{"id":24622,"date":"2020-11-18T14:00:40","date_gmt":"2020-11-18T14:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24622"},"modified":"2020-11-19T18:42:45","modified_gmt":"2020-11-19T18:42:45","slug":"a-cor-da-vida-2-e-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-cor-da-vida-2-e-3\/","title":{"rendered":"A Cor da Vida (2 e 3)"},"content":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; O MUNDO DAS LETRAS<\/strong><\/p>\n<p>Acordei no dia seguinte com uma barulheira danada.<\/p>\n<p>A pousada sempre amanhecia silenciosa. O que seria aquela movimenta\u00e7\u00e3o toda? Estava bagun\u00e7ada mesmo. Uns funcion\u00e1rios espalhavam cavaletes na portaria principal, outros esticavam uma fita amarela em \u00e1reas de uso comum como as quadras de esportes, o playground, a piscina e o galp\u00e3o onde guardam o barco e as motos aqu\u00e1ticas, al\u00e9m dos apetrechos esportivos. Havia duas garotas espalhando cartazes para lavar as m\u00e3os sempre, para usar \u00e1lcool em gel e para evitar aglomera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dos cartazes anunciava uma reuni\u00e3o \u00e0s 15 horas. Para considera\u00e7\u00f5es finais.<\/p>\n<p>Ainda bem que o Enzo me avisou: Leia, garoto, leia. Leia tudo o que lhe cair nas m\u00e3os. De bula de rem\u00e9dio aos ensinamentos da B\u00edblia. Invada o mundo das letras, e voc\u00ea vai ver que sempre haver\u00e1 proveito na leitura.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que \u00e9 proveito. Mas imagino que seja uma coisa boa porque o Enzo s\u00f3 d\u00e1 dicas legais.<\/p>\n<p><strong>3 &#8211; MUITO PRAZER<\/strong><\/p>\n<p>Ah, nessa confus\u00e3o toda de pandemia, at\u00e9 esqueci de me apresentar. Meu nome \u00e9 Domingos, mas me chamam de Mingo. Minguinho, para minha v\u00f3 Ign\u00eas. Tenho oito anos ou nove? N\u00e3o, n\u00e3o\u2026 Vou fazer dez, agora, em junho. Sou argentino e, muito importante, como j\u00e1 disse, tor\u00e7o pelo River Plate, que \u00e9 o melhor time do mundo.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m duvida?<\/p>\n<p>Tenho uma hist\u00f3ria triste. Eu vim para o Brasil, morar em Belo Horizonte, com a minha m\u00e3e Denise e com minha irm\u00e3 Clarinha, que \u00e9 argentina como eu.<\/p>\n<p>\u00c9 uma hist\u00f3ria triste, como eu disse \u2013 e minha m\u00e3e reclama quando eu repito as coisas. E eu repito muito as coisas.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 mesmo uma hist\u00f3ria, para mim, muito triste.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Querem saber?<\/p>\n<p>Assim a gente esquece um pouco essa coisa da pandemia porque at\u00e9 eu \u2013 que tenho um pacto com os santos e os super-her\u00f3is \u2013 estou ficando, \u00e0s vezes, com muito medo. Muito.<\/p>\n<p>Vou contar o que sei, certo?<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que aconteceu, mas tenho uma vaga ideia.<\/p>\n<p>A m\u00e3e me falou que n\u00e3o era mais esposa do meu pai, mas eles continuariam bons amigos, mesmo morando em casas diferentes. At\u00e9 a\u00ed eu entendi, n\u00e3o gostei, mas eu entendi. Quer dizer, achei estranho.<\/p>\n<p>Por que precisavam viver em lugares diferentes?<\/p>\n<p>E olhe que achei que continuar\u00edamos morando em Buenos Aires, na casa da minha av\u00f3 Ign\u00eas, aquela que me chama de Minguinho.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Em todo caso, em assunto de gente grande, a gente n\u00e3o opina. Obedece e pronto.<\/p>\n<p>Eu devia ter uns quatro, cinco, quase seis anos; sete talvez.<\/p>\n<p>N\u00e3o, sete n\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu nunca sei direito esse assunto de tempo e de n\u00fameros. Fa\u00e7o uma confus\u00e3o, desculpem a\u00ed, viu?<br \/>\n\u00c9 que o tempo, para as crian\u00e7as, demora mais a passar.<\/p>\n<p>J\u00e1 os adultos vivem reclamando que o tempo passa r\u00e1pido demais.<\/p>\n<p>Eles dizem: o tempo voa.<\/p>\n<p>E olham para o c\u00e9u como se fossem ver o tempo voar.