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Bobagens e bandeirolas ao vento

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Foto: Arquivo Pessoal

Estava pensando, cá comigo: o que escrever na manhã de uma sexta cinza e abafada a ouvir a cantoria de um vento vadio que devaneia, sem danos, pelo bairro onde moro?

Talvez chova no decorrer do dia.

Mas, há também – vejo através da janela do apartamento no 19° andar – um presunçoso brilhareco do sol querendo se impor à faina do dia.

Por aqui, e por instantes, distraio-me a ver pessoas e carros ao rés do chão. Minúsculos. Têm o tamanho de uma formiga e, como tais, ouso intuir, não sabem de onde vem e para onde vão.

Já que lhes falei do vento vadio, preciso incluir na descrição do cenário as dezenas de esvoaçantes e mambembes bandeirolas que, enfileiradas uma após a outra, anunciam ao distinto eleitorado as promessas e o sorriso Colgate dos dois candidatos que disputam o segundo turno para o cargo de prefeito deste grande formigueiro, com a alcunha de Bernô City.

Fico imaginando se ainda existem, como nos meu tempos de garoto, aqueles galpões de ferros-velhos que reuniam, empilhado aos montes, tudo o que era tranqueira e sucata.

Minha primeira bicicleta, uma Monark, breque de pé, veio de um deles. Tinha ferrugem no guidão e nos aros das rodas, mas me é uma lembrança inesquecível.

Rodei o Cambuci, de cima a baixo, na possante.

Vida longa aos FVs!

Deve haver algum por aí.

Imagino que, na manhã de segunda, os tais serão os depositários naturais dos caniços, suportes de plásticos e tecidos coloridos que deram vida ao mais usado dos adereços publicitários dessa jornada cívica eleitoral.

Ideia de algum nobre marqueteiro, copiada pelos demais.

Ixi.

Não sou confiável mesmo.

Em meados de julho, pouco antes talvez, quando o corre do pleito municipal começou pra valer, jurei pra mim: nada escreverei sobre o assunto.

Não só porque ando desesperançado do Brasil e dos brasileiros, mas também, e principalmente, porque é inútil.

Vou lhes dizer algo que não gostaria sequer de pensar, quanto mais dizer.

Aspas para mim.

“Estou cada vez mais convencido de que, via de regra, adoramos cultuar um picareta, falastrão que ostente a panca e a pose de self made man. Ou como preferia a turma da Velha Redação, o Fodão do Bairro Peixoto, aquele que manda prender e manda soltar… em benefício próprio.”

(Apesar do palavrão, a expressão me parece mais adequado.)

Enfim.

Virei, mexi. Olhei para o lado de fora da janela – e cá estou a repetir a mesma cantilena nessa antevéspera de eleições, uma manhã de sexta cinza e abafada a ouvir a cantoria de um vento vadio que devaneia, sem danos, pelo bairro onde moro.

Perdoe-me as idiossincrasias deste cronista mulambo.

A propósito, e para dar alguma serventia às bobagens de hoje, ressalto que Vento Vadio é título de um belíssimo livro de crônicas do ótimo Antônio Maria (1921/1964), lançado pela Editora Todavia e organizado pelo escritor e pesquisador Guilherme Tauli.

Fica aí uma dica de leitura.

Maria era também compositor e autor da belíssima O Amor e a Rosa:

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