{"id":24959,"date":"2021-04-17T01:00:32","date_gmt":"2021-04-17T01:00:32","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24959"},"modified":"2021-04-17T14:05:32","modified_gmt":"2021-04-17T14:05:32","slug":"enquanto-sobem-os-letreiros","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/enquanto-sobem-os-letreiros\/","title":{"rendered":"Enquanto sobem os letreiros&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Sou apenas um anarquista triste e inofensivo que, quando muito, s\u00f3 faz mal a si mesmo.&#8221;<\/p>\n<p>Gosto das cita\u00e7\u00f5es de Carlos Heitor Cony (1926\/2018).<\/p>\n<p>Esta, em especial, me \u00e9 cara e pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Cony \u00e9 dos meus jornalistas\/autores prediletos ao lado de Rubem Braga e Mario Quintana.<\/p>\n<p>Seus pensares, pin\u00e7ados em cr\u00f4nicas e romances, como diz a garotada, me representam.<\/p>\n<p>Quase sempre batem fundo naquela zona sens\u00edvel entre o f\u00edgado e a alma.<\/p>\n<p>Me identifico com o tom existencial e libert\u00e1rio que as falas proclamam.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tenho l\u00e1 minha simpatia pelo anarquismo, apesar de n\u00e3o o professar por falta de disciplina e coragem.<\/p>\n<p>Tento ser o mais sincero que posso comigo mesmo e com as pessoas ao meu derredor.<\/p>\n<p>Que n\u00e3o esperem em mim um po\u00e7o de virtudes (pois n\u00e3o as tenho).<\/p>\n<p>Talvez eu me assemelhe mais a um areal de incertezas.<\/p>\n<p>&#8220;As oportunidades e as situa\u00e7\u00f5es \u00e9 que fazem e desfazem dos homens&#8221; &#8211; (Saramago).<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Quando jovem &#8211; se \u00e9 que um dia o fui? &#8211; olhava o mundo\u00a0e via o que bem queria ver.<\/p>\n<p>O resto, n\u00e3o me interessava.<\/p>\n<p>Era jovem e, n\u00e3o raras vezes, sonhador e inconsequente.<\/p>\n<p>Mais vivido, lavado e enxaguado nas \u00e1guas do mundo, ainda tento olhar esperan\u00e7oso para o tal Planeta Azul e o tal rinc\u00e3o verde e amarelo.<\/p>\n<p>Mas, reconhe\u00e7o, escapa-me hoje o dom de iludir.<\/p>\n<p>As coisas s\u00e3o como s\u00e3o e raros escapam aos des\u00edgnios e \u00e0s trapa\u00e7as da sorte.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fa\u00e7o este enigm\u00e1tico pre\u00e2mbulo para lhes dizer h\u00e1 fatos que nos s\u00e3o intang\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como nos chegam.<\/p>\n<p>Menos ainda para onde nos levam e v\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas, est\u00e3o a\u00ed e d\u00e3o o que pensar.<\/p>\n<p>Melhor assim, creio.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Permitam-me uma digress\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Noite dessas, estava eu, posto em sossego, a revirar minha cole\u00e7\u00e3o de DVDs do Woody Allen.<\/p>\n<p>Independente do que dizem ou deixam de dizer do hoje senhor de 84 anos, assino e dou f\u00e9 \u00e0 abordagem humanista e, quase sempre, contundente que d\u00e1 ao tem\u00e1rio de seus filmes. Sejam dramas (como <em>Match Point<\/em>) ou com\u00e9dias-rom\u00e2nticas (como <em>Um Dia de Chuva em Nova York<\/em>).<\/p>\n<p>Ao menos nos roteiros que assina, Woody Allen parece saber das coisas.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Voltemos \u00e0 cena.<\/p>\n<p>Era come\u00e7o de noite, no lusco-fusco do isolamento social, decido rever um cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Escolho um que foi filmado em 1976 e, no Brasil, ganhou o apropriado t\u00edtulo de <em>Testa de<\/em> <em>Ferro por Acaso<\/em>.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m se lembra da hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Tentarei resenh\u00e1-la aqui.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>No ano santo de 1953, 0 McCartysmo &#8211; a persegui\u00e7\u00e3o aos artistas simp\u00e1ticos ao comunismo &#8211; dita o tom, o ritmo e o dia adia das produ\u00e7\u00f5es da TV e do cinema americano. H\u00e1 um Comit\u00ea de Investiga\u00e7\u00e3o (alguns hoje chamariam de Gabinete do \u00d3dio) que convoca para duros interrogat\u00f3rios as personagens que sup\u00f5e sejam suspeitas de algum envolvimento. Fossem qual fossem.<\/p>\n<p>N\u00e3o importa.<\/p>\n<p>Querem que os tais, postos sob press\u00e3o e amea\u00e7a, denunciem outras figuras adeptas dos &#8216;vermelhinhos&#8217;.