{"id":24948,"date":"2021-04-16T01:41:12","date_gmt":"2021-04-16T01:41:12","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24948"},"modified":"2021-04-16T12:44:29","modified_gmt":"2021-04-16T12:44:29","slug":"era-uma-vez-4","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/era-uma-vez-4\/","title":{"rendered":"Era uma vez&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Eis que me fazem um desafio.<\/p>\n<p>Querem que este humilde <em>tocador_de_letras<\/em> caseie, com pontos firmes, algumas linhas sobre o mais banal e o mais complexo dos tecidos: o amor.<\/p>\n<p>Dizem que eu j\u00e1 me arrisquei por essas veredas (quase) liter\u00e1rias e mais: s\u00e3o &#8211; e ser\u00e3o &#8211; sempre bem vindas cr\u00f4nicas e contos no g\u00eanero.<\/p>\n<p>Donde se v\u00ea e deduz que, entre meus cinco ou seis leitores, temos c\u00e1 um punhado de rom\u00e2nticos, sonhadores e afins.<\/p>\n<p>N\u00e3o os reprovo.<\/p>\n<p>Em tempos tragicamente bicudos, o que nos resta?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Confesso que j\u00e1 percorri as sinuosas alamedas do assunto em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Num passado recente, cometi algumas cr\u00f4nicas, digamos, pretenciosas e fugazes. Tamb\u00e9m me arrisquei em dois romances sob a mesma \u00e9gide no ano passado: o e-book <em>Not\u00edcias de Um Amor Inacabado<\/em> (vejam a refer\u00eancia a\u00ed ao lado, na home) e o folhetim aqui publicado em cap\u00edtulos<em> O que o tempo leva&#8230;\u00a0<\/em>(que pretendo ver impresso ainda este ano).<\/p>\n<p>Ponham na conta do isolamento social em 2020 tais arroubos e literatices, por favor<\/p>\n<p>Ocupei-me de tal tarefa meses a fio e, ao cabo e ao largo, fiquei feliz com o resultado final.<\/p>\n<p>&#8220;Platitudes, meu caro, platitudes&#8221;,\u00a0 disse-me um velho amigo, o Escova.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Sinceramente, n\u00e3o me tenho como especialista de aprofundados conhecimentos sobre o tema. Especialmente nos dias que correm e voam em que ou\u00e7o dizer as coisas se d\u00e3o amplamente &#8211; mas, n\u00e3o s\u00f3 &#8211; no \u00e2mbito dos relacionamentos virtuais, na arena p\u00fablica das redes sociais, nos escaninhos dos aplicativos e cong\u00eaneres.<\/p>\n<p>Sempre me surpreendo com tais e tantas modernidades.<\/p>\n<p>Sou um senhor de idade provecta, duas vezes vacinado, sempre \u00e0 espera de tempos melhores. Tempos em que o menos valha mais e a vida digna e harmoniosa possa ser compartilhada entre todos indistintamente.<\/p>\n<p>O que sei \u00e9 que tanto o amor quanto a vida n\u00e3o permitem notas de rodap\u00e9.<\/p>\n<p>Explica\u00e7\u00f5es futuras, me entendem?<\/p>\n<p>Vive-se &#8211; e&#8230; vive-se!<\/p>\n<p>Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Repito:<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se tenho bagagem suficiente para mergulhar nesse mar revolto.<\/p>\n<p>Permito-me, no entanto, como \u00e9 do meu agrado e feitio, lhes contar um brev\u00edssima uma f\u00e1bula.<\/p>\n<p>Querem saber?<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Havia um pastorzinho que andava a pastorar&#8230;<\/p>\n<p>(Foi tema de m\u00fasica infantil, inclusive. Quem se lembra?)<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o estava em seu laborioso of\u00edcio de subir e descer as montanhas para bom pasto dar \u00e0s suas ovelhas, o rapaz gostava de enveredar pelos bosques que rodeavam o castelo do reino.<\/p>\n<p>Gostava de ouvir o som das \u00e1guas do riacho, e livre sentir-se em meio \u00e0 solid\u00e3o e a rama.<\/p>\n<p>Num desses passeios, quando o sol ainda seguia alto no horizonte, o nosso her\u00f3i avistou em uma das janelas da torre da fortaleza a bela princesa daquele reino distante. J\u00e1 ouvira falar da exuber\u00e2ncia da rapariga, mas n\u00e3o imaginou que fosse tanta e tamanha &#8211; e, desde ent\u00e3o, se fez inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>Encantou-se, como s\u00f3 e acontecer a todos os cavaleiros que a viam.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o sendo da seleta tropa dos lindos-lind\u00f5es, ele apaixonou-se perdidamente.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Inclusive porque, dado a devaneios e del\u00edrios, mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia. o pastorzinho teve a sincera impress\u00e3o de que a princesa tamb\u00e9m o mirava.<\/p>\n<p>Seria correspondido?<\/p>\n<p>Voltou no dia seguinte para conferir se era este o caso, e o outro e o outro e o outro&#8230;<\/p>\n<p>Todas as tardes l\u00e1 ia o pastorzinho.<\/p>\n<p>L\u00e1 estava a princesa.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Certo vez, quando voltava para casa, o rapaz encontrou uma velha senhora perdida nas trilhas do bosque.<\/p>\n<p>Fez quest\u00e3o de ajud\u00e1-la.<\/p>\n<p>Deu-lhe \u00e1gua do pr\u00f3prio cantil, deu-lhe norte e rumo.