{"id":25328,"date":"2021-06-09T05:00:09","date_gmt":"2021-06-09T05:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25328"},"modified":"2021-06-09T14:55:43","modified_gmt":"2021-06-09T14:55:43","slug":"o-passo-o-caminho-e-o-livro","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-passo-o-caminho-e-o-livro\/","title":{"rendered":"O passo, o caminho e os livros"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tem uma dolente baladinha dos Tit\u00e3s com verso que diz:<\/p>\n<p><em>&#8220;O acaso vai\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Me proteger<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto eu<\/em><\/p>\n<p><em>Andar distra\u00eddo&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Sabem qual?<\/p>\n<p>Pois \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Desconfio que aben\u00e7oadamente tem sido assim a minha trajet\u00f3ria de vida.<\/p>\n<p>Quase nada do que me aconteceu ao longo do passo e do caminho eu planejei.<\/p>\n<p>Vida veio &#8211; e me levou.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o escolhi ser jornalista.<\/p>\n<p>Profiss\u00e3o de f\u00e9. Amo. Mas, n\u00e3o foi escolha minha.<\/p>\n<p>Entrei na Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da USP mais pelo atrativo do nome que me \u00e9 simp\u00e1tico do que por inabal\u00e1vel voca\u00e7\u00e3o \u00e0s lides de Imprensa.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, eram dois anos de estudos b\u00e1sicos e te\u00f3ricos nas ditas \u00e1reas de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes. S\u00f3 depois, no terceiro, opt\u00e1vamos \u00b4pela especialidade em que dever\u00edamos nos diplomar.<\/p>\n<p>Num primeiro momento, pensei em R\u00e1dio e TV.<\/p>\n<p>No balan\u00e7o da carro\u00e7a, as melancias se ajeitaram &#8211; e l\u00e1 fui eu para o Jornalismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o me arrependo.<\/p>\n<p>Da\u00ed pra frente \u00e9 a hist\u00f3ria que todos sabem &#8211; e, por falta de repert\u00f3rio e imagina\u00e7\u00e3o, repito por aqui todos os dias.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Escrever passou a ser a minha sina.<\/p>\n<p>Quando garoto, as aulas de reda\u00e7\u00e3o eram as que mais me mexiam comigo.<\/p>\n<p>Mistura de expectativa e medo.<\/p>\n<p>Temia ser chamado \u00e0 frente para ler as minhas maltra\u00e7adas linhas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, passado o susto pois nunca era o eleito, ficava admirado ao ouvir o colega Gilberto Chimenti (menino calado, algo triste, que nunca aparecia no campinho de terra batida para o futebol) fazer a leitura da sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era dele, via de regra, a melhor reda\u00e7\u00e3o da sala.<\/p>\n<p>Pensava comigo mesmo:<\/p>\n<p>&#8220;Quando ele escreve a primeira palavra, como sabe que \u00e9 a correta para dar tudo certo no final?&#8221;<\/p>\n<p>Olhem que questionamento angustiante, e sem no\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Os prazos apertados dos jornais me dissiparam tais temores ao longo do adiantado das horas dos fechamentos di\u00e1rios.<\/p>\n<p>Aprendi, aos solavancos, a escrever na base das respostas \u00e0s tradicionais cinco perguntinhas do <em>lead<\/em>:<\/p>\n<p>O qu\u00ea?<\/p>\n<p>Quando?<\/p>\n<p>Como?<\/p>\n<p>Onde?<\/p>\n<p>Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Vamos que vamos&#8230;<\/p>\n<p>Toc. Toc. Toc.<\/p>\n<p>Saudades da velha Olivetti.<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o, por\u00e9m, meu atual notebook \u00e9 bem melhor.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Uma tarde que se perdeu no tempo soube que o escritor Fernando Sabino seria colunista do nosso jornal.<\/p>\n<p>Soube tamb\u00e9m que enviaria a cr\u00f4nica do Rio de Janeiro &#8211; e a mim, quanta honra para um pobre mancebo, caberia a ilustre tarefa de:<\/p>\n<p>1 &#8211; receber o envelope endere\u00e7ado em meu nome (honra dobrada);<\/p>\n<p>2 &#8211; ler atentamente o conte\u00fado;<\/p>\n<p>3 &#8211; contar o n\u00famero de linhas;<\/p>\n<p>4 &#8211; diagram\u00e1-lo em duas colunas do alto ao p\u00e9 de uma das p\u00e1ginas do caderno de Cultura;<\/p>\n<p>5 &#8211; qualquer d\u00favida, recorrer ao chefete de plant\u00e3o.<\/p>\n<p>Uia.<\/p>\n<p>Nunca foi preciso mudar uma v\u00edrgula do que o homem escreveu.<\/p>\n<p>No mais, fiquei maravilhado com as possibilidades do texto ao emocionar tantos leitores.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>A partir de ent\u00e3o, tornou-se um h\u00e1bito meu ler esse e outros escritos de Sabino.<\/p>\n<p>De Sabino passei a Louren\u00e7o Diaf\u00e9ria, em fase \u00e1urea na <em>Folha de S. Paulo.