Foto: Edifício Copan e a cidade/Secretaria de Governo Municipal
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Contam-me de um passeio inesquecível.
Não duvido.
Era 25 de janeiro de 1954.
Houve uma grande solenidade no Pátio do Colégio para comemorar o IV° Centenário da pulsante cidade de São Paulo.
Digamos que a quatrocentona e promissora metrópole viveu, então, um dia de festa.
Para o local, acorreram uma multidão de paulistanos de todos os matizes.
Entre os tais e os quais, uma família composta pelo pai, o Sr. Aldo (então com 36 anos), a mãe, Dona Yolanda com 29 anos, e os rebentos Dorothy (9 anos), Rosa Maria (que acabara de fazer 7) e o caçula Tchinim, de 3 anos.
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Contam-me também que a festa foi lindíssima. Mesmo que os discursos das autoridades fossem um tanto longos e, digamos, repetitivos. Falavam da “Terra da Garoa”, que “a cidade era a Locomotiva de um trem chamado Brasil” e São Paulo “amanhece trabalhando” e “não pode parar”.
Ah, foi emocionante ouvir a música que o acordeonista Mário Zan fez para homenagear a data histórica.
Afinal, “400 anos não são 400 dias, 400 meses… São 400 anos”.
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Acredito mesmo que tenha sido uma bonita cerimônia.
Mas, o melhor de tudo foi que, logo no início da noite, o Sr. Aldo levou a família comer pizza no Restaurante Papai em plena Praça da Sé.
Ao voltarem para o lar doce lar, na rua Muniz de Souza, no bairro operário do Cambuci, foram surpreendidos por uma Chuva de Prata que pequenos aviões despejaram do céu em voos rasantes e festivos.
A bem da verdade, o que nos chegou pelos ares foram finas e pequenas folhas laminadas de 15 a 20 centímetros, em forma triangular, com dizeres alusivos à data histórica. Crianças e adultos disputaram a primazia de colhê-las enquanto zanzavam soltas antes mesmo que chegassem ao chão.
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“Você lembra, irmão?”
É a mana Dorothy quem me envia um áudio pelo zap com a inquietante dúvida. Diz que viu a reportagem do 472° aniversário de São Paulo que hoje se celebra e recordou-se, nostálgica, daqueles idos.
Tenho uma vaga lembrança de correr entre as mesas do Restaurante Papai, onde fomos tantas outras vezes. No mais, nada lembro. Quer dizer, lembro sim dos pequenos folhetos prateados que despencaram das nuvens naquela noite que se perdeu no tempo e na história.
Havia, entre meus brinquedos, uma caixa de charutos e, dentro dela, uma penca desses adereços. Uns 10 ou 12. Como único varão dos filhos, fui incumbido pelo Sr. Aldo de ser o guardião da memória do IV° Centenário paulistano. E, como tal, ser guarda e responsável de todos aqueles pingos de sonhos e esperanças.
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Antes que a mana e os leitores mais curiosos me perguntem, vou logo dizendo que, 72 anos depois, não faço ideia onde eu os coloquei. Andam pela aí, recolhidos entre os meus guardados e badulaques de estimação – fotos antigas, revistas, recortes de jornais, flâmulas do Palestra Itália e quetais. Talvez pousem esquecidos entre as páginas de um livro antigo na estante do escritório. Há alguns anos, confesso, eu não os vejo. Sei que estão por aí, como nacos de saudade, sonhos e esperanças que, mesmo sem cuidar devidamente, o menino Tchinim insiste em não abrir mão.
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TRILHA SONORA
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