<\/p>\n<p>Acompanhou-a at\u00e9 sua morada, carregando sobre os ombros o feixe de lenha que a senhora portava.<\/p>\n<p>Era mesmo um<em>\u00a0<\/em>gentil homem.<\/p>\n<p>Como paga \u00e0 sua generosidade, a velhinha, que era chegada nuns babados de magia, falou que fizesse um pedido. Que este seria prontamente atendido.<\/p>\n<p>Mas, ressaltou:<\/p>\n<p>&#8211; Pense bem! Esteja absolutamente seguro do que quer e almeja.<\/p>\n<p>S\u00f3 lhe imp\u00f4s uma condi\u00e7\u00e3o, a senhora.<\/p>\n<p>Tal pedido, depois de cumprido, n\u00e3o haveria como retornar ao que um dia fora&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Perfeito! &#8211; respondeu malandramente o pastor.<\/p>\n<p>De olho na garota dos seus sonhos, n\u00e3o teve d\u00favida do que pretendia:<\/p>\n<p>&#8211; Quero ser um pr\u00edncipe!<\/p>\n<p>E assim\u00a0 se fez!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, o pimp\u00e3o acordou pr\u00edncipe.<\/p>\n<p>Assim, devidamente paramentado, ele correu se apresentar ao castelo nos trinques e respeit\u00e1vel caravana de s\u00faditos.<\/p>\n<p>(N\u00e3o me perguntem de onde surgiu a rapaziada, por favor.)<\/p>\n<p>Abriram-se os grandes port\u00f5es.<\/p>\n<p>Ouviram-se os clarins &#8211; e, montado em lindo corcel, ei-lo na presen\u00e7a do rei que, entusiasmado com t\u00e3o inesperada visita, se mostrou surpreso e curioso:<\/p>\n<p>&#8211; Diga l\u00e1, o nobre: a que devo a honra dessa ilustre personalidade em meu reino?<\/p>\n<p>O pastor que se fez pr\u00edncipe n\u00e3o titubeou:<\/p>\n<p>&#8211; Venho humildemente propor casamento \u00e0 sua filha, a linda e mais do que amada princesa.<\/p>\n<p>O rei &#8211; ora quem diria? &#8211; abriu um largo sorriso &#8211; e aquiesceu.<\/p>\n<p>Casar a filha lhe pareceu oportuno e alvissareiro:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o fa\u00e7o qualquer obje\u00e7\u00e3o a essa feliz uni\u00e3o. \u00danico sen\u00e3o, meu rapaz: quero que se cumpra e respeite a vontade da minha filhota, a linda princesa.<\/p>\n<p>De pronto, mandou cham\u00e1-la.<\/p>\n<p>Queria ouvi-la.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Imaginem, caros e raros leitores, o cora\u00e7\u00e3o do nosso pr\u00edncipe?<\/p>\n<p>Bateu acelerado ao imaginar o encontro. A cena, o beijo&#8230;<\/p>\n<p>Aqueles momentos de espera lhe pareceram durar s\u00e9culos.<\/p>\n<p>Enfim, o sonho t\u00e3o almejado&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Mas, \u00f3 desilus\u00e3o, quem apareceu foi a ama da princesa.<\/p>\n<p>Era a tal velhinha, aquela que disfar\u00e7ou-se em bruxinha do bem, com a incumb\u00eancia de unir o casal.<\/p>\n<p>Veio com a resposta pronta, na ponta da l\u00edngua:<\/p>\n<p>&#8220;A princesa n\u00e3o pode e n\u00e3o quer comparecer a esta reuni\u00e3o.&#8221;<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?&#8221; &#8211; quis saber o rei.<\/p>\n<p>A resposta da senhorinha:<\/p>\n<p>&#8220;Ela est\u00e1 \u00e0 janela&#8230; Espera pelo jovem pastorzinho a quem, desde o primeiro dia em que o viu, jurou aos C\u00e9us entregar seu amor e o resto dos seus dias.&#8221;<\/p>\n<p>Dito isto, a ama se retirou. No estilo e com um maroto pensamento:<\/p>\n<p>&#8220;Vacil\u00e3o. Tinha que acreditar em si mesmo, e no que sentia&#8230;Deu trabalh\u00e3o danado transforma-lo em pr\u00edncipe. Para nada.&#8221;<\/p>\n<p>E o rei? Pois ent\u00e3o o nobre rei olhou para o desarvorado rapaz. Deu uma sacudidela nos ombros a lamentar o equ\u00edvoco &#8211; e encerrou a audi\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Moral da hist\u00f3ria, por conta do fil\u00f3sofo contempor\u00e2neo Djavan:<\/p>\n<p><em>Por ser exato, o amor n\u00e3o cabe em si.<\/em><\/p>\n<p><em>Por ser encantado, o amor revela-se.<\/em><\/p>\n<p><em>Por ser amor, invade&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>e fim.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B2EYO1m3Pk0\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Eis que me fazem um desafio.<\/p>\n<p>Querem que este humilde <em>tocador_de_letras<\/em> caseie, com pontos firmes, algumas linhas sobre o mais banal e o mais complexo dos tecidos: o amor.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24952,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1830,1832,597,1308,1831,1833],"class_list":["post-24948","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-a-princesa-e-o-pastor","tag-alexandre-pires","tag-amor","tag-djavan","tag-era-uma-vez","tag-petlala"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24948"}],"version-history":[{"count":9,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24948\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24958,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24948\/revisions\/24958"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24952"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}