{"id":25236,"date":"2021-05-26T06:00:46","date_gmt":"2021-05-26T06:00:46","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25236"},"modified":"2021-05-26T11:11:18","modified_gmt":"2021-05-26T11:11:18","slug":"uma-fabula-chamada-abril","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/uma-fabula-chamada-abril\/","title":{"rendered":"Uma f\u00e1bula chamada Abril"},"content":{"rendered":"<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o, registro e compartilho o lindo depoimento do amigo <strong>Jorge Tarquini<\/strong><strong>*<\/strong> a partir do texto\u00a0<strong>Jornalismo no s\u00e9culo 21, <\/strong>que<\/em>\u00a0<em>aqui postei na segunda, dia 24.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Caro Rodolfo,<\/p>\n<p>A vida inteira senti na pele tanto o lado bom quanto o nem tanto por ter feito parte dessa f\u00e1bula chamada Abril.<\/p>\n<p>O lado bom: ter convivido com verdadeiros artistas das artes gr\u00e1ficas, da fotografia, da moda, da beleza, do &#8220;texto de revista&#8221;, da arte da boa impress\u00e3o, de um universo que cobria praticamente todos os campos da vida humana com beleza, com talento, com bom Jornalismo e, principalmente, com uma efervesc\u00eancia que n\u00e3o encontrei nem quando fui jornalista visitante das reda\u00e7\u00f5es da Time, da Newsweek ou da National Geographic.<\/p>\n<p>Aqueles andares e corredores dos pr\u00e9dios da Abril eram uma happening constante, nos quais nos sent\u00edamos (e, me perdoe o exagero: est\u00e1vamos) no centro do mundo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel acusar a Abril e suas revistas de um monte de coisas. Podemos n\u00e3o concordar com algumas fases de Veja ou da pr\u00f3pria fam\u00edlia Civita. Mas o que se fazia ali dentro era primoroso sob muitos aspectos. Aprendi muito, fiz grandes amizades para a vida toda e usufru\u00ed de uma carreira na qual a Abril investiu sem economias.<\/p>\n<p>Um privil\u00e9gio \u2013\u00a0que, pouca gente lembra, era cobrado \u00e0 altura: resultados, resultados, resultados. De vendas em banca, de conquista de novos assinantes e da manuten\u00e7\u00e3o dos antigos (a tal renova\u00e7\u00e3o), de receitas cada vez maiores de publicidade&#8230;<\/p>\n<p>Mesmo todo o estresse de ter de responder por resultados cada vez maiores era recompensado com uma empresa que devolvia (como sempre fez) com sal\u00e1rios mais altos que a m\u00e9dia do mercado, com b\u00f4nus que, se n\u00e3o compensavam os danos f\u00edsicos e mentais, ao menos garantiam alguns confortos, carros para seus executivos, viagens internacionais pagas, sal\u00e1rios sempre pagos regiamente, sem atrasar nunca. Al\u00e9m, claro, de infra para que os jornalistas pudessem viajar, se embrenhar onde fosse necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>E tudo com suporte de um jur\u00eddico atencioso e alerta aos perigos que a imprensa sempre encara.<\/p>\n<p>Uma empresa que, sou testemunha (pois aconteceu na minha gest\u00e3o, v\u00e1rias vezes), abriu m\u00e3o de milh\u00f5es de publicidade numa bola dividida entre a informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica e a press\u00e3o de uma petroleira ou uma montadora que, descontente com alguma informa\u00e7\u00e3o, pressionava cortando por meses seus an\u00fancios de toda a Abril \u2013\u00a0e o m\u00e1ximo que recebi foram bilhetes de Roberto Civita perguntando: &#8220;Temos raz\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n<p>Bastou eu escrever &#8220;Sim&#8221; no verso do bilhete e devolv\u00ea-lo pelo mesmo portador.<\/p>\n<p>Claro que viriam conversas intermin\u00e1veis depois disso, reunindo para fumar um cachimbo da paz todos os executivos envolvidos (os de publicidade, claro, com \u00e2nimos exaltados e diretores de outras revistas impactadas, idem).<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma escola. Perfeita?<\/p>\n<p>Nem de longe.<\/p>\n<p>Mas a ideia de que era traz o outro lado dessa moeda \u2013\u00a0que eu igualmente vivi&#8230;<\/p>\n<p>O desprezo por ter sido &#8220;da Abril&#8221; era evidente.