Brasileiros comemoram gol no amistoso contra o Panamá. Foto: Nélson Terme/CBF
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Tenho no meu DNA de apaixonado torcedor de futebol um desconfortável estranhamento com a seleção brasileira, o tal ‘escrete canarinho’, como diziam antigos locutores de rádio.
Não sei se me farei entender…
Mas vou tentar.
Meus amáveis cinco ou seis leitores merecem a confissão para que não tomem por um cidadão não comprometido com as próprias raízes, com o mulato isoneiro rincão.
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Para ser bem sincero, sincero mesmo, torcedor_torcedor da seleção só fui mesmo em três Copas que eu me lembre – a de 1962, a de 1966 (de triste lembrança) e a de 70, o mais belo dos mundiais. Posso acrescentar à lista, a Copa de 2002, o pentacampeonato no Japão. Sim, tem a ver com a inefável Famiglia Felipão, com Ronaldinho Gaúcho, com Rivaldo, com São Marcos, Roque Júnior entre outras causas que não sei explicitar.
Diria que eu próprio, longe do Planeta Futebol, vivia um momento auspicioso tanto no aspecto pessoal como profissional.
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Enfim.
Nas demais Copas, penso que fui me afastando gradativamente da paixão que é inerente ao torcedor de fino trato. Tenho para mim que a ausência do Rei Pelé em 74 foi uma das causas. Uma seleção brasileira sem Pelé não era a quintessência do futebol_arte, do qual tanto nos orgulhávamos. Pareceu-me que o técnico Zagalo exibia uma deslavada preferência pelos jogadores radicados no Rio de Janeiro – Paulo César Caju, Jairzinho com a 10… Ele ignorou Ademir da Guia a Copa inteira… Além do que a Holanda era a sensação do momento. O incrível carrossel laranja de Rinus Michels e Sebastian Cruyff.
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No Mundial de 78, o técnico Cláudio Coutinho (eu preferia Rubens Minelli, tricampeão pelo Internacional) não convocou Paulo Roberto Falcão. Achei uma desfeita imperdoável.
Em 82 apostei na vitória da Itália – e ganhei sozinho a bolada do bolão que a turma do jornal organizou. Às vezes, é vantajoso ser do contra. Verdade verdadeira que não apostei nas copas seguintes, e nem assim me aproximei da seleção.
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Domingo passado, na hora do amistoso Brasil e Panamá, comecei a receber mensagens no celular uma atrás da outra, outra atrás da uma. Não entendi o frenesi. Olhei para ver do que se tratava – e fui informado que um grupo de conhecidos da família apareceu no telão do Maracanã, todos entusiasmados e felizes a cantarolar apoio a Neymar (que mesmo sem jogar é a estrela da casa), Vini Jr, Raphinha e Cia Ltda.
Me senti assim, como direi, isolado do mundo.
Por que não cai sobre mim tamanha onda de verde-amarelo felicidade?
Sou um apaixonado torcedor… Ou não?
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Só então me dei conta que o, digamos, estranhamento, quase trauma, pode ser coisa de infância.
Vou-lhes contar.
Tinha sete anos quando ocorreu a primeira Copa do Mundo que tive conhecimento. A da Suécia, quando o Brasil conquistou o primeiro e inesquecível título.
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Querem saber?
Garotinho de tudo, não tinha lá a menor consciência do que estava acontecendo. O porquê de as pessoas estavam tão dilaceradas por um torneio de futebol que, ressalte-se, acontecia sei lá onde (os jogos não eram no Pacaembu, nem no Distrital do Jardim da Aclimação) e ninguém podia ver a bola rolando. As partidas só eram transmitidas pelo rádio, com uma interferência irritante.
Também não entendia bem o ‘conceito’ do que era uma seleção. Estava me acostumando – e gostando – de torcer pelo Palmeiras, time do coração do meu pai e dos italianos amigos do pai que se reuniam no Bar Astória na rua Lavapés no bairro operário do Cambuci. Era uma farra danada quando o Palestra ganhava… Riamos e debochávamos de corintianos e são-paulinos e não perdoávamos nem sequer o Seo José da vendinha perto de casa, um apaixonado torcedor da Portuguesa.
Era feliz assim – e assim me bastava.
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Que história é essa de juntar todos num time só?
Que história é essa de tirarem o Mazzola do time?
Muita bagunça para a minha vã e tenra compreensão ludopédica.
O pai bem que tentou me explicar tim_tim por tim_tim.
Bom homem, o Velho Aldo.
Fiz que entendi.
Até porque o time foi campeão – e eu…
Bem, convenhamos, eu não quis ficar fora da festa.
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TRILHA SONORA
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