{"id":25286,"date":"2021-06-03T06:00:12","date_gmt":"2021-06-03T06:00:12","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25286"},"modified":"2021-06-03T13:44:51","modified_gmt":"2021-06-03T13:44:51","slug":"sob-as-lembrancas-de-junho","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/sob-as-lembrancas-de-junho\/","title":{"rendered":"Sob as lembran\u00e7as de junho&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Ilustra\u00e7\u00e3o a partir de foto de autoria de Leila Cunha<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Assim h\u00e1 que ser ter estilo&#8221; (Padre Vieira)<\/p>\n<p><strong>01.<\/strong> Nos tenros anos da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, os alunos dos col\u00e9gios Maristas tinham motivos de sobra para saudar a chegada de junho. Se as provas bimestrais assustavam, a proximidade das f\u00e9rias de julho garantia a saborosa sensa\u00e7\u00e3o de estar livre para jogar futebol, empinar &#8220;papagaio&#8221;, rodar pi\u00e3o; enfim ser feliz. Para melhorar o \u00e2nimo da garotada \u2014 o meu, inclusive \u2013, o 6 de junho era feriado \u2014 e que feriado! Consagrado \u00e0 mem\u00f3ria e rever\u00eancia do fundador da congrega\u00e7\u00e3o, o ent\u00e3o beato (agora santo) Marcelino Champagnat, vivia-se um dia de festa, com o futebol rolando solto nos dois campinhos de terra batida que existiam no Col\u00e9gio Nossa Senhora, aqui pertinho no Cambuci. Lembro que era a \u00fanica manh\u00e3 em que acordava antes de o pai me chamar e ficava ansioso pela chegada do bonde que me levaria da rua Bom Pastor, no Ipiranga, \u00e0 rua Lavap\u00e9s no dito bairro onde nasci (pra rimar com Cambuci).<\/p>\n<p>Ainda agora tento descrever, mas n\u00e3o consigo, a del\u00edcia de entrar em campo com o uniforme de camisas listradas em azul e branco do Gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>Quanto encantamento\u2026<\/p>\n<p><strong>02.<\/strong> Nos inquietos anos da juventude, tinha outra \u2014 mas tamb\u00e9m clar\u00edssima \u2014 no\u00e7\u00e3o de liberdade. Nada me impedia de fazer o que bem quisesse, embora quase sempre deixasse tudo por fazer. O que convenhamos \u00e9 a verdadeira legitima\u00e7\u00e3o do conceito &#8220;ser livre&#8221;.<\/p>\n<p>Certa outonal manh\u00e3 de junho, recomendado por algu\u00e9m importante, l\u00e1 fui eu para o meu primeiro dia de trabalho como datil\u00f3grafo num escrit\u00f3rio de contabilidade ou algo do g\u00eanero. N\u00e3o cheguei a sequer esquentar a cadeira. Uma hora depois deixei a sala &#8211; habitada por homens sisudos de olhares emba\u00e7ados pela fuma\u00e7a dos cigarros que muitos tinham pendurado no canto da boca enquanto metralhavam os teclados das m\u00e1quinas de escrever &#8211; e nunca mais voltei. Hoje talvez pudesse alegar que o ru\u00eddo daquelas gerigon\u00e7as incandescentes me estressou, mas tal verbo n\u00e3o existia naquele tempo.<\/p>\n<p>Sai sem dar bom dia, ali\u00e1s como cheguei. Ningu\u00e9m reparou ou sequer lamentou (afora meus pais, claro)\u2026<\/p>\n<p><strong>03.<\/strong> H\u00e1 quem diga que o conceito de liberdade para a minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fosse al\u00e9m de uma cal\u00e7a velha, azul e desbotada. Ou que \u00e9ramos sem limites, zoeiras demais, respons\u00e1veis de menos.<\/p>\n<p>Sei, n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sei que ao embicar nos 40 pros 50, coincid\u00eancia ou n\u00e3o, comecei a me incomodar com algumas &#8220;armadilhas&#8221; em que o destino havia me enredado. Os terapeutas do comportamento deram o veredicto: \u00e9 natural que, a essa altura da vida, o cidad\u00e3o fa\u00e7a uma esp\u00e9cie de avalia\u00e7\u00e3o do que fez ou deixou de fazer.<\/p>\n<p>Alguns amigos, mais debochados, preferiram\u00a0 a goza\u00e7\u00e3o. Diziam que, de t\u00e3o distra\u00eddo, nem me dera conta que esses desv\u00e3os (vis\u00edveis ou invis\u00edveis) sempre existiram.<\/p>\n<p>E sempre existir\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A vida \u00e9 assim, cara.&#8221;<\/p>\n<p><strong>04.<\/strong> Muitas vezes, tomei esses coment\u00e1rios como uma forma de press\u00e3o, de enquadramento \u00e0s regras do jogo social. Mas, confesso: pode ser dif\u00edcil ser o que se \u00e9, mas ainda \u00e9 a melhor coisa que uma pessoa pode fazer por ela mesmo. Bom mesmo poder enfrentar, sem remorsos, os 60, 70 e os quequerecos mais que vierem vida afora&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 o que lamentar.<\/p>\n<p>Distra\u00e7\u00f5es, erros e acertos, contradi\u00e7\u00f5es e sonhos s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es de liberdade. Se aut\u00eanticas forem&#8230;<\/p>\n<p>Diria o mago: fazem parte do caminho.<\/p>\n<p>Comecei com a ep\u00edgrafe do Padre Vieira l\u00e1 no alto.<\/p>\n<p>Termino com a sabedoria do saudoso v\u00f4 Carlito:<\/p>\n<p>&#8220;O maior de todos os pecados \u00e9 o arrependimento.&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><strong>NOTA do autor<\/strong>:<\/p>\n<p><em>Olhei o calend\u00e1rio hoje pela manh\u00e3 e bateu uma saudade danada deste texto que escrevi, em junho de 2003, quando ainda trabalhava na Gazeta do Ipiranga. Foi um dos meus \u00faltimos &#8220;Caro Leitor&#8221;, coluna semanal que come\u00e7ou em 1979 e s\u00f3 terminou quando deixei o jornal. <\/em><\/p>\n<p><em>L\u00e1 se v\u00e3o quase 20 anos&#8230;\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quem sabe daqui h\u00e1 alguns anod<\/em><em>, nas quebradas dos 80, possa revisitar esse mesmo texto e o contempl\u00e1-lo e atualiz\u00e1-lo como fa\u00e7o agora?<\/em><\/p>\n<p><em>Importante: a m\u00fasica preferida do v\u00f4 Carlito a quem dediquei meu livro <strong>Pela Janela do Mundo (Ou Mundo Pela Janela),\u00a0<\/strong>onde a prop\u00f3sito inclui a cr\u00f4nica de hoje em sua vers\u00e3o original.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KhfZnZwBFHM\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Ilustra\u00e7\u00e3o a partir de foto de autoria de Leila Cunha<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&#8220;Assim h\u00e1 que ser ter estilo&#8221; (Padre Vieira)<\/p>\n<p><strong>01.<\/strong> Nos tenros anos da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25287,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1974,264,1976,1973,835,1977,1975,135],"class_list":["post-25286","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-6-de-junho","tag-cambuci","tag-gloria","tag-junho","tag-liberdade","tag-luar-do-sertao","tag-marcelino-champagnat","tag-memoria"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25286","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25286"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25286\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25291,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25286\/revisions\/25291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25287"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25286"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25286"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25286"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}