{"id":24980,"date":"2021-04-20T13:38:22","date_gmt":"2021-04-20T13:38:22","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=24980"},"modified":"2021-04-20T13:49:58","modified_gmt":"2021-04-20T13:49:58","slug":"e-agora-jose","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/e-agora-jose\/","title":{"rendered":"E agora, Jos\u00e9?"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 versos c\u00e9lebres que se transmitem atrav\u00e9s das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de tr\u00e2nsito, b\u00fassolas \u2013 ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas m\u00e3os de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu j\u00e1, do que vive e do que ainda n\u00e3o vive, um mesmo n\u00f3 apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privil\u00e9gio meu dispor deste verso, porque me chamo Jos\u00e9 e muitas vezes na vida me tenho interrogado: E agora? Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o des\u00e2nimo se muralha, fosso de v\u00edboras, em que as m\u00e3os ficaram vazias e at\u00f4nitas. E agora, Jos\u00e9? Grande, por\u00e9m, \u00e9 o poder da poesia para que aconte\u00e7a, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um t\u00f4nico, um golpe de espora, e n\u00e3o seja, como poderia ser tenta\u00e7\u00e3o, o come\u00e7o da intermin\u00e1vel ladainha que \u00e9 a piedade por n\u00f3s pr\u00f3prios.\u201d<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>\u201cSaber donde vimos e quem nos gerou, apenas nos d\u00e1 um pouco mais de firmeza civil, apenas concede uma esp\u00e9cie de alforria para a qual em nada contribu\u00edmos, mas que poupa respostas embara\u00e7osas e olhares mais curiosos do que a boa educa\u00e7\u00e3o haveria de permitir. Ser filho de algu\u00e9m bastante conhecido para que n\u00e3o fique em branco as linhas do cart\u00e3o de identidade, \u00e9 como vir ao mundo carimbado e com salvo-conduto.\u201d<br \/>\n\u2026<\/p>\n<p>\u201cRespiro profundamente para mergulhar no passado fugidio da inf\u00e2ncia, onde as verdades se diluem e resplendem como moedas de ouro deixadas ao limo.\u201d<br \/>\n\u2026<\/p>\n<p>\u201cO mito do para\u00edso perdido \u00e9 o da inf\u00e2ncia \u2013 n\u00e3o h\u00e1 outro. O mais s\u00e3o realidades a conquistar, sonhadas no presente, guardadas no futuro inalcan\u00e7\u00e1vel. E sem elas n\u00e3o sei o que far\u00edamos hoje. Eu n\u00e3o o sei.\u201d.<br \/>\n\u2026<\/p>\n<p>\u201cAinda hoje tantos anos passados, ainda me pergunto que vulto de mim ter\u00e1 ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que n\u00e3o h\u00e1 respostas.\u201d<br \/>\n\u2026<\/p>\n<p>\u201cE a vida vai andando, cambaia, como se levasse um prego no tac\u00e3o, e uma incr\u00edvel pregui\u00e7a de o arrancar. De modo que o mundo ser\u00e1 de facto transformado mas n\u00e3o por n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>\u2026<\/p>\n<p>\u201cMas talvez seja melhor assim: n\u00e3o ter alcan\u00e7ado o pin\u00e1culo ent\u00e3o, \u00e9 uma boa raz\u00e3o para continuar subindo. Como um dever que nasce de dentro porque o sol j\u00e1 vai alto.\u201d<br \/>\n\u2026<\/p>\n<p>\u201cCheguei ao fim da cr\u00f4nica, fiz o meu dever. E agora, Jos\u00e9.\u201d<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>* <strong>TRECHOS<\/strong> de cr\u00f4nicas recolhidos do livro <em>A Bagagem do Viajante<\/em>, de <strong>Jos\u00e9 Saramago<\/strong>, publicado pela Companhia das Letras\/1992, porque, como diz o autor em outra cr\u00f4nica, dias h\u00e1 que nos deixam &#8220;fr\u00e1geis, quebradi\u00e7os, mais aflito que uma tartaruga voltada de barriga ao ar&#8221;.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-sze5rpbklM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 versos c\u00e9lebres que se transmitem atrav\u00e9s das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de tr\u00e2nsito, b\u00fassolas \u2013 ou segredos.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":24110,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1844,43,259,1843,978],"class_list":["post-24980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-a-bagagem-do-viajante","tag-cronicas","tag-infancia","tag-jose-saramago","tag-saramago"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=24980"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24980\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":24982,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/24980\/revisions\/24982"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/24110"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=24980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=24980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=24980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}