fac\u00ednoras dos seriados da TV?<\/p>\n<p>Foram segundos de apreens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Logo a m\u00e3e e minhas irm\u00e3s apareceram na sala, com suas camisolas impec\u00e1veis. Todos com o cora\u00e7\u00e3o na m\u00e3o.<\/p>\n<p>O pai tamb\u00e9m aparentava um semblante aparvalhado.<\/p>\n<p>Mas, creio, n\u00e3o lhe restou outra alternativa.<\/p>\n<p>Cena de filme.<\/p>\n<p>Empunhou a faquinha \u2013 a tal do queijo, pouco maior que um canivete \u2013 e rumou para o imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p>Enfrentaria os meliantes\u2026<\/p>\n<p>\u2026 se meliantes houvesse.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>\u2014 Caspita!!! Caiu tudo aqui! \u2013 gritou desconsolado.<\/p>\n<p>Corremos para a cozinha.<\/p>\n<p>Vimos, ent\u00e3o, em cacos, uma leva de uns 20 azulejos que a umidade descolou da parede e, soltos, se projetaram ruidosamente ao ch\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p>O velho casario, onde mor\u00e1vamos na Muniz de Souza 420, j\u00e1 n\u00e3o era o mesmo.<\/p>\n<p>Pois \u00e9!<\/p>\n<p>Foi a primeira e \u00fanica vez que vi um super-her\u00f3i de perto.<\/p>\n<p><strong>\u2026<\/strong><\/p>\n<p><em>*Esta cr\u00f4nica foi\u00a0 publicada originalmente aqui, neste espa\u00e7o, em 7 de junho de 2008, com o t\u00edtulo de \u201cNa Ponta da faca\u201d. Tamb\u00e9m integrou a colet\u00e2nea \u201cO Natal, o Menino e o Sonho\u201d, publicado em 2017. J\u00e1 a transcrevi no Blog em outra ocasi\u00e3o. Em algum anivers\u00e1rio do saudoso Ald\u00e3o. Mas, n\u00e3o resisti inclu\u00ed-la hoje nessa antologia de mem\u00f3rias. Her\u00f3i por her\u00f3i, na TV ou fora dela, ele foi o primeiro e imbat\u00edvel.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZXpF2p3HjqA\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><em>Recomenda\u00e7\u00e3o do v\u00eddeo do amigo e sempre vereador Almir Guimar\u00e3es<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto\/Reprodu\u00e7\u00e3o: TV Tupi (abertura da programa\u00e7\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>(2) &#8211; Na ponta da faca<\/strong><\/p>\n<p>O pai era uma figura\u00e7a.<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim da vida \u2013 morreu em 99,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24409,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1186,1656,1660,1652,1659,283,1657,1658],"class_list":["post-24408","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-70-anos","tag-bat-masterson","tag-carlos-spera","tag-historia-da-tv-no-brasil","tag-mauricio-loureiro-gama","tag-memorias","tag-telenornal","tag-tico-tico"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24408"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24408\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24418,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24408\/revisions\/24418"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24409"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}