{"id":24666,"date":"2020-11-25T12:00:10","date_gmt":"2020-11-25T12:00:10","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24666"},"modified":"2020-11-25T14:56:02","modified_gmt":"2020-11-25T14:56:02","slug":"a-cor-da-vida-12-e-13","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/a-cor-da-vida-12-e-13\/","title":{"rendered":"A Cor da Vida (12 e 13)"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Leila Kiyomura<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>12 &#8211; A GARRA AT\u00d5MICA<\/strong><\/p>\n<p>Adoro sorvete. Um, dois, tr\u00eas&#8230; Perco as contas de quantos consigo consumir na praia num dia de sol daqueles bem grand\u00f5es.<\/p>\n<p>Quando a vida era a vida e eu andava por toda a praia, a praia toda era minha.<\/p>\n<p>Era assim que eu pensava.<\/p>\n<p>O sol, o mar, as nuvens, a areia quente nos p\u00e9s, os guarda-s\u00f3is coloridos, as pessoas sorrindo e felizes. Tudo, tudo, para mim, formava o belo cen\u00e1rio de um reino encantado.<\/p>\n<p>Esclare\u00e7o que o c\u00e9u s\u00f3 me pertencia inteiro em dois momentos: ao raiar do dia ou ao entardecer quando tem uns tons avermelhados, bonitos de se ver.<\/p>\n<p>Quem duvidar da minha soberania, bastaria perguntar por mim a qualquer vendedor de sorvete. Todos me conheciam.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, sempre quando me viam j\u00e1 ficavam por perto.<\/p>\n<p>Puxavam uma conversinha e iam me tentando com aquele isopor repleto de preciosos picol\u00e9s.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e, esperta que s\u00f3, falava:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 a t\u00e1tica deles, Mingo.<\/p>\n<p>Como eu s\u00f3 havia ouvido essa palavra em transmiss\u00f5es de futebol pela TV, sempre imaginei que &#8220;t\u00e1tica&#8221; fosse algo bom como me passar a bola para eu fazer um gola\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso, Mingo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, poderiam querer me mandar jogar como goleiro. A\u00ed, eu n\u00e3o gosto, n\u00e3o. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o bom. Gosto \u00e9 de fazer gols. Ser artilheiro.<\/p>\n<p>A m\u00e3e at\u00e9 que tentou explicar. Mas, deixa pra l\u00e1, nunca descobri a real.<\/p>\n<p>Sei que, com ou sem t\u00e1ticas, teve um dia, aqui mesmo na praia onde termina a pousada, quando a vida ainda era a vida, que eu tomei cinco ou seis picol\u00e9s numa s\u00f3 manh\u00e3.<\/p>\n<p>Ai, eu nunca sei direito essas coisas de n\u00fameros.<\/p>\n<p>Mas, voc\u00eas j\u00e1 sabem disso.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Era um depois do outro.<\/p>\n<p>Tava que tava, viu!<\/p>\n<p>Tanto que nem sequer me lembrei de comprar o sorvete especial que vem com a dedeira de pl\u00e1stico no lugar do palito. Com cinco desses dedos amea\u00e7adores, a gente forma uma garra at\u00f4mica. E a\u00ed a gente brinca de super-her\u00f3i.<\/p>\n<p>Voc\u00eas sabem que prefiro mesmo jogar futebol ou videogame. Mais a\u00e7\u00e3o. Mesmo no videogame, o joguinho que eu mais gosto \u00e9 o do futebol.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o \u00e9 por isso que eu n\u00e3o vou brincar de super-her\u00f3i, \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Quando eu estava terminando o picol\u00e9 de chocolate, que \u00e9 o meu sabor preferido, dois ou tr\u00eas garotos, ou quatro, n\u00e3o sei, foram l\u00e1, compraram o especial e formaram a garra at\u00f4mica inteira. Sa\u00edram felizes, pulando e pulando, os danados.<\/p>\n<p>S\u00f3 a\u00ed que eu percebi.<\/p>\n<p>Eu tinha quatro dedos da garra guardados na bolsa de pano, enorme e colorida que a m\u00e3e traz quando vem \u00e0 praia,\u00a0 faltava unzinho para eu inteirar o quinto e, finalmente, completar a poderosa garra at\u00f4mica.