{"id":27234,"date":"2022-05-19T18:16:15","date_gmt":"2022-05-19T18:16:15","guid":{"rendered":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/?p=27234"},"modified":"2022-05-19T19:23:24","modified_gmt":"2022-05-19T19:23:24","slug":"saudades-do-velho-marques","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/rodolfomartino.com.br\/blog\/saudades-do-velho-marques\/","title":{"rendered":"Saudades do Velho Marques"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Foto: Leia Kiyomura\/Fim de tarde de ter\u00e7a-feira no campus da USP<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o resisto \u00e0 foto do c\u00e9u avermelhado que a amiga Leila Kiyomura compartilha comigo no zap.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se l\u00e1 o motivo, a imagem me faz lembrar tempos idos.<\/p>\n\n\n\n<p>Andei por l\u00e1 nos anos 70, estudante do curso de jornalismo da ECA e l\u00e1 se v\u00e3o 50 anos&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Contrasto a foto da Leila com a tarde de c\u00e9u chumbado desta quinta (dia e hora do fechamento da edi\u00e7\u00e3o da semana).  Talvez seja isso que me faz pensar no corre-corre e agito da Velha Reda\u00e7\u00e3o de piso assoalhado e grandes janel\u00f5es para a rua Bom Pastor. <\/p>\n\n\n\n<p>Ali, tanto eu como a Leila e outros tantos demos nossos primeiros passos na lida do jornalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nosso mestre era o saudoso Tonico Marques, grande jornalista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele estava na virada dos 60, tinha o jeit\u00e3o do Vinicius de Moraes e n\u00e3o abria m\u00e3o do bon\u00e9 de jeans a cobrir o desalinho dos cabelos grisalhos.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Putz&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Como eu gostaria de ler uma cr\u00f4nica do Marques sobre os acontecimentos que pululam no notici\u00e1rio do dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Faz falta.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha o poder da s\u00edntese.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Uma lauda todo mundo l\u00ea; mais do que duas, nem a m\u00e3e da gente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Era a li\u00e7\u00e3o que nos passava.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Marques conseguia reunir em uma lauda e meia (coisa de 30 a 40 linhas de 70 toques) todos os fatos relevantes do dia com o mais fino humor e tiradas brilhantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Era atento observador da vida &#8211; e tinha um texto \u00e1gil e ferino.<\/p>\n\n\n\n<p>Fico a imaginar, por exemplo, o que o Marc\u00e3o pin\u00e7aria do casamento de Lula e Janja, realizado com pompas e circunst\u00e2ncias (e alguma discri\u00e7\u00e3o) na noite de ontem.<\/p>\n\n\n\n<p>Marc\u00e3o, justi\u00e7a se fa\u00e7a, era expert no assunto. Viveu altos romances e uns tr\u00eas ou quatro casamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o fui convidado, mas deixo aqui meus votos de plena felicidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro assunto que, por certo, ganharia algumas linhas \u00e9 o vai-n\u00e3o-vai da candidatura D\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, o Mestre seria implac\u00e1vel com o esfacelamento do PSDB e a tal Terceira Via que, por conta e risco, j\u00e1 se p\u00f4s fora do p\u00e1reo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre as bravatas presidenciais e a amea\u00e7a que o Dito-Cujo e seus generais de estima\u00e7\u00e3o fazem, dia sim e outro tamb\u00e9m, \u00e0 democracia, Marc\u00e3o, com a eleg\u00e2ncia de texto que n\u00e3o possuo, combateria di\u00e1ria e implacavelmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfim&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Fico tentando assimilar algumas das levadas do Velho Marques. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas, sei bem..,<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tenho o dom.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele era \u00fanico e inimit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Certa vez, idos de 50 ou 60, Marc\u00e3o foi fazer uma reportagem na Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo e acompanhou o discurso inflamado de um not\u00f3rio deputado que, l\u00e1 pelas tantas, exagerou na figura de linguagem:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tal problema existe no Brasil desde que as caravelas de Cabral aqui desembarcaram&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Marques n\u00e3o teve d\u00favidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Daquele dia em diante, sempre que se referia \u00e0 figura em alguma reportagem, sapecava essa:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;O nobre deputado Fulano de Tal, que acompanhou o desembarque de Pedro Alvares Cabral quando chegou ao Brasil, disse ontem que&#8230;&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o preciso dizer, mas digo que o nobre deputado Fulano de Tal, aquele que viu o desembarque das caravelas de Cabral no Brasil, foi reclamar com o dono do jornal que, como de h\u00e1bito e costume, passou protocolarmente a reclama\u00e7\u00e3o para o editor-chefe. <\/p>\n\n\n\n<p>Este, por sua vez, atarefado que estava, repassou a bronca ao secret\u00e1rio de reda\u00e7\u00e3o que, demorou um tantinho, mas foi falar com o chefe de reportagem. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando a chefia, algo indignada com a miss\u00e3o, pois n\u00e3o era moleque de recado, se dignou a falar com o Marques sobre a quest\u00e3o, o jornal j\u00e1 estava na banca.<\/p>\n\n\n\n<p>E o nobre deputado Fulano de Tal continuou sendo, por v\u00e1rias outras e posteriores edi\u00e7\u00f5es, aquele que estava presente quando Pedro Alvares Cabral descobriu o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Saudades do Marques!<\/p>\n\n\n\n<p>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-incorporar-manipulador wp-block-embed-incorporar-manipulador wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Chico Buarque, Djavan e Gal Costa: Nuvem Negra (DVD Meu Caro Amigo)\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wrLXSCme6Rc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; 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