<\/em><\/p>\n<p>Ao Sabino e ao Diaf\u00e9ria, acrescentei LM e Raul Drewneck (no <em>Estad\u00e3o<\/em>), Pl\u00ednio Marcos (na <em>Veja<\/em>) Carlos Heitor Cony (<em>Folha<\/em>) e Rubem Braga onde quer que escrevesse (livros, jornais, revistas, tradu\u00e7\u00f5es, bulas de rem\u00e9dio).<\/p>\n<p>Virei um apaixonado por cr\u00f4nica e pelos cronistas.<\/p>\n<p>&#8220;Quer dizer que jornalista tamb\u00e9m pode escrever assim?&#8221;<\/p>\n<p>Era a intrigante indaga\u00e7\u00e3o que eu me fazia.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Num dia qualquer pelos idos de 1979, a dona do jornal, Araci Bueno, me chamou e determinou:<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea vai escrever uma coluna semanal. Escolha o t\u00edtulo.&#8221;<\/p>\n<p>Assim sem muito pensar, disse:<\/p>\n<p><em>&#8220;Caro Leitor &#8220;<\/em><\/p>\n<p>Ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Posso lhes assegurar que esses encontros semanais com os leitores foi a melhor parte da minha rotina at\u00e9 2003 quando deixei a reda\u00e7\u00e3o para assumir outras fun\u00e7\u00f5es no curso de Jornalismo da Universidade Metodista de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>N\u00e3o preciso dizer mais digo:<\/p>\n<p>N\u00e3o planejei voltar \u00e0 academia como mestre.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Em outra tarde qualquer, s\u00f3 que de 1998, tocou o telefone na reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m disse que era para mim.<\/p>\n<p>Atendi.<\/p>\n<p>Era a professora Katy Nassar me convidando para &#8220;fazer uns consertos nos textos dos estudantes do quinto semestre de jornalismo, respons\u00e1veis pelo jornal-laboratorial <em>Rudge Ramos Jornal<\/em>&#8220;.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tira de letra, ela disse.<\/p>\n<p>E acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Levanta uns trocados e, de quebra, seu filho que \u00e9 nosso aluno tem bolsa integral.<\/p>\n<p>Fiquei por l\u00e1 20 anos, acreditam?<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Explico o porqu\u00ea das lembran\u00e7as (ou lamban\u00e7as?).<\/p>\n<p>Estou lendo o livro de poemas e poesias <em>Estrela de Uma Vida Inteira<\/em>, de autoria de Manuel Bandeira. Um tomo pan\u00e7udo de 450 p\u00e1ginas em letrinhas mi\u00fadas.<\/p>\n<p>Faz alguns dias que carrego o livro pra l\u00e1 e pra c\u00e1.<\/p>\n<p>(<em>Para ler poesia, precisa embalar<\/em><\/p>\n<p><em>e o ritmo certo das palavras enfrentar. <\/em><\/p>\n<p><em>Complicado, sei bem que o \u00e9,<\/em><\/p>\n<p><em>mas inspirador sempre ser\u00e1.<\/em>) *<\/p>\n<p>Estou na p\u00e1gina 370.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Pois bem&#8230;<\/p>\n<p>S\u00f3 ontem quando fechei o livro me dei conta que uso como marcador de p\u00e1gina um velho convite da minha primeira noite de aut\u00f3grafos.<\/p>\n<p>Quando estreei como autor com a colet\u00e2nea<em> \u00c0s Margens Pl\u00e1cidas do Ipiranga.<\/em><\/p>\n<p>Foi em 1997.<\/p>\n<p>No sagu\u00e3o do Museu do Ipiranga.<\/p>\n<p>Estava rodeado de amigos.<\/p>\n<p>Olhei a data:<\/p>\n<p><strong>9 de junho<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 24 anos, portanto.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o planejei essa lida.<\/p>\n<p>Dez t\u00edtulos espalhados pelos sebos da vida e mais de 4 mil posts depois, ainda tenho l\u00e1 minhas d\u00favidas se escrever me \u00e9 um dom ou airosa teimosia?<\/p>\n<p>De qualquer forma, vale o registro: foi assim que tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QYEo1zTXQrA\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em>* Poeminha danado de ruim &#8211; e de minha autoria. Perdoem, mas n\u00e3o resisti.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Tem uma dolente baladinha dos Tit\u00e3s com verso que diz:<\/p>\n<p><em>&#8220;O acaso vai\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Me proteger<\/em><\/p>\n<p><em>Enquanto eu<\/em><\/p>\n<p><em>Andar distra\u00eddo&#8221;<\/em><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25329,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[1990,1987,135,1988,1989,1991],"class_list":["post-25328","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-9-de-junho","tag-as-margens-placidas-do-ipiranga","tag-memoria","tag-museu-do-ipiranga","tag-noite-de-autografos","tag-primeiro-livro"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25328","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25328"}],"version-history":[{"count":7,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25328\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25336,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25328\/revisions\/25336"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25329"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}