<\/p>\n<p>O desd\u00e9m, como se fosse um dem\u00e9rito ter sido &#8220;da Abril&#8221; traziam (al\u00e9m da enorme dor de corno) uma tentativa de diminuir quem por ali passava. Como se f\u00f4ssemos jornalistas de segunda classe, um bando de mimados despreparados e sem talento que, por alguma sorte inexplic\u00e1vel, e mesmo s\u00f3 fazendo bobagens, tinha ali algum sucesso.<\/p>\n<p>Cansei de ter de me fingir de bobo quando algum colega, no Jornalismo ou na universidade, falava:<\/p>\n<p>&#8220;Mas voc\u00ea veio da Abril&#8221;.<\/p>\n<p>Me calei diante dessas bobagens 99,9% das vezes.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o me arrependo de, nos 0,01 das vezes em que n\u00e3o me calei, ter defendido o que acreditei ser justo.<\/p>\n<p>Respeito o caminho de todos, seja ele qual for. Mas n\u00e3o senti o mesmo com o meu. Muitas vezes, o respeito vinha apenas pela falta de coragem de demonstrar algum desprezo \u2013\u00a0que vinha pelas costas, por coment\u00e1rios maldosos que eu, educadamente, fingia n\u00e3o ouvir ou n\u00e3o entender.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O que fica disso tudo?<\/p>\n<p>Um enorme prazer de ter vivido tudo isso, de ter virado um &#8220;revisteiro&#8221;, de ter experimentado essa f\u00e1bula pessoalmente \u2013\u00a0e a enorme tristeza por ver como tudo isso se desfez no ar. Se desfaria de qualquer maneira, diante das mudan\u00e7as do mundo. Mas, infelizmente, o mesmo amor que os &#8220;abrilianos&#8221; sempre tiveram pela Abril, pelas revistas e pelos Civita (Victor e Roberto), os pr\u00f3prios filhos e netos fizeram quest\u00e3o de deixar bem claro que nunca sentiam&#8230;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-25237 alignleft\" src=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"165\" height=\"165\" srcset=\"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini-300x300.jpg 300w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini-150x150.jpg 150w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini-360x360.jpg 360w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini-263x263.jpg 263w, http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/jtarquini.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 165px) 100vw, 165px\" \/>*\u00a0<em>Jornalista, criador e diretor da Scribas Produ\u00e7\u00e3o de Conte\u00fado, foi diretor de reda\u00e7\u00e3o das revistas Quatro Rodas, Terra e DOM e editor da Revista de Jornalismo ESPM, pela qual ganhou o Pr\u00eamio Esso de Jornalismo em 2013. Entre seus trabalhos como escritor est\u00e3o \u201cO Doce Veneno do Escorpi\u00e3o \u2013 Bruna Surfistinha\u201d e o recente \u201cVinte Mil Pedras no Caminho\u201d. Mestre em Comunica\u00e7\u00e3o, \u00e9 professor nos cursos de jornalismo da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero e da ESPM \u2013 onde coordena a P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo Digital.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E_NaaHa1Pks\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foto: Arquivo Pessoal<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o, registro e compartilho o lindo depoimento do amigo <strong>Jorge Tarquini<\/strong><strong>*<\/strong> a partir do texto\u00a0<strong>Jornalismo no s\u00e9culo 21,<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":21835,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1940,1947,1944,1419,44,1945,1946],"class_list":["post-25236","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-abril","tag-civita","tag-editora-abril","tag-jorge-tarquini","tag-jornalismo","tag-revistas","tag-tarquini"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25236"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25236\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25241,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25236\/revisions\/25241"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21835"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}