Foto: Jô Rabelo
…
Ao poeta das coisas simples, sensatas, sinceras…
Por critérios absolutamente pessoais, antecipo-me ao 21 de março Dia Mundial da Poesia e celebro:
I.
Fernando Pessoa:
Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”
II.
Cecília Meirelles:
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta
Irmão das coisas fugidias,
Não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo –
Mais nada.
III.
Vinicius:
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
IV.
Mário Quintana:
Quem ama inventa as coisas a que ama…
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava…
E era um revoo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições…
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho…
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado… e ter vivido o sonho!”
V.
Manuel Bandeira:
A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.
Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que não o alcança
Quando o tem na mão
VI.
Manuel de Barros:
A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
…
* NOTA DO BLOG:
I. Tenho Tanto Sentimento
II. Motivo
III. Soneto da Separação
IV. Quem Ama Inventa
V. Céu
VI. Retrato do Artista Quando Coisa
…
Verdade verdadeira. Tem dias que, como Cecília, ando triste. Outros em que me dou por contente. Não me arvoro, no entanto, a ser poeta. Tento ser cronista que posso dos dias em que vivo – e isso me basta. Mesmo assim, reconheço, bem que gostaria de ter o encantamento de poetar vida afora os sonhos sonhados e vividos por mim e todas as gentes.
Desconfio que nos fazemos mais felizes ao ler uns bons versos.
É só uma impressão que quero registrar neste dia especialíssimo.
Sigamos na fé – e poeticamente.
…
…
O que você acha?