<\/p>\n<p>Gente grande tem cada coisa!<\/p>\n<p>Agora, n\u00e3o, com a pandemia e com a tristeza que todos trazem no olhar, ter\u00e3o tempo de sobra. Mas poucos olham para o c\u00e9u, para o mar, para as outras pessoas&#8230; Pois v\u00e3o quietinhos cada um para um canto, com o telefone na m\u00e3o. Nada dizem, mas de tudo desconfiam.<\/p>\n<p>Tem hora que tamb\u00e9m me assusto. N\u00e3o gosto de ver as pessoas tristes. Alarmadas.<\/p>\n<p>Ai, ai, ai\u2026<\/p>\n<p>Fico triste tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>E eu choro f\u00e1cil, f\u00e1cil. Por qualquer bobagem.<\/p>\n<p>*<br \/>\nComo eu ia dizendo e n\u00e3o disse, mas direi agora.<\/p>\n<p>Numa viagem de trabalho para o Brasil, a minha m\u00e3e reencontrou o Radam\u00e9s, um surfista argentino, amigo do Sor\u00edn, um lateral-esquerdo, argentino e famoso, que veio jogar no Cruzeiro, com quem ela j\u00e1 havia namorado.<\/p>\n<p>Ah, ela namorou o Radam\u00e9s, n\u00e3o o Sor\u00edn, esclarecendo.<\/p>\n<p>Quando era jovem, garota de tudo, minha m\u00e3e (que ainda n\u00e3o era minha m\u00e3e) foi estudar na Austr\u00e1lia, fazer um tal de interc\u00e2mbio.<\/p>\n<p>Foi l\u00e1 que os dois se conheceram. Ela e o Radam\u00e9s, gente! Que fique claro. Para n\u00e3o dizerem por a\u00ed que, al\u00e9m de repetir, eu invento coisas.<\/p>\n<p>Ele preferiu ficar l\u00e1 naquela lonjura porque \u00e9 doido por ondas, pranchas, barcos e mar. At\u00e9 hoje \u00e9 assim. N\u00e3o sei por que agora moramos em Belo Horizonte, longe do mar.<\/p>\n<p>Neg\u00f3cios, neg\u00f3cios, Mingo.<\/p>\n<p>Foi o que me disse certa vez \u2013 e eu continuei sem nada entender.<\/p>\n<p>Enfim\u2026<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e voltou para Buenos Aires e l\u00e1 se casou com o meu pai, Andr\u00e9, e depois separou e reencontrou o Radam\u00e9s (ai, se a m\u00e3e ouvisse eu repetindo tudo o que j\u00e1 falei\u2026), n\u00e3o sei se foi pelo Facebook, pelo Instagram ou ainda no tempo de um tal de Orkut. Sei que namoraram de novo e a\u00ed, sim, se casaram \u2013 e eu e a Clarinha entramos junto com eles na cerim\u00f4nia que foi bonita numa praia isolada no litoral norte de S\u00e3o Paulo. (Esqueci o nome, nem adianta perguntar).<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, ent\u00e3o&#8230; Penso que tem mais gente nessa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas, apresentarei na medida que for necess\u00e1rio, sen\u00e3o a roda trava, como diz o Enzo e a gente n\u00e3o sai do lugar.<\/p>\n<p>Quer ver outra frase que o Enzo diz: A vida \u00e9 um longo e sinuoso caminho.<\/p>\n<p>Ih, estou falando igualzinho a ele.<\/p>\n<p>A vida \u00e9 um espantar-se!<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que, quando eu crescer, serei contador de hist\u00f3ria como ele? Ser\u00e1?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Continua amanh\u00e3&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KtL08d4xfaQ\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Fotos: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; O MUNDO DAS LETRAS<\/strong><\/p>\n<p>Acordei no dia seguinte com uma barulheira danada.<\/p>\n<p>A pousada sempre amanhecia silenciosa.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24625,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1746,1749,1752,1163,1748,1754,1747,1753,1118,1162],"class_list":["post-24622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-a-cor-da-vida","tag-arraial-dajuda","tag-capitulos-2-e-3","tag-isolamento-social","tag-mingo","tag-muito-prazer","tag-o-conto","tag-o-mundo-das-letras","tag-pandemia","tag-quarentena"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24622"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24622\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24652,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24622\/revisions\/24652"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24625"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}