{"id":24630,"date":"2020-11-19T12:00:46","date_gmt":"2020-11-19T12:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24630"},"modified":"2020-11-19T18:49:09","modified_gmt":"2020-11-19T18:49:09","slug":"a-cor-da-vida-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-cor-da-vida-4\/","title":{"rendered":"A Cor da Vida (4)"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; O VESTIDO AZUL<\/strong><\/p>\n<p>Esta parte da hist\u00f3ria eu n\u00e3o gostaria de contar, muito menos de ter vivido.<\/p>\n<p>Mas o que fazer?<\/p>\n<p>Igual a tudo na vida, como diz o Enzo.<\/p>\n<p>Quase tudo, n\u00e9?<\/p>\n<p>Porque essa coisa da pandemia, ningu\u00e9m tinha experimentado isso n\u00e3o.<\/p>\n<p>A pousada ficou quase vazia.<\/p>\n<p>Aquela reuni\u00e3o foi tumultuada. Quase todos os h\u00f3spedes foram embora naquele mesmo dia ou na manh\u00e3 seguinte. Ficamos eu, minha m\u00e3e, a Clarinha, o Enzo, mais duas fam\u00edlias com crian\u00e7as, um casal e alguns poucos funcion\u00e1rios da casa que se revezam no trabalho dia sim, dia n\u00e3o.<\/p>\n<p>Agora eles usam m\u00e1scaras e luvas para nos atender.<\/p>\n<p>A gente tamb\u00e9m se quiser pode usar. Mas n\u00e3o pode mais abra\u00e7ar, chegar perto, essas coisas.<\/p>\n<p>Assim tudo bem. N\u00e3o precisa de m\u00e1scara.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o me importaria em usar n\u00e3o.<\/p>\n<p>Fico parecendo personagem de hist\u00f3ria dos gibis antigos que o meu pai colecionava.<\/p>\n<p>Ah, por falar em pai, estou com saudade dele. Muita. Bem grandona.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que a tal pandemia chegou \u00e0 Argentina tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>N\u00e3o quero nem pensar.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Preciso lhes contar o que prometi.<\/p>\n<p>\u00c9 assim.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem o que aconteceu com o pai e com a m\u00e3e quando a gente vivia em Buenos Aires.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o vi nada de errado.<\/p>\n<p>Por isso desconfio, eu desconfio, n\u00e9, que tenha sido por causa do futebol e de certo vestido azul que minha m\u00e3e teimava em usar e ficava muito bonita quando vestia.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 disse, meu pai \u00e9 doido pelo River que \u00e9 vermelho, preto e branco, quer dizer o uniforme \u00e9 vermelho, preto e branco.<\/p>\n<p>Quem torce para o River tem raiva, mas muita raiva mesmo do Boca Juniors que \u00e9 azul e amarelo, quer dizer o uniforme \u00e9 azul e amarelo. Mais ou menos \u2013 acho que mais \u2013 igual \u00e0 bronca que h\u00e1 entre Cruzeiro e Atl\u00e9tico, aqui, no Brasil. Um n\u00e3o gosta do outro.<\/p>\n<p>*<br \/>\nQuando minha m\u00e3e usava o vestido azul, j\u00e1 disse, ela ficava muito bonita. Atra\u00eda os olhares dos f\u00e3s de todos os clubes do campeonato argentino. At\u00e9 do time do Hurac\u00e1n, que tem um bal\u00e3ozinho engra\u00e7ado como distintivo e s\u00edmbolo e tem um uniforme branco e gren\u00e1.<\/p>\n<p>Meu pai ficava com a express\u00e3o que o Enzo ficou, dias atr\u00e1s, quando viu uma bonita mulher paulista chegar \u00e0 praia e tirar aquele pano colorido que ela fazia de saia e estend\u00ea-lo na areia como se fosse uma esteira.<\/p>\n<p>Um senhorzinho falou:<\/p>\n<p>Que formosura! Eta, bicho bom!<\/p>\n<p>O Radam\u00e9s, que ainda estava aqui, fez que n\u00e3o viu nem ouviu e um rapaz da pousada deu um sorriso que parecia concordar com o coment\u00e1rio. Mas, s\u00f3 o Enzo tinha os olhos brilhando igual aos do meu pai quando via minha m\u00e3e com o vestido azul.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Meu pai sempre dizia quando minha m\u00e3e aparecia de azul, quer dizer com o vestido azul:<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 muito justo?<\/p>\n<p>Deixa de bobagem, respondia minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia com quem concordar.<\/p>\n<p>Por um lado, achava que ela tinha raz\u00e3o. Era mais do que justo poder usar o vestido da cor que bem entendesse porque nem de futebol ela gostava.<\/p>\n<p>Por outro lado, eu tamb\u00e9m n\u00e3o gostava de ver algu\u00e9m querido como a minha pr\u00f3pria m\u00e3e, bonita, maravilhosa, com as cores dos inimigos.<\/p>\n<p>Eu sei que mulher nunca entender\u00e1 isso. Mas, n\u00f3s, f\u00e3s do River Plate, sim; e ficamos bem @#%!!<\/p>\n<p>Ops, tristes.<\/p>\n<p>Quase falo um palavr\u00e3o.<\/p>\n<p>Brasileiro gosta de falar essas besteiras, n\u00e3o? Aprendi um monte deles na escola.<\/p>\n<p>Falar a verdade: acho que estou sentindo falta da escola.<\/p>\n<p>\u00c9 o que aqui chamam de saudade. Mas, como ser\u00e1 a partir de agora com a pandemia?<\/p>\n<p>Por falar em saudade, acho que meu pai tinha raz\u00e3o no caso do vestido, um pouquinho pelo menos.<\/p>\n<p>N\u00e3o era justo mesmo. Quer dizer era muito justo mesmo.<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o? Sei l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Continua amanh\u00e3&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9_IXNHTeqr0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; O VESTIDO AZUL<\/strong><\/p>\n<p>Esta parte da hist\u00f3ria eu n\u00e3o gostaria de contar, muito menos de ter vivido.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24633,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1746,1749,1163,1748,1747,1755,1118,1162],"class_list":["post-24630","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-a-cor-da-vida","tag-arraial-dajuda","tag-isolamento-social","tag-mingo","tag-o-conto","tag-o-vestido-azul","tag-pandemia","tag-quarentena"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24630"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24630\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24653,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24630\/revisions\/24653"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24633"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}