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Receita contra o tédio

Foto: Jô Rabelo

Se me permitem, compartilho com meus cinco ou seis leitores minha tradicional receita contra desânimo, tédio, lumbago, dores crônicas, apatias e desalentos generalizados.

Não requer prática, nem tão pouco hablidade.

Trata-se de antigo hábito que tenho, dos tempos de rapazote. Sempre que as coisas parecem desandar além da conta, sempre que me escapa a magia do ser e do estar, sempre que sinto-me assim num beco sem saída, recorro aos inefáveis préstimos da poesia de Mário Quintana, das crônicas de Rubem Braga ou ao inebriante mundo encantado de sons e cores de Jorge Ben Jor.

E salve simpatia!

Melhora o astral – e sugere acreditar em dias melhores.

Dou-lhes um brevíssima mostra.

1 –

ESPERANÇA

por Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

Vive uma louca chamada Esperança

E ela pensa que quando todas as sirenas

Todas as buzinas

Todos os reco-recos tocarem

Atira-se

E

— ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

Outra vez criança…

E em torno dela indagará o povo:

— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhes dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…

* Texto extraído do livro “Nova Antologia Poética”, Editora Globo – São Paulo, 1998, pág. 118.

2 –

O PAVÃO

por Rubem Braga

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d’água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

* Rio, novembro, 1958. Publicado no livro “Ai de Ti Copacabana”.

3 –

OS ALQUIMISTAS ESTÃO CHEGANDO…

por Ben Jor

Atentem para o verso:

Todos bem e iluminados

Evitam qualquer relação com pessoas

De temperamento sórdido”

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