<\/p>\n<p>Corri atr\u00e1s do homem que vendia o picol\u00e9. Nem cheguei a falar e ele j\u00e1 se antecipou ao meu desejo:<\/p>\n<p>&#8211; O sorvete especial acabou, Mingo. S\u00f3 amanh\u00e3, agora.<\/p>\n<p>Empaquei ali mesmo, e perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; Como assim? E agora?<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 amanh\u00e3.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Nossa! N\u00e3o sei explicar o que aconteceu naquele brev\u00edssimo instante.<\/p>\n<p>Parece que fiquei sem ch\u00e3o. Os olhos ficaram emba\u00e7ados e, quando percebi, explodi num berreiro s\u00f3!<\/p>\n<p>Chorei mesmo.<\/p>\n<p>Chorei.<\/p>\n<p>Como a vida pode aprontar uma decep\u00e7\u00e3o dessas para mim?<\/p>\n<p>(Mal sabia eu da hist\u00f3ria de pandemia.)<\/p>\n<p>Acredito que n\u00e3o chorava tanto, desse jeito escandaloso, desde quando tinha cinco, seis anos. Ou quatro. Ah, sei l\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>13 &#8211; OLHAR O NADA<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quanto mais eu chorava, mais as pessoas na praia olhavam para mim como a dizer:<\/p>\n<p>&#8220;E l\u00e1 vai o menino que n\u00e3o tem garra at\u00f4mica.&#8221;<\/p>\n<p>E eu chorava assim mesmo, sem levantar muito a cabe\u00e7a. Sentia-me o \u00faltimo dos \u00faltimos.<\/p>\n<p>&#8220;E l\u00e1 vai o menino que n\u00e3o tem garra at\u00f4mica.&#8221;<\/p>\n<p>Todos correram em minha dire\u00e7\u00e3o para saber: o que havia acontecido?<\/p>\n<p>Quando souberam, viraram as costas e se puseram a falar mal de mim.<\/p>\n<p>&#8220;Ah, que bobagem.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Pensei que fosse coisa s\u00e9ria.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Um menino grande como voc\u00ea, chorando por essa porcaria.&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 falta de surra!&#8221;<\/p>\n<p>Algu\u00e9m falou isso, n\u00e3o sei quem. Minha m\u00e3e fez uma express\u00e3o de quem n\u00e3o gostou. Mas que algu\u00e9m falou, falou. Porque ela logo engrossou a voz, e disse:<\/p>\n<p>&#8211; Para com isso. Do_min_ gos !<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Quando minha m\u00e3e fala meu nome inteiro e, com voz firme, vai separando as s\u00edlabas, \u00e9 melhor parar mesmo.<\/p>\n<p>Parei. Quer dizer, fiquei com o choro contido. Longe de todos.<\/p>\n<p>S\u00f3 o Enzo n\u00e3o disse nada. Saiu caminhando pela praia sozinho, como sempre fazia. Andava devagar. Ora de cabe\u00e7a baixa, ora olhava para frente, ora se fixava na linha do horizonte. A impress\u00e3o que dava \u00e9 que estava olhando o nada, olhando para dentro dele mesmo. Um pouco como eu me senti naquela hora.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Uma vez, ele me disse assim.<\/p>\n<p>O mist\u00e9rio est\u00e1 em aprender a ver a felicidade onde nossos olhos possam ver, e n\u00e3o s\u00f3. Enxergar al\u00e9m, compreender que o invis\u00edvel, o fortuito, o acaso, os mist\u00e9rios tamb\u00e9m est\u00e3o presentes em nosso dia a dia. A vida \u00e9 um espantar-se, Mingo!<\/p>\n<p>Naquele dia, n\u00e3o entendi. Mas acho que hoje eu entendo.<\/p>\n<p>Nunca precisei daquela garra para ser feliz. Foi bobeira mesmo.<\/p>\n<p>Hoje cedo, eu queria dizer isso para a minha m\u00e3e. Estava t\u00e3o aflita, desarvorada mesmo.<\/p>\n<p>Deveria ter dito.<\/p>\n<p>&#8211; Vai passar, m\u00e3e!<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o tive coragem \u2013 e jeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o sou escritor. Por enquanto.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Continua amanh\u00e3&#8230;<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/m2uTFF_3MaA\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Leila Kiyomura<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>12 &#8211; A GARRA AT\u00d5MICA<\/strong><\/p>\n<p>Adoro sorvete. 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