{"id":25543,"date":"2021-08-09T06:00:52","date_gmt":"2021-08-09T06:00:52","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=25543"},"modified":"2021-08-09T18:30:24","modified_gmt":"2021-08-09T18:30:24","slug":"uma-conversa-ao-cair-da-tarde","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/uma-conversa-ao-cair-da-tarde\/","title":{"rendered":"Conversa ao cair da tarde&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fim de tarde de domingo. Uma conversa pelo zap, como s\u00f3 e acontecer nesses tempos ainda (e parece que sempre) pand\u00eamicos.<\/p>\n<p>Velhas hist\u00f3rias, boas lembran\u00e7as.<\/p>\n<p>Tecla daqui, responde dali e versa e vice e vice e versa, a Maridalva, jornalista do <em>Pirituba News<\/em>, me pergunta pelo paradeiro de outro jornalista, o Hir\u00e3o Tessari, chefe-mor da <em>Gazeta da Vila Prudente<\/em> nos \u00e1ureos tempos dos jornais de bairro em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ela diz lembrar de um semin\u00e1rio sobre imprensa regional que participamos os tr\u00eas &#8211; eu, ela e o Hir\u00e3o &#8211; no Senac da Lapa nos idos de 70 e 80, \u00e9poca \u00e1urea dos jornais de bairro como organizadores e propulsores da vida comunit\u00e1ria em Sampa.<\/p>\n<p>&#8220;Mundo pequeno, estivemos juntos nesse dia!&#8221;<\/p>\n<p>Cita inclusive um artigo que escrevi sobre o assunto e foi publicado em livro pela Secretaria Municipal de Cultura, em 1985.<\/p>\n<p>Chamava-se <em>Imprensa de Bairro Como Op\u00e7\u00e3o Profissional.<\/em><\/p>\n<p>Desconfio que seja esse&#8230; <a href=\"http:\/\/www.rodolfomartino.com.br\/blog\/imprensa-de-bairro-como-opcao-profissional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">(<strong>CLIQUE AQUI PARA LER)<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Fico lisonjeado com lembran\u00e7a, mas percebo que o que ela quer mesmo (e insiste) \u00e9 saber do Hir\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00ea tem not\u00edcias dele?&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Respondo, com o cuidado que a situa\u00e7\u00e3o requer:<\/p>\n<p>Soube que faleceu faz algum tempo. Algu\u00e9m que me deu a triste not\u00edcia, mas falou assim sem grande convic\u00e7\u00e3o do que dizia. Foi h\u00e1 uns cinco, seis anos ou mais. Talvez mais. A informa\u00e7\u00e3o que tinha at\u00e9 ent\u00e3o era de que ele se desfez do jornal e se mudou para Bras\u00edlia como assessor parlamentar do ent\u00e3o deputado federal Z\u00e9 \u00cdndio, figura popular na Vila Prudente. Conheci mais as hist\u00f3rias do Hir\u00e3o do que o Hir\u00e3o propriamente dito. Trabalhei por quase 30 anos na Gazeta do Ipiranga, participei de algumas mesas sobre o tema jornais de bairros. Era minha vida, at\u00e9 ent\u00e3o. Depois migrei para a universidade &#8211; e meu foco mudou.<\/p>\n<p>&#8220;Obrigada&#8221;, diz Maridalva e lembra, com carinho, do nosso pol\u00eamico, mas admir\u00e1vel (quase) amigo comum.<\/p>\n<p>Desconfio que foi mais pr\u00f3xima do que eu.<\/p>\n<p>Faz um relato divertido da conviv\u00eancia de ambos:<\/p>\n<p>&#8220;Fech\u00e1vamos os nossos jornais na mesma gr\u00e1fica. No tempo em que se fazia emendas na faquinha, lembra? Por vezes, era comum passarmos a noite inteira na empreitada. Eu brincava muito com ele. Ele tinha por h\u00e1bito tirar os sapatos e ficar s\u00f3 de meias para secretariar a edi\u00e7\u00e3o em meio \u00e0s mesas de past-up e\u00a0 da revis\u00e3o. Era uma correria s\u00f3. Certa noite, terminei meu jornal antes\u00a0 do que ele e escondi um do par de seus sapatos. Foi muito engra\u00e7ado! Gostava desses momentos. Ele sempre foi muito inteligente. Chegava a ser arrogante. Mas, um ser humano incr\u00edvel!!!&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>O &#8216;fechamento&#8217; de uma edi\u00e7\u00e3o na gr\u00e1fica era mesmo uma longa jornada noite adentro.