{"id":24922,"date":"2021-04-14T09:30:28","date_gmt":"2021-04-14T09:30:28","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24922"},"modified":"2021-04-14T13:46:37","modified_gmt":"2021-04-14T13:46:37","slug":"as-pessoas-sao-estranhas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/as-pessoas-sao-estranhas\/","title":{"rendered":"Lengalenga"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma tarde qualquer, vadia e ensolarada, daqueles incr\u00edveis anos 50&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 o garoto Tchinim\u00a0 a nada entender do mundo e dos seres que se autoproclamam\u00a0<em> gente grande<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;As pessoas s\u00e3o estranhas.<\/p>\n<p>Muito estranhas.<\/p>\n<p>T\u00e3o estranhas&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Um involunt\u00e1rio poema. Murmura para si mesmo o garoto de olhos arregalados para a antiga doceira envidra\u00e7ada na vendinha do Seu Jos\u00e9.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Est\u00e1 em d\u00favida. Pelos trocadinhos que traz no bolso da cal\u00e7a curta (antes era este o nome do que hoje intitulamos como &#8220;bermudas&#8221;) que o padrinho lhe deu no anivers\u00e1rio de 8 anos, n\u00e3o sabe o que escolher diante das maravilhas todas que o velho m\u00f3vel guarda em seu bojo.<\/p>\n<p>Queria mesmo um tablete do chocolate<em> Diamante Negro<\/em>. Com o dinheirinho que tem, contenta-se com um doce de leite ou uma pa\u00e7oquinha. Dois dadinhos, talvez.<\/p>\n<p>\u00d4 d\u00favida!<\/p>\n<p>Garante que, quando crescer, vai trabalhar numa f\u00e1brica de chocolates.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, sim&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Seo Jos\u00e9 deixa o balc\u00e3o onde atende a variada freguesia. Arrasta os tamancos at\u00e9 o guri &#8211; e cobra uma decis\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;\u00d4 mi\u00fado, diga logo o que queres. Que hoje sinto que n\u00e3o estou para festas.&#8221;<\/p>\n<p>Mais esta?<\/p>\n<p>Justo hoje que o menino est\u00e1 sem pressa. N\u00e3o tem sequer o dever de casa pra fazer.<\/p>\n<p>A Dona Izabel faltou. Quem deu aula foi a professora substituta.<\/p>\n<p>Mo\u00e7a nova.<\/p>\n<p>Estava um tantinho apressada.<\/p>\n<p>Nem passou a li\u00e7\u00e3o de casa.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tchinim continua como a brincar de est\u00e1tua em frente aos doces.<\/p>\n<p>Seo Jos\u00e9 , sim, mostra-se impaciente ao tamborilar os dedos sob o vidro da doceira.<\/p>\n<p>Tem um tom melanc\u00f3lico na voz. Mais do que uma admoesta\u00e7\u00e3o, o garoto se espanta com o inesperado lamento.<\/p>\n<p>O homem est\u00e1 triste, desconfia.<\/p>\n<p>Talvez fosse anivers\u00e1rio de algu\u00e9m &#8211; dele pr\u00f3prio, quem sabe? &#8211; e ele n\u00e3o est\u00e1 com vontade de fazer festa.<\/p>\n<p>Pode ser.<\/p>\n<p>Festa, a gente faz ou participa quando se est\u00e1 feliz.<\/p>\n<p>Ensinou o v\u00f4 Carlito que, seja qual for o lugar da comemora\u00e7\u00e3o, logo se p\u00f5e a cantar e a beber goladas de vinho &#8211; n\u00e3o necessariamente nessa ordem.<\/p>\n<p>V\u00f4 Carlito \u00e9 engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>&#8220;Gosto dele, muit\u00e3o&#8221; &#8211; pensa o menino.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Decida-se, o garoto!&#8221;<\/p>\n<p>Outra vez, a conversinha do vendeiro.<\/p>\n<p>Logo agora que Tchinim ia aconselhar ao Seo Jos\u00e9 a ficar numa boa, relaxar, que a semana ainda vai ao meio.<\/p>\n<p>&#8220;Hoje sinto que n\u00e3o estou para festas!&#8221; &#8211; repete o homem naquele mesmo tom.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m &#8220;vamos e venhamos&#8221;, como diz o Francisco, que \u00e9 motorista de t\u00e1xi e amigo do pai de Tchinim, com a m\u00fasica que o portuga est\u00e1 ouvindo no r\u00e1dio n\u00e3o d\u00e1 mesmo para ser feliz.<\/p>\n<p>\u00c9 o sucesso da \u00e9poca. Ok!<\/p>\n<p>A voz dolente de Dolores Duran entoa os versos definitivos do inesquec\u00edvel samba-can\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><em>&#8220;Ah, vontade de ficar<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, tendo que ir embora&#8230;&#8221;<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tchinim balan\u00e7a a cabe\u00e7a e \u00e9 taxativo:<\/p>\n<p>&#8220;Outra indecisa!&#8221;<\/p>\n<p>E, para n\u00e3o dizerem que faz parte da turma do lengalenga, logo se define:<\/p>\n<p>&#8220;Eu quero o doce de leite, aquele que tem uma cobertura de coco.&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>As pessoas s\u00e3o estranhas. Muito estranhas. T\u00e3o estranhas&#8230;<\/p>\n<p>Quando viram adulto, ent\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FmQW_epa5vo\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma tarde qualquer, vadia e ensolarada, daqueles incr\u00edveis anos 50&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1 o garoto Tchinim\u00a0 a nada entender do mundo e dos seres que se autoproclamam\u00a0<em> gente grande<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":23142,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1827,1826,259,1825,283,1824],"class_list":["post-24922","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-doce-de-leite","tag-dolores-duran","tag-infancia","tag-lengalenga","tag-memorias","tag-tchinim"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24922","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24922"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24922\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24927,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24922\/revisions\/24927"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/23142"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24922"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24922"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24922"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}