{"id":25505,"date":"2021-08-02T06:00:24","date_gmt":"2021-08-02T06:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25505"},"modified":"2021-08-04T22:52:29","modified_gmt":"2021-08-04T22:52:29","slug":"o-calabres-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/o-calabres-2\/","title":{"rendered":"O Calabr\u00eas *"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o conheci meu av\u00f4 paterno.<\/p>\n<p>Morreu meses antes de eu nascer.<\/p>\n<p>Como forma de homenagem, herdei seu nome, Rodolfo e, involuntariamente,\u00a0 tamb\u00e9m o jeit\u00e3o estouvado de tentar resolver as pendengas que a vida se nos apresenta.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e0 toa que o apelido do v\u00f4 Rodolfo era \u201co Calabr\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Ele era alfaiate e chegou ao Brasil no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, com 16 anos.<\/p>\n<p>1903, dizem.<\/p>\n<p>Veio junto com os irm\u00e3os \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d \u2013 e por aqui ficou.<\/p>\n<p>Constituiu fam\u00edlia ao lado da italianinha, Rosina Leone, e teve uma penca de filhos.<\/p>\n<p>Ald\u00e3o, meu pai, era um deles.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Meus tios sempre trataram a hist\u00f3ria do v\u00f4 Rodolfo como um tabu.<\/p>\n<p>Falavam superficialmente dele. Do jeit\u00e3o ensimesmado, do copo do bom vinho a acompanhar o dia a dia entre tesouras, agulhas e tecidos.<\/p>\n<p>O pai sempre preferiu ressaltar a imensa saudade que o v\u00f4 Rodolfo sentia da terra natal para onde retornou uma \u00fanica vez &#8220;para tratar de assuntos incertos e n\u00e3o sabidos&#8221;.<\/p>\n<p>Mais mist\u00e9rios.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Certa vez, ainda jovem, ouvi de algum familiar \u2013 n\u00e3o me lembro qual \u2013 que o v\u00f4 literalmente &#8220;enlouquecera&#8221; de tanta melancolia.<\/p>\n<p>Estranhei o sil\u00eancio c\u00famplice da parentada ao redor \u2013 o pai n\u00e3o estava presente \u2013, mas n\u00e3o dei import\u00e2ncia \u00e0 fala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando se \u00e9 mais novo, imagina-se que aquele momento que vivemos \u00e9 \u00fanico. Que as prem\u00eancias que se apresentam \u2013 por mais tolas que sejam \u2013 s\u00e3o eternas, e o qu\u00ea efetivamente valem.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nem os passos que fazem o caminho.<\/p>\n<p>(Ledo e ivo engano.<\/p>\n<p>S\u00f3 o tempo e a nossa viv\u00eancia para por as coisas no devido lugar.)<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos, passei alguns dias em N\u00e1poles (\u00f4 saudade!) e visitei o porto de onde partiram os navios que trouxeram os italianos para o Brasil.<\/p>\n<p>Fiquei tocado com as narrativas que l\u00e1 ouvi.<\/p>\n<p>Nenhuma novidade. Hist\u00f3rias que os livros oficiais nos ensinam ainda que superficialmente. Falam da crise econ\u00f4mica e social na bela It\u00e1lia; do desemprego e da fome a grassar implac\u00e1vel pelas fam\u00edlias do sul da pen\u00ednsula. Falam dos contingentes de italianos a sonhar com a perspectiva de vida melhor e de \u201cfazer a Am\u00e9rica\u201d.<\/p>\n<p>O sonho de todos era voltar para sua aldeia, para a sua gente, enfatizou o guia que nos falava.<\/p>\n<p>Sorte que raros tiveram.<\/p>\n<p>\u2014 Imaginem o que era para aqueles homens e mulheres rudes viver longe das pessoas que amavam e da terra onde nasceram?<\/p>\n<p>N\u00e3o precisei nem dos versos pungentes de \u201cO Sole Mio\u201d para ter uma vaga no\u00e7\u00e3o e entender \u201ca melancolia\u201d do v\u00f4 Rodolfo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>H\u00e1 coisa de uns 10 anos, passei o fim de ano em Torino, na It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Na pra\u00e7a central, o<em> r\u00e9veillon<\/em> reuniu uma multid\u00e3o para (o que foi para mim) um inesquec\u00edvel espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s as esperadas badaladas da meia-noite, vieram os fogos e a confraterniza\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Em seguida, o grupo musical atacou com os acordes do hino nacional da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Todos cantaram. Em un\u00edssono e visivelmente comovidos.<\/p>\n<p>Experi\u00eancia \u00fanica. De emo\u00e7\u00e3o e alumbramento.<\/p>\n<p>Desconfio que o v\u00f4 Rodolfo estava entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>N\u00e3o me perguntem como, mas deu para entender a raz\u00e3o e o motivo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VD1qSFkHemE\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><em><strong>* Publicado originalmente em 31\/07\/2012<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o conheci meu av\u00f4 paterno.<\/p>\n<p>Morreu meses antes de eu nascer.<\/p>\n<p>Como forma de homenagem, herdei seu nome,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":25506,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[2064,729,1131,283,2063,2062],"class_list":["post-25505","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-core-ngrato","tag-familia","tag-italia","tag-memorias","tag-o-calabres","tag-vo-rodolfo"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25505","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25505"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25505\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":25508,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25505\/revisions\/25508"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/25506"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25505"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25505"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25505"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}