<\/p>\n<p>Muita correria, muita confus\u00e3o. Por mais organizados que tent\u00e1vamos ser, nunca t\u00ednhamos o controle total do que ia acontecer. Grau de imprevisibilidade alt\u00edssimo &#8211; e de cansa\u00e7o tamb\u00e9m. Havia um momento, por\u00e9m, quando est\u00e1vamos no limite, que apel\u00e1vamos para o humor, a zoeira, as brincadeiras para amenizar o desespero e a tens\u00e3o.<\/p>\n<p>Era (mais ou menos) natural. Quase um rito.<\/p>\n<p>Imagino a cena. Hil\u00e1ria!<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Hir\u00e3o era mesmo uma figura\u00e7a.<\/p>\n<p>Assino, dou f\u00e9 &#8211; e lhes dou um por_exemplo:<\/p>\n<p>Eu o vi, v\u00e1rias vezes, propor sociedade para a Dona Araci, propriet\u00e1ria do jornal em que eu trabalhava. Gazeta do Ipiranga era uma pot\u00eancia. Tinha entre 36 e 40 p\u00e1ginas e chegou a bater 50 mil exemplares semanais em seus melhores momentos.<\/p>\n<p>O jornal do Hir\u00e3o tinha entre 16 e 20 p\u00e1ginas e tiragem semanal nos arredores dos 15 mil exemplares.<\/p>\n<p>&#8211; Metade metade, topa? &#8211; dizia o Hir\u00e3o, s\u00e9rio e sem qualquer vacilo.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Bons e idos tempos, diz Maridalva.<\/p>\n<p>Eu concordo, e confesso:<\/p>\n<p>Vez ou outra, sonho que ainda estou preso na muvuca daqueles fechamentos sem-fim, madrugada adentro.E o sonho me parece t\u00e3o real que acordo cansado. Mas, estranhamente feliz.<\/p>\n<p>Minha amiga e leitora partilha da mesma nostalgia, mas faz o alerta:<\/p>\n<p>&#8220;Nossa! Muito bom! Penso, por\u00e9m, que falta pouco para a extin\u00e7\u00e3o do jornal regional. Mais um pouquinho e o impresso no geral tamb\u00e9m vai desaparecer. A tecnologia tomou conta. \u00c9 pena gosto do jornal, da revista em material f\u00edsico. N\u00e3o me sinto confort\u00e1vel ao ler no computador, no celular&#8230; De qualquer forma, penso que nossa gera\u00e7\u00e3o viveu o melhor em todos os sentidos.&#8221;<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Concordo com o que ela diz.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m &#8211; e imodestamente &#8211; creio que vivemos o melhor em todos os sentidos.<\/p>\n<p>H\u00e1 coisa de 25 anos, nas aulas do mestrado, o professor Wilson Bueno fez um progn\u00f3stico de 15 ou 20 anos para a sobrevida das publica\u00e7\u00f5es impressas.<\/p>\n<p>Estamos no lucro, pois, Maridalva.<\/p>\n<p>Desconfio que s\u00f3 eu ainda insisto em transformar em livro impresso tudo o que escrevo.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 imprensa setorial ou regional ou comunit\u00e1ria &#8211; acrescento em nossa conversa -, as redes sociais derrubaram todos os nossos alicerces. N\u00e3o sobrou pedra sobre pedra. Por outro lado, h\u00e1 que se reconhecer: o conceito de comunidade hoje extrapola o que se entendia como limites de um bairro ou uma regi\u00e3o. Hoje, vale a causa, a ideia, o conceito de quem somos e quem s\u00e3o os nossos iguais.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Termino feliz nossa conversa.<\/p>\n<p>Ela me incentiva a continuar na cruzada do livro impresso:<\/p>\n<p>&#8220;Pois, fa\u00e7a mesmo! Certamente ser\u00e1 muito \u00fatil. Quanto \u00e0s m\u00eddias sociais, olhe no que se transformou o mundo&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Verdade verdadeira.<\/p>\n<p>Quando todos querem falar, n\u00e3o sobra ningu\u00e9m para ouvir e&#8230; refletir e pensar e olhar ao redor para cultivar o di\u00e1logo, o entendimento e a empatia social.<\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"YouTube video player\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oYI1U-XoacI\" width=\"560\" height=\"315\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\"><\/iframe><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><em>Foto: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>Fim de tarde de domingo. 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