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Quando os estudantes saem às ruas

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Foto: estudantes da UFF de Niterói/ Instagram do @professortulio

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Trago-lhes, para variar, uma historinha antiga…

Desconfio até que já a contei aqui.

Não custa hoje relembrá-la – e reverenciar a quem de direito – em vez de lhes falar de quem escafedeu-se, de sacripantas e afins.

Ouçam – quer dizer, leiam…

E continuem me querendo bem que não custa nada.

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Seguinte.

Eu devia ter meus 16 para 17 anos.

Trabalhava como balconista em uma pequena loja de discos na rua São Bento, ali, nas imediações do Largo de São Francisco, no centro de São Paulo.

Não era lá um grande emprego.

Foi meu pai quem me arranjou o labor junto ao amigo Luisinho, o proprietário de dois estabelecimentos no ramo.

Durou pouco – dois meses, se tanto – minha experiência em um deles.

Pessoalmente, entendia o trampo quase como uma diversão.

Ganhava pouco, mas passava o dia ouvindo música e a conversar com o amigo Diogo que trabalhava comigo. Divertia-me com os divertidos e piadistas lavadores de carro que faziam ponto na quebrada ali adiante e, cereja do bolo, era uma delícia me enturmar com os estudantes do ensino médio da Fundação Álvares Penteado. Vez ou outra, batia ponto por ali a turma  ‘cabeça-feita’ da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Vou lhes dizer, na sinceridade: tinha uma dimensão rasa do que acontecia no país.

Estudava à noite no Colégio IV Centenário, no Ipiranga.

Música e futebol, as minhas paixões juvenis.

Os recados à consciência social brotavam exatamente a partir daqueles encontros (mais ouvia que falava) e das canções de Chico, Gil, Caetano, Vandré e outros.

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Maio de 68 me surpreendeu ali.

Mera coincidência.

E espanto!

Os embates entre estudantes e policiais pelo fim da ditadura se deram diante dos meus olhos, naquele cenário tradicional, as ruas do centro-velho da Capital.

Uma correria danada.

Bombas, cassetetes, não me lembro se tiros também (mas, sempre havia a possibilidade), pedras, um fumacê daqueles e as bolinhas de gude espalhadas pelos estudantes numa estratégia para dificultar o avanço da cavalaria sobre eles.

Descíamos correndo a velha porta de aço. Dentro da loja, no espaço apertado entre as bancas de discos, dezenas de estudantes se abrigavam, com nosso consentimento e para desespero do gerente Sérgio, que era fã número 1 da cantora Nalva Aguiar.

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Ficávamos por ali, cúmplices, à espera que o turbilhão passasse.

Os estudantes não demonstravam medo.

Conversavam animadamente.

Traziam no olhar o brilho de um sonho bom, generoso, fraterno: o fim do autoritarismo, do retrocesso e a construção de um Brasil mais justo e solidário.

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Ô lembrança!

Corto para os dias atuais.

Posso lhes dizer que, 60 anos depois (ou quase isso), o velho repórter, rabiscador vacilante, surpreendeu-se com o próprio olhar admirado e feliz pelo reaparecimento da esperança e do sonho sonhado do Bem Comum. Bastou-lhe ver, dias atrás, as imagens da estudantada da Universidade Federal Fluminense (UFF) nas ruas a clamar pela democracia e pela consciência de um Brasil socialmente justo e libertário.

Quando outros estudantes em todo o país seguiram o exemplo e também se puseram em alerta, em defesa da nobre causa, incrível, mas lembrou-se o tal velhote da voz do antigo patrão Luisinho ao chegar na loja no início da noite e saber do ocorrido.

Fez cara de susto o pequeno homem. Imaginamos, então, ouvir um sermão daqueles. Sobrou-nos, porém, a inesquecível lição:

“Riscos sempre os há. Não gosto das músicas que eles ouvem. Mas, acreditem, quando os estudantes saem às ruas, eles o fazem por todos nós. Se ainda temos alguma esperança, vem daí… Só a juventude é capaz de mover e transformar o mundo”.

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TRILHA SONORA

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