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A lembrar Lourenço Diaféria

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Foto: Divulgação

“Vez por outra acontece. A gente acorda com um sentimento estranho, uma sensação de que o dia será ingrato, opaco, pesaroso. Um sentimento de ameaça, de que nada irá dar certo. Através da veneziana o dia acorda seu alvorecer. Mesmo sem abrir as folhas da janela sei que os prédios me esperam com seu corpo hirto de concreto, espreitando na névoa densa da manhã minha reação de desencanto. Ainda não há azul no céu, e nem sei se haverá. O Sol, atrás das nuvens, é um mistério pessoal da estrela. Há um rumor surdo de avião atrás da bruma, no alto, viajando. Como seria fácil se pudéssemos voar acima de nossas preocupações corriqueiras.

Que inveja dos pilotos e dos balões de papel de seda.”

*Trecho da crônica A Flor da minha cidade, escrita por Lourenço Diaféria, publicada pela Folha de S.Paulo em 25/08/1990.

Lourenço Diaféria (1933/2008), o cronista dos becos e das ruas da cidade de São Paulo, é outra das referências deste humilde Blog prestes a completar 5 mil postagens.

Este é o post de número 4998.

Éramos jovens estudantes de jornalismo.

Marcão me dava carona, em seu fusca-bala, na volta da Universidade.

Destino: o tradicional bairro do Ipiranga.

Eu morava por ali, num apartamento alugado na rua Agostinho Gomes e, desconfio, já trabalhava na Gazeta do Ipiranga. Marcão vinha filar a boia na casa dos pais da namorada que também residiam naquelas imediações junto ao Museu do ipiranga e, depois, seguia para a Folha, onde era um promissor repórter da editoria de Esportes.

Conversávamos sobre as coisas do nosso cotidiano. Futebol, principalmente. Marcão era (e é) corinthiano (“com h, por favor”) e eu, por óbvio, palmeirense com origem e procedência.

Tínhamos uma convivência tranquila, nem poderia ser diferente.

Tempos outros, meus caros e raros.

Eu gostava quando falávamos de jornalismo.

Especialmente quando Marcão me descrevia o encantamento que a todos envolvia quando o cronista Lourenço Diaféria batucava sua colabração para o jornal numa velha máquina de escrever.

De que parte da alma, do coração e da mente, o homem concebia aquelas imagens magníficas e tão singelas que compunham a crônica do jornal?

No meio daquele fusuê todo que era o fechamento das edições diárias do jornal, Diaféria parecia viver em outra dimensão tão extraordinária quanto comum a nós e ao homem comum – inapelavelmente o objetio final, senão único, dos seus escritos irretocáveis..

“Tem dia que ele diz estar sem assunto. Vai até a padoca, toma um café com uns caras que estão por ali e volta com a história pronta.”

As palavras do amigo sobre Diaféria ressoavam magia, alquimia, dom.

Eu, igualmente encantado, balançava a cabeça a imaginar um dia escrever como Diaféria.

Diaféria pertence à nobre linhagem dos imortais Rubem Braga, Drummond, Paulo Mendes Campos, Sérgio Porto, Aldir Blanc, Manoel Maria, Vinícius, Fernando Sabino, Plínio Marcos…

E eu , como os bons amigos sabem, um sem noção que insiste lida na vã ilusão de dias melhores.

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