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o colabora com o tal Comit\u00ea \u00e9 afastado sumariamente das produ\u00e7\u00f5es em voga, cai em desgra\u00e7a e passa a integrar a implac\u00e1vel\u00a0 lista negra.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9, neste contexto, que entra em cena nosso personagem, Howard Prince (Woody Allen).<\/p>\n<p>Ele \u00e9 um pacato caixa de restaurante, inveterado apostador e algo, digamos, deslumbrado.<\/p>\n<p>Prince topa prestar ajuda ao amigo de\u00a0 inf\u00e2ncia, Hecky Brown (Zero Mostel), que era um bem-sucedido roteirista de programas de TV at\u00e9 cair na lista negra e, assim, ficar ao desamparo.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegue emplacar nenhum roteiro tanto na TV como no cinema.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Prince\/Woody\u00a0 passa, ent\u00e3o, a assinar os textos de Hecky.<\/p>\n<p>Ele aceita a incumb\u00eancia &#8211; e at\u00e9 curte, ganha comiss\u00e3o para tanto. &#8211; sem ter a exata no\u00e7\u00e3o do que representa.<\/p>\n<p>Aos poucos, no entanto, vai se inteirando do tr\u00e1gico momento que vive.<\/p>\n<p>\u00c9 bem verdade que uma linda mulher,\u00a0Florence Barrett (Andrea Marcovicci) o ajuda nessa viagem \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 postura cidad\u00e3.<\/p>\n<p>Eis a ess\u00eancia e os arabescos deste belo libreto \u00e0 liberdade de express\u00e3o e \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>No mais, s\u00f3 assistindo&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Mas, por\u00e9m, contudo, todavia&#8230;<\/p>\n<p>Como lhes disse acima, estava eu, posto em sossego, a assistir este bom filme quando, de repente, n\u00e3o mais que de repente, importuna-me as estrid\u00eancias vindas de um caminh\u00e3o de som a tocar a zilh\u00e3o nosso hino nacional.<\/p>\n<p>Dou pausa no DVD, vou \u00e0 janela e vejo a raqu\u00edtica carreata que tenta se aproveitar da hora do<em> rush<\/em> para encorpar e causar.<\/p>\n<p>Vez ou outra, as triunfantes estrofes da melodia s\u00e3o interrompidas para dar vez \u00e0 voz\u00a0 emba\u00e7ada de um senhor falador.<\/p>\n<p>O homem diz barbaridades.<\/p>\n<p>N\u00e3o diz nomes, mas acusa nossos governantes:<\/p>\n<p>&#8220;Querem dizimar nossa economia!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Haver\u00e1 fome e desemprego!&#8221;<\/p>\n<p>&#8220;Eles nos submetem aos esquerdistas!&#8221;<\/p>\n<p>E por a\u00ed foi.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Confesso:<\/p>\n<p>Perdi muito do que discursava, em tom alarmista, o verborr\u00e1gico senhor (moro no 19\u00b0 andar).<\/p>\n<p>Mesmo assim pude ouvir como ele concluiu epicamente um dos apartes:<\/p>\n<p>&#8220;Estamos aqui para por fim \u00e0 amea\u00e7a do comunismo!&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o acredito&#8230;<\/p>\n<p>L\u00e1 se v\u00e3o 70 anos!<\/p>\n<p>(Minha vez de usar o ponto de exclama\u00e7\u00e3o.)<\/p>\n<p>Seria mera e preocupante coincid\u00eancia?<\/p>\n<p>Ou uma alucina\u00e7\u00e3o minha?<\/p>\n<p>Seria um dos tantos truques do cineasta para dar veracidade ao que vejo na telinha?<\/p>\n<p>Lembram <em>Rosa P\u00farpura do Cairo<\/em> quando o ator sai da tela para xavecar a mocinha que est\u00e1 na plateia?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Melhor conferir.<\/p>\n<p>Verifico o calend\u00e1rio atr\u00e1s da porta da cozinha para ter certeza do ano em que estamos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, algo me inquieta.<\/p>\n<p>Assalta-me a d\u00favida:<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que ainda hoje h\u00e1 quem acredite nessa balela?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Melhor voltar a ver o filme, mas, confesso, acompanha-me um travo amargo.<\/p>\n<p>Demoro outro tanto para me livrar da amargura.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed, meus caros e raros, o filme j\u00e1 vai pelos finalmentes.<\/p>\n<p>Um\u00a0 al\u00edvio.<\/p>\n<p>A ruidosa passeata foi tonitruar por outras\u00a0 redondezas.<\/p>\n<p>Permito-me, pois, aumentar o volume da engenhoca para melhor\u00a0ouvir a voz de Frank Sinatra enquanto sobem os letreiros.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BG7suS4YJWk\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Sou apenas um anarquista triste e inofensivo que, quando muito, s\u00f3 faz mal a si mesmo.&#8221;<\/p>\n<p>Gosto das cita\u00e7\u00f5es de Carlos Heitor Cony 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