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Adolescência, a minissérie

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Foto: Divulgação

Bom amigo e leitor do Blog, também jornalista (ô sina!) – juro que não é o Escova – faz a sugestão:

“Escreve aí: Dez motivos para assistir à série Adolescência, da Netflix.”

E conclui:

“Faz a experiência. Vai dar um montão de cliques”.

Agradeço a sugestão.

Acho bem-vinda.

Mas, ressalto, não sei se sei fazer as coisas assim, desse jeito. Assim moderninhas, como pede e manda a cartilha do internetês.

Sou das antigas.

E o tom das minhas historietas é bem outro.

Por exemplo.

A primeira coisa que me ocorreu ao assistir à áspera minissérie (em quatro episódios, gravadas em sequências contínuas) foi lembrar que, nos meus tempos de adolescente, houve situação semelhante ao trágico entrecho que a trama de Adolescência nos traz em tom de alerta geral: um menino de 13 anos mata uma garota, colega da sua escola.

Quando eu era garoto, vivi, digamos, indiretamente a triste realidade.

Aconteceu nas imediações do campinho onde a molecada jogava futebol.

Resumidamente, o que se soube à época: um dos nossos foi exibir a arma do pai policial e deu-se a tragédia.

A vítima, outro da nossa turma.

Eu não estava naquela fatídica tarde. Soube a notícia da boca de outros garotos na saída do colégio. Um diz-que-diz danado. Não acreditei.

Depois tive a confirmação, em casa, pela voz em tom de desespero da minha própria mãe.

Foi uma comoção em todos aqueles quadrantes.

Ficamos semanas sem dar as caras na rua e no campinho – e o autor do tiro (acidental?) e a família mudaram-se para lugar incerto e não sabido.

Lembro a consternação de todos – adultos, inclusive e sobretudo.

A solidariedade à família enlutada, o olhar penalizado à outra família, o silêncio e as conversas enviesadas.

A vida custou a voltar ao normal por aquelas bandas.

Ficou na memória a observação do Sr. Floriano, amigo do pai:

“Foi o melhor que fizeram. Aqui, para eles e para o menino, seria muito difícil para todos”.

Início dos anos 60.

O bom senso e a regra geral diziam:

“Não se deve ter arma em casa. Menos ainda deixá-la ao alcance das crianças”.

Corto para a minissérie.

O cenário é outro. Um vilarejo na Inglaterra.

Os tempos são outros.

A garotada, de uniforme vistoso, paletó e gravata, é igual, mas diferente.

Todo o cotidiano do bairro, do colégio e especialmente de uma família aparentemente normal, de porte médio, vem abaixo após o filho mais novo, de 13 anos, ser preso acusado de assassinar brutalmente uma garota, colega de escola.

A partir de então, a minissérie foca nas investigações, no drama dos pais, na jovem irmã (sempre com o celular na mão) e mesmo nas nuances do casal que trabalha na elucidação das causas de tamanha violência.

Diria que o espectador acompanha algo em choque (as cenas filmadas em sequências interligadas ditam o ritmo das ações) as duas realidades vigentes nos dias atuais – e que muitas e muitas vezes nos passam despercebidas:

(1) A vida real, o cotiiano nosso de cada dia e

(2) a implacável voracidade do universo digital onde se constrói – e também se destrói – as personalidades e os anseios dos jovens neste século 21.

Minha impressão: o “novo normal” fica ao domínio das múltiplas plataformas que é envolto e sinais e, implacável, a todos contaminam.

Os pais se veem impotentes, incrédulos – “onde foi que erramos?”.

A vizinhança alimenta-se de um misto de curiosidade e morbidez.

E a vida segue aos trancos das conexões que priorizam o bulling e a gratuidade do ódio.

Emoções e sentimentos desaparecem diante de arroubos e emojis.

Chamo a atenção para um dos diálogos entre os pais e a irmã do garoto.

Diante da situação inóspita que vivem, a mãe cogita a mudança para outra cidade. O pai é contra, fala em enfrentar a situação. A filha dá o inevitável veredito: não vai adiantar qualquer mudança, mais cedo ou mais tarde, as redes sociais serão implacáveis na repercussão do fato, do ódio e da coerção social.

Direção de Philip Barantini e escrito por Jack Thorne, Adolescência está na Netflix – e é uma das séries mais vistas do streaming.

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