{"id":24835,"date":"2020-12-11T06:15:29","date_gmt":"2020-12-11T06:15:29","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24835"},"modified":"2020-12-10T18:47:55","modified_gmt":"2020-12-10T18:47:55","slug":"clarice-e-rubem","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/clarice-e-rubem\/","title":{"rendered":"Clarice e Rubem"},"content":{"rendered":"<p>Foto: Revista Cult<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Ainda nas nost\u00e1lgicas \u00e1guas do centen\u00e1rio de Clarice Lispector, permita-me caro leitor, transcrever a c\u00e9lebre entrevista que a escritora fez com o cronista Rubem Braga.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>Fonte:<\/strong><\/p>\n<p><em>LISPECTOR, Clarice. Clarice na cabeceira: jornalismo. 1\u00ba edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro: Rocco, 2012. Originalmente publicado em: Revista &#8220;Fatos e Fotos&#8221;, 27 de junho de 1977.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-24831 alignright\" src=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-300x123.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"123\" srcset=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-300x123.jpg 300w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-483x197.jpg 483w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-360x147.jpg 360w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-600x245.jpg 600w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1-263x107.jpg 263w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/clarice1.jpg 705w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>At\u00e9 parece que conhe\u00e7o Rubem Braga desde sempre. Gostei dele \u00e0 primeira vista. Sei coisas a seu respeito. Por exemplo, bondades que faz discretamente sem pedir nada em troca. Por exemplo, ele \u00e9 pessoa que perdoa muito e entende tudo e n\u00e3o se faz juiz de ningu\u00e9m. Ele \u00e9 corajoso. Simples. Delicado. Ele tem qualquer coisa de rural em si. E foge a tudo o que seja &#8220;sentimentalismo&#8221; falso. Mas h\u00e1 mil &#8220;rubens&#8221; dentro de Rubem Braga, \u00e9 claro, assim como h\u00e1 mil &#8220;clarices&#8221; em mim. E tanta coisa eu desconhe\u00e7o em Rubem, que era melhor entrevist\u00e1-lo de vez. Pelo menos tentarei atenuar o seu mist\u00e9rio (porque ele \u00e9 um pouco misterioso). Mas desconfio que o seu mist\u00e9rio est\u00e1 na sua simplicidade &#8211; e simplicidade \u00e9 das coisas mais raras no ser humano, a ponto de construir uma qualidade ins\u00f3lita.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector\u00a0<\/em>&#8211; Rubem, eu te conhe\u00e7o h\u00e1 tantos anos que, se voc\u00ea n\u00e3o fosse misterioso e calado, eu n\u00e3o teria pergunta nenhuma a fazer. Concorda?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; Mas acontece que sou uma esfinge sem segredo. Calado, nem tanto. Ou nem sempre. At\u00e9 que j\u00e1 tenho falado demais. E estou aqui falando.<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Voc\u00ea para mim \u00e9 um poeta que teve pudor de escrever versos, e ent\u00e3o inventou a cr\u00f4nica (pois foi voc\u00ea quem inventou esse g\u00eanero de literatura), cr\u00f4nica que \u00e9 poesia em prosa, em voc\u00ea. \u00c9 ou n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; N\u00e3o \u00e9 bem isso. H\u00e1 um fato importante em minha carreira: eu sempre escrevi para jornal. A partir do Correio do Sul, de Cachoeiro de Itapemirim, que era do meu irm\u00e3o Armando e chegou a sair tr\u00eas vezes por semana. L\u00e1 publiquei alguns versos mas escrevia principalmente artigos terrivelmente s\u00e9rios sobre pol\u00edtica, lavoura, economia etc, e uma ou outra cr\u00f4nica ligeira. Em suma: eu escrevia o que me dava na telha e, na verdade, nunca tive pudor de fazer versos. \u00c9 que fazer bons poemas (em versos) exige um tipo de habilidade e de economia, s\u00edntese e ao mesmo tempo, desculpem a palavra, inspira\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito mais f\u00e1cil ir na cad\u00eancia da prosa, e quando acontece ela dizer alguma coisa po\u00e9tica, tanto melhor.<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Quantos livros voc\u00ea j\u00e1 escreveu, e quais?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; Comecei com <em>O conde e o passarinho<\/em>, em 1936; depois, outro pequeno livro de cr\u00f4nicas, <em>O morro do isolamento<\/em>, em 1944. A seguir um livro que \u00e9 mais de reportagem: Com a FEB na It\u00e1lia, depois reeditado sob o t\u00edtulo <em>Cr\u00f4nicas de guerra<\/em>: \u00e9 uma parte da minha experi\u00eancia como correspondente de guerra. Depois vieram outros livros de cr\u00f4nica: <em>Um p\u00e9 de milho<\/em>, <em>O homem rouco<\/em>, <em>A borboleta amarela<\/em>, <em>A cidade e a ro\u00e7a<\/em>, <em>Ai de ti Copacabana\u00a0<\/em>e <em>A trai\u00e7\u00e3o das elegantes.