{"id":25014,"date":"2021-04-24T05:30:53","date_gmt":"2021-04-24T05:30:53","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25014"},"modified":"2021-04-25T19:14:48","modified_gmt":"2021-04-25T19:14:48","slug":"tuaregue","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/tuaregue\/","title":{"rendered":"Tuaregue"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 noites que s\u00e3o assim&#8230;<\/p>\n<p>Por mais cansado que esteja, por maiores que sejam os desafios da manh\u00e3 seguinte (e sempre os haver\u00e1!), por tudo e por nada, voc\u00ea acorda e n\u00e3o dorme mais.<\/p>\n<p>Fica como ontem fiquei.<\/p>\n<p>(A zapear desinteressado os mil e um canais da TV por assinatura, a fu\u00e7ar ingloriamente a telinha do celular, a zanzar pelo apartamento \u00e0s escuras, a achatar o nariz no vidro da janela que mostra uma cidade silenciosa, de luzes em tons de s\u00e9pia, como se fosse uma foto antiga, onde o tempo finge que parou.)<\/p>\n<p>Penso que melhor seria dizer: h\u00e1 madrugadas que s\u00e3o assim. Inquietas, e infindas.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Incorporo este sil\u00eancio, esta paz \u2014 e a morna tristeza que vai em mim.<\/p>\n<p>Que tempos s\u00e3o esses que ora vivemos?<\/p>\n<p>Indiz\u00edveis.<\/p>\n<p>Inacredit\u00e1veis.\u00e9<\/p>\n<p>Sem qualquer resposta, mesmo com alguma resist\u00eancia, penso c\u00e1 comigo que tenho mais \u00e9 que agradecer:\u00a0 pelo sim, pelo n\u00e3o, eis a paz.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 aquela, coletiva, universal, fraterna que tanto almejamos.<\/p>\n<p>Mas, me sinto em paz.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Enfim\u2026<\/p>\n<p>C\u00e1 estou remexer no velho ba\u00fa de mem\u00f3rias e espantos que s\u00f3 a mim pertence. A ouvir, embara\u00e7ado, o arrastar de correntes de meus pr\u00f3prios fantasmas \u2013 uns mais, outros menos importantes em meu humilde e desconexo caminhar.<\/p>\n<p>Curioso!<\/p>\n<p>Estranho como aquele quadro na parede ganha vida neste exato momento.<\/p>\n<p>Talvez seja o clar\u00e3o que, de repente, do nada, atravessou a janela e, fugaz, iluminou a tela.<\/p>\n<p>Me aproximo. Sei de cor a figura que o tecido estampa: uma destemida caravana a cortar o deserto sem fim.<\/p>\n<p>O Saara, seria?<\/p>\n<p>Homens de turbantes, t\u00fanicas, espadas. Uns aboletados em camelos, outros caminham.<\/p>\n<p>De onde v\u00eam, para onde v\u00e3o?<\/p>\n<p>Perguntas sem respostas.<\/p>\n<p>Seus passos n\u00e3o deixam marcas. Dissolvem-se na areia de tom alaranjado e o tropel (insinua o artista) logo faz surgir uma nuvem difusa e amea\u00e7adora.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>S\u00fabito, algumas inquietudes me assaltam.<\/p>\n<p>O que me fez comprar essa pintura num dia incerto do passado?<\/p>\n<p>N\u00e3o sou disso. Nem sequer pechinchei o pre\u00e7o. Foi num impulso, diria, l\u00fadico, incontrol\u00e1vel.<\/p>\n<p>O que a cena representa al\u00e9m da velha sina da Humanidade que \u00e9 seguir do nada para lugar nenhum?<\/p>\n<p>Teria algo de familiar ali?<\/p>\n<p>Comprei por comprar.<\/p>\n<p>Nunca pensei nisso antes.<\/p>\n<p>N\u00e3o seria agora, pra l\u00e1 das tr\u00eas da manh\u00e3, que vou pensar.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o importa.<\/p>\n<p>Escreverei sobre o tema para postar amanh\u00e3 ou outro dia qualquer.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que a vida desses bedu\u00ednos e tuaregues s\u00f3 passe a fazer sentido a partir do desafio de atravessar o deserto, com seus mist\u00e9rios e perigos e o\u00e1sis.<\/p>\n<p>At\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 m\u00e1 a ideia: imagino-me um tuaregue.<\/p>\n<p>O passo faz o caminho.<\/p>\n<p>Seja qual for a jornada&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Escrever d\u00e1 sentido \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Entendo assim a cada nova manh\u00e3 apto (ou n\u00e3o?) a vencer a aridez da tela em branco.<\/p>\n<p>(Minha tela hoje \u00e9 digital,\u00a0 a do notebook; mas reconhe\u00e7o: por vezes, sinto saudades da velha Olivetti e da lauda em branco.)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Mas, epa!<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de estranho \u2014 em mim ou no quadro?<\/p>\n<p>Um certo desconforto. Uma desorienta\u00e7\u00e3o aleat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Acendo todas as luzes da sala, aproximo-me ainda mais e constato: os rostos desses homens s\u00e3o desprovidos de olhos, nariz, boca. Manchas que n\u00e3o revelam qualquer express\u00e3o, qualquer sentimento. Apenas o del\u00edrio de estar no meio da travessia.<\/p>\n<p>O que me \u00e9 mais perturbador:\u00a0 um dos caminhantes se parece tanto comigo.<\/p>\n<p>D\u00favida!<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que olho ou sou olhado?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Ah, essa manh\u00e3 que n\u00e3o chega\u2026<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MomVkKcPRAc\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>* Justi\u00e7a se lhe fa\u00e7a: a tela \u00e9 assinada pelo artista<strong> C\u00e2ndido Oliveira<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>* Texto original publicado em abril de 2008.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 noites que s\u00e3o assim&#8230;<\/p>\n<p>Por mais cansado que esteja, por maiores que sejam os desafios da manh\u00e3 seguinte (e sempre os haver\u00e1!),<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25015,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1857,1856,1331,1855,1854],"class_list":["post-25014","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-candido-oliveira","tag-deserto","tag-madrugada","tag-quadro","tag-tuaregue"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25014","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25014"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25014\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25028,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25014\/revisions\/25028"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25015"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25014"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25014"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25014"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}