<\/em><\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Tem algum livro para publicar?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; Quase todos esses livros est\u00e3o esgotados e n\u00e3o pretendo reeditar nenhum. Penso, por isso, em fazer, este ano, uma sele\u00e7\u00e3o de todos os meus livros num s\u00f3 volume. Fernando Sabino fez a escolha para mim, mas estou revendo penosamente seu trabalho. Como \u00e9 chato a gente se reler!<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Tamb\u00e9m eu evito ao m\u00e1ximo ter que me reler, e fico espantada quando encontro pessoas que leram um livro meu v\u00e1rias vezes. Como vai se chamar o livro?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; <em>As melhores cr\u00f4nicas de Rubem Braga<\/em>, ou algo assim. Ter\u00e1 apenas algumas cr\u00f4nicas ainda n\u00e3o publicadas em livro. Deve sair l\u00e1 pelo meio do ano.<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; \u00c9 verdade que voc\u00ea amou muito? E que \u00e9 que voc\u00ea queria na vida? Qual sua atitude diante da morte?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; Come\u00e7arei pelo fim, isto \u00e9, pela morte. N\u00e3o anseio por ela mas tamb\u00e9m n\u00e3o morro de medo. Tenho experi\u00eancia bastante para poder dizer que n\u00e3o tenho medo da morte em si mesma. Meu medo \u00e9 da doen\u00e7a, da dor, da impot\u00eancia, da humilha\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, acho na ideia da morte um grande consolo. Quanto ao amor, \u00e9 verdade que amei muito e amei errado, com demasiada paix\u00e3o. Mas algu\u00e9m ama certo?<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Conheci voc\u00ea mais combativo, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; \u00c9 verdade. Voc\u00ea me conheceu na volta dos meus trinta anos, eu ainda era muito rapaz. Ainda pensava em dar um jeito nesse mundo ou pelo menos no Brasil. Hoje estamos em um brejo com morma\u00e7o, e acho que t\u00e3o cedo n\u00e3o sairemos disso. Eu sou uma velha vaca atolada. No brejo, naturalmente.<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Voc\u00ea ainda acredita em alguma coisa, em pol\u00edtica?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; Acho que a liberdade \u00e9 essencial. Sou contra toda e qualquer forma de ditadura: de classe, de indiv\u00edduo ou de casta. Mas para que dizer isso? Escrevi milhares de cr\u00f4nicas, e n\u00e3o creio que tivessem qualquer influ\u00eancia na vida pol\u00edtica do meu pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>Clarice Lispector<\/em> &#8211; Ser\u00e1 pessimismo seu?<\/p>\n<p><em>Rubem Braga<\/em> &#8211; N\u00e3o \u00e9. Vou lhe dar um exemplo. Em 1950 fiz uma excurs\u00e3o a Parati e na volta escrevi uma cr\u00f4nica falando das belezas da terra, mas reclamando contra os alto-falantes existentes em uma pra\u00e7a. Eles berravam alt\u00edssimo durante toda a tarde de domingo, n\u00e3o deixando ningu\u00e9m descansar. Soube que essa cr\u00f4nica tinha causado grande impress\u00e3o em Parati. Voltei l\u00e1 25 anos depois e na tarde de domingo, na mesma pra\u00e7a, os alto-falantes ainda estavam a berrar. Ainda devem estar berrando alto em 1977. A gente escrever n\u00e3o adianta nada, Clarice.<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m acho. Como j\u00e1 foi dito, &#8220;no Brasil, o escritor escreve para os colegas&#8221;.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q5iEPWRSTuE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p><em>* Braga nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, ES. Dedicou cr\u00f4nicas deliciosas \u00e0 terra natal.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Revista Cult<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Ainda nas nost\u00e1lgicas \u00e1guas do centen\u00e1rio de Clarice Lispector, permita-me caro leitor, transcrever a c\u00e9lebre entrevista que a escritora fez com o cronista Rubem Braga.<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24836,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1790,1306,128,1792,885],"class_list":["post-24835","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-clarice","tag-clarice-lispector","tag-entrevista","tag-fatos-fotos","tag-rubem-braga"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24835","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24835"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24835\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24840,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24835\/revisions\/24840"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24836"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24835"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24